
Crnicas 02

Rubem Alves



NDICE



- Escutatria .................................................................................. 01
- Espiritualidade ............................................................................ 03
- Esquecer  .................................................................................... 04
- Gaiolas e Asas ............................................................................. 07
- Mansido..................................................................................... 09
- "Meu Clculo Cerebral est doendo..." ......................................... 13
- Meu Deus, Me Cura de Ser Grande.............................................. 16
- Monjolos e Carros de Boi ............................................................. 18
- No  Prprio Falar Sobre os Alunos............................................ 21
- O Decreto da Alegria .................................................................... 23
- O Fogo......................................................................................... 26
- "...O Melhor de tudo So as Crianas........................................... 28
- O Que Amo na Igreja  .................................................................. 31
- Os Ips Esto Floridos ................................................................ 33
- Os Mecanismos da lei ................................................................. 34
- Os Saberes de Cada Um .............................................................. 36
- Para as Mes Extremosas ............................................................ 38
- Para Uma Menina Chamada Dina................................................ 40
- Bach ........................................................................................... 42
- Perguntas de Criana .................................................................. 43
- Por Que um Jardim ..................................................................... 45
- Preciso Que Aqueles que me Amam me Perdoem.......................... 48
- Promeira Lio para Educadores.................................................. 50
- S Quero um Presente................................................................. 52
- Sobre Deus ................................................................................. 55
- Sobre Dicionrios e Necrotrios.................................................... 56
- Sobre Moluscos e Homens .......................................................... 58
- Sobre Conchas e Beleza............................................................... 60
- Sobre o Capitalismo e Jesus......................................................... 62
- Sobre Simplicidade e Sabedoria.................................................... 64
- "...Su Cadver Estava Ileno no Mundo" ........................................ 66
- Uma rvore para Landon Sheats.................................................... 69
- Uma Histria de Amor: o Jardineiro e a Frulein........................... 71
- Violinos Velhos Tocam Msica...................................................... 73
- Voltando a Ser Criana................................................................. 76
- O Prazer da Leitura................................................. .................... 78
- Sopas .......................................................................................... 81
- " Um Matuto, Pobre e Quase Analfabeto..." .................................. 83
- A Arrogncia da Incultura (Olavo de Carvalho).............................. 84
- Pelos Caminhos do Sr. Olavo de Carvalho..................................... 86
- Conversas com Empresrios ........................................................ 89
-  Preciso Tapar os Buracos dos Ratos  ........................................ 90
- Brincando com o Desconhecido ................................................... 92
- Caminhando e Cantando e Seguindo a Cano............................. 94
- Sobre Armaduras e Formigas......................................................  97
- O Discreto Bater de Asas de Anjos... ...........................................  99




ESCUTATRIA

Sempre vejo anunciados cursos de oratria. Nunca vi anunciado curso de escutatria. Todo mundo quer aprender a falar. Ningum quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer
um curso de escutatria. Mas acho que ningum vai se matricular. 

Escutar  complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que "no  bastante no ser cego para ver as rvores e as flores.  preciso tambm no ter filosofia nenhuma". 
Filosofia  um monte de idias, dentro da cabea, sobre como so as coisas. A a gente que no  cego abre os olhos. Diante de ns, fora da cabea, nos campos e 
matas, esto as rvores e as flores. Ver  colocar dentro da cabea aquilo que existe fora. O cego no v porque as janelas dele esto fechadas. O que est fora 
no consegue entrar. A gente no  cego. As rvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idias. So misturadas nas palavras da 
filosofia que mora em ns. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Ento, o que vemos no so as rvores e as flores. Para se ver e preciso que 
a cabea esteja vazia. 

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de nibus. Atrs, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, 
que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras  comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas so a 
mulher e a sua vida. Conversar  a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi l que a pera foi inventada. A alma  uma literatura. 
 nisso que se baseia a psicanlise...) Voltando ao nibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos mdicos, dos exames complicados, 
das injees na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vmitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. At que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, 
o aplauso, a admirao, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso no  nada..." 
A segunda iniciou, ento, uma histria de sofrimentos incomparavelmente mais terrveis e dignos de uma pera que os sofrimentos da primeira. 

Parafraseio o Alberto Caeiro: "No  bastante ter ouvidos para se ouvir o que  dito.  preciso tambm que haja silncio dentro da alma." Da a dificuldade: a gente 
no agenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz no 
fosse digno de descansada considerao e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que  muito melhor. No fundo somos todos iguais s duas 
mulheres do nibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "H quem no oua at que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir  a manifestao 
mais constante e sutil da nossa arrogncia e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos... 

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revoluo de 64. Pastor protestante (no "evanglico"), foi trabalhar num programa 
educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experincia com os ndios. As reunies so estranhas. Reunidos os participantes, 
ningum fala. H um longo, longo silncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silncio, como se estivessem orando. 
No rezando. Reza  falatrio para no ouvir. Orando. Abrindo vazios de silncio. Expulsando todas as idias estranhas. Tambm para se tocar piano  preciso no 
ter filosofia nenhuma). Todos em silncio,  espera do pensamento essencial. A, de repente, algum fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silncio. Falar 
logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos no so meus. 
So-me estranhos. Comida que  preciso digerir. Digerir leva tempo.  preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir so duas as possibilidades. 
Primeira: "Fiquei em silncio s por delicadeza. Na verdade, no ouvi o que voc falou. Enquanto voc falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando voc 
terminasse sua (tola) fala. Falo como se voc no tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que voc falou. Mas isso que voc falou como novidade eu j pensei h muito tempo. 
 coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que voc falou." Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que  pior que uma bofetada. O 
longo silncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que voc falou." E assim vai a reunio. 

H grupos religiosos cuja liturgia consiste de silncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Sua, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estvamos 
para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construes, no me esqueo da gua no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina 
de silncio, no total, mas de uma fala mnima. O que me deu enorme prazer s refeies. No tinha a obrigao de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. 
Podia comer pensando na comida. Tambm para comer  preciso no ter filosofia. No ter obrigao de falar  uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da 
disciplina do mosteiro era participar da liturgia trs vezes por dia: s 7 da manh, ao meio-dia e s 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado 
era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de vrias cores. Era uma atmosfera de luz 
mortia, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um cone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um amplo espao 
vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silncio. Muito 
frio, nuvens escuras cobriam o cu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A fora do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, 
como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suos 
so sempre pontuais. A liturgia no comeava. E ningum tomava providncias. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ningum que se levantasse para dizer: 
"Meus irmos, vamos cantar o hino..." Cinco minutos, dez, quinze. S depois de vinte minutos  que eu, estpido, percebi que tudo j se iniciara vinte minutos antes. 
As pessoas estavam l para se alimentar de silncio. E eu comecei a me alimentar de silncio tambm. No basta o silncio de fora.  preciso silncio dentro. Ausncia 
de pensamentos. E a, quando se faz o silncio dentro, a gente comea a ouvir coisas que no ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experincia, e 
se referia a algo que se ouve nos interstcios das palavras, no lugar onde no h palavras. E msica, melodia que no havia e que quando ouvida nos faz chorar. A 
msica acontece no silncio.  preciso que todos os rudos cessem. No silncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em ns - como no poema de Mallarm, 
A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma  uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. 
Me veio agora a idia de que, talvez, essa seja a essncia da experincia religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. A, livres dos rudos do falatrio e dos saberes 
da filosofia, ouvimos a melodia que no havia, que de to linda nos faz chorar. Para mim Deus  isto: a beleza que se ouve no silncio. Da a importncia de saber 
ouvir os outros: a beleza mora l tambm. Comunho  quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (O amor que acende a lua, pg. 65.)

ESPIRITUALIDADE
Li, no "Journal for Advanced Practical Research" sobre dois fascinantes projetos que esto sendo desenvolvidos por cientistas do M.I.T. Em decorrncia dos problemas 
ambientais provocados pelo uso da energia os cientistas tm estado  procura daquilo a que deram o nome de "tecnologias suaves", por oposio s "tecnologias duras". 
Tecnologias suaves so aquelas que tem por objetivo produzir energia sem poluir e com um gasto mnimo ou nulo dos combustveis. Por exemplo: a produo de energia 
por meio de moinhos de vento ou de energia solar  macia porque nem polui e nem esgota recursos naturais. J a produo de energia em usinas movidas a carvo  dura: 
esgota as reservas de carvo e polui. 
Preocupados com a crescente demanda de energia, a escassez de recursos e a poluio, os ditos pesquisadores esto trabalhando no sentido de produzir artefatos tcnicos 
que no faam uso nem de energia eltrica comum, nem de pilhas e nem de energia nuclear. O primeiro projeto contempla a construo de um pequeno objeto produtor 
de luz, com essas caractersticas econmicas. Trata-se de um vaso de metal ou vidro, com boca afunilada como numa garrafa, cheio com querosene, do qual sai um barbante 
grosso e que produz luz quando uma fasca  produzida na ponta do pavio - nome tcnico que se deu ao tal barbante grosso. A fasca, para ser produzida, dispensa 
o uso de fsforos. Basta que se batam duas peas de metal na proximidade da ponta do pavio. Do choque das duas peas de metal salta uma fasca que incendeia o pavio, 
produzindo uma chama amarelada suave. No momento o pesquisador est lutando com um problema para o qual ainda no encontrou soluo: um cheiro caracterstico desagradvel, 
resultante da combusto do querosene. Mas, com os recursos da qumica, ele espera poder produzir chamas com os mais variados perfumes - o que permitir que o dito 
artefato venha a ter o efeito espiritual dos incensos. Esse artefato dispensa o uso de pilhas e de energia eltrica tradicional, podendo ser usado em qualquer lugar. 
O outro projeto procura produzir um aparelho de som que funcione sem pilhas e sem eletricidade, bastando, para isso, o emprego da energia humana e do efeito armazenador 
das molas: gira-se uma manivela que aperta uma mola que faz girar o disco que, tocado por uma agulha, produz som atravs de uma corneta metlica. Com esse artefato 
 possvel ouvir msica at no alto do Himalaia.
Nesse momento espero que o leitor j se tenha dado conta de que tudo o que eu disse  pura brincadeira. Cortzar fez coisa semelhante com a histria invertida das 
invenes. Partindo do avio supersnico em que as pessoas nada vem e ficam tolamente assentadas para chegar mais depressa, Cortzar passa por inumerveis avanos 
intermedirios, at chegar ao meio mais humano, mais saudvel e mais ecolgico de locomoo, ainda no descoberto: andar a p. 
Claro, isso  pura brincadeira...Brincadeira, porque nenhum cientista iria gastar tempo criando o que j foi criado e abandonado, seja lamparina ou gramofone...
Criar! A criatividade  manifestao de um impulso que mora na alma humana.  isso que nos distingue dos animais. Os animais esto felizes no mundo, do jeito como 
ele . H milhares de anos a abelhas fazem colmeias do mesmo jeito, os pintassilgos cantam o mesmo canto, as aranhas fazem teias idnticas, o caramujos produzem 
as mesmas conchas espiraladas. No criam nada de novo. No precisam. Esto felizes com o que so. O que no acontece conosco. Somos essencialmente insatisfeitos 
e curiosos. Albert Camus disse que somos os nicos animais que se recusam a ser o que so. A gente quer mudar tudo. Inventamos jardins, inventamos casas, inventamos 
culinria, inventamos msica, inventamos brinquedos, inventamos ferramentas e mquinas. Michelangelo inventou a "Piet", Rodin inventou o "Beijo", Beethoven inventou 
a "9 Sinfonia". 
Como  que a criatividade acontece?  preciso, em primeiro lugar, que haja algo que nos incomoda. Por que  que a ostra faz prola? Porque, por acidente, um gro 
de areia entrou dentro de sua carne mole. O gro de areia incomoda. A, para acabar com o sofrimento, ela faz uma bolinha bem lisa em torno do gro de areia spero. 
Desta forma ela deixa de sofrer. Aprenda isso: "Ostra feliz no faz prola". Isso vale para ns. As pessoas felizes nunca criaram nada. Elas no precisam criar. 
Elas simplesmente gozam a sua felicidade. Bem disse Octvio Paz: "Coisas e palavras sangram pela mesma ferida". Toda criatividade  um sangramento. 
Como  que a criatividade se inicia? J disse: inicia-se com um sofrimento. O sofrimento nos faz pensar. Pensamento no  uma coisa. O pensamento se faz com algo 
que no existe: idias. Idias so entidades espirituais. O espiritual  um espao dentro do corpo onde coisas que no existem, existem. A Piet, antes de existir 
como escultura, existiu como pensamento, esprito, dentro do corpo do Michelangelo. O "Beijo", antes de existir como objeto de arte, existiu como esprito, dentro 
do corpo de Rodin. A 9 Sinfonia, antes de existir como pea musical que se pode ouvir, existiu como esprito, dentro da cabea de Beethoven. 
O esprito no se conforma em ser sempre esprito. Que mulher ficaria feliz com a idia de um filho? Ela no quer a idia de um filho, coisa linda.  linda - mas 
enquanto esprito, s d infelicidade. A mulher quer que a idia de um filho - sentida por ela como desejo e nostalgia - se transforme num filho de verdade. Por 
isso ela quer ficar grvida. Quando o filho nasce, a ela experimenta a felicidade. 
Uma idia que deseja se transformar em coisa tem o nome de "sonho". O sonho deseja transformar-se em matria. A "espiritualidade" do esprito est precisamente nisso: 
o desejo e o trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas dentro da gente (e que, portanto, s pode ser conhecido pela gente), se transforme numa coisa, 
que pode ento ser gozada por muitos. A espiritualidade busca comunho. Hegel dava a esses objetos, produtos da criatividade, o nome de "objetivaes do esprito". 
O caminho do esprito  esse: da espiritualidade pura e individual, para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e uso de muitos. Os objetos, assim, so 
o esprito tornado sensvel, audvel, visvel, usvel, gozvel. Uma cano s existe quando cantada. Um quadro s existe quando visto. Uma comida s existe quando 
comida. Um brinquedo s existe quando brincado. Um filho s existe quando parido. O esprito tem nostalgia pela matria. 
Ele deseja fazer amor com a matria. E quando esprito e matria fazem amor, nasce a beleza. Deus no se contentou um sonhar o Paraso. Se o sonho do Paraso lhe 
tivesse dado felicidade ele teria continuado apenas sonhando o Paraso. Deus no se contentou em sonhar o homem. Se o sonho do homem lhe tivesse dado felicidade 
ele teria continuado sonhando o homem. Mas ele (ou ela) s se deu por completo quando se transformou em homem: "... e o Verbo (sonho) se fez carne (corpo)". O esprito 
quer descer, mergulhar...
To diferente daqueles que pensam que espiritualidade  o esprito se despegando da matria, o corpo morrendo para ser s esprito, sem carne e sem sentidos, como 
se o material fosse doena, coisa inferior. Beethoven por acaso acharia que os instrumentos da orquestra so coisa inferior? Mas como? Sem eles a 9 sinfonia nunca 
seria ouvida! Nesse caso ele ficaria feliz com a sua surdez, porque ento a 9 sinfonia permaneceria para sempre esprito puro! 
ESQUECER

Um amigo meu, nos Estados Unidos, comprou uma casa velha de mais de um sculo, conservada, como muitas por l existem. Muitas coisas a serem consertadas. Tudo teria 
que ser pintado de novo. Antes de pintar com as cores novas ele achou melhor raspar das paredes a cor velha, um azul sujo e desbotado. Raspado o azul, debaixo dele 
surgiu uma cor rosa mais velha ainda que o azul. Raspou-a tambm. A apareceu o creme, e depois do creme o branco... Cada morador havia coberto a cor anterior com 
uma cor nova. E assim ele foi indo, pacientemente, camada aps camada. Queria chegar  cor original, que apareceria depois que todas as camadas de tinta fossem raspadas. 
Finalmente o trabalho terminou. E o que encontrou foi surpresa inesperada que o encheu de alegria. Mais bonito que qualquer tinta: madeira linda, o maravilhoso pinho-de-riga, 
com nervuras formando sinuosos arabescos cor castanha contra um fundo marfim. Parbola: somos aquela casa. Ao nascer somos pinho-de-riga puro. Mas logo comeam as 
demos de tinta. Cada um pinta sobre ns a cor de sua preferncia. Todos so pintores: pais, avs, professores, padres, pastores. At que o nosso corpo desaparece. 
Claro, no  com tinta e pincel que eles nos pintam. O pincel  a fala. A tinta so as palavras. Falam, as palavras grudam no corpo, entram na carne. Ao final o 
nosso corpo est coberto de tatuagens da cabea aos ps. Educados. Quem somos? "O intervalo entre o nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de ns", 
responde lvaro de Campos. 

Contra isso lutava Alberto Caeiro: 

Procuro despir-me do que aprendi. 
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, 
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar minhas emoes verdadeiras. 
Desembrulhar-me e ser eu, no Alberto Caeiro, 
mas um animal humano que a natureza produziu. 
Mas isso (triste de ns que trazemos a alma vestida!), 
isso exige um estudo profundo, 
uma aprendizagem de desaprender... 

Barthes se descobriu atacado pela mesma doena que afligira Caeiro. Atravs dos anos seu corpo foi coberto por saberes que se sedimentaram sobre sua pele. Agora 
ele estava enterrado, esquecido de si mesmo. S havia um caminho: desaprender tudo. "Empreendo, pois", ele diz, "deixar-me levar pela fora de toda forca viva: o 
esquecimento". Esquecer  raspar a tinta. A fim de se lembrar do esquecido. E o que ele viu, depois de terminada a raspagem, encantou-o: l estava a sua alma, o 
jeito original de saber - "sabedoria". Diz o Tao Te Ching que os saberes podem ser somados (como as camadas de tinta). Mas sabedoria s se obtm por subtrao, por 
raspagem e esquecimento. 

Com isso concorda a psicanlise. Por isso ela no usa nem pincis nem tinta, e no sabe somar. "Sem memria", diz Bion. Dedica-se, ao contrrio, s raspagens e lixaes, 
na esperana de encontrar, para alm do que sabemos, a sabedoria que ignoramos. 

Digo isso como introduo a uma srie de raspagens teolgicas que pretendo fazer. Quero raspar as tatuagens de Deus com que cobriram os nossos corpos. Telogos, 
sacerdotes, fiis - todos eles se dedicam a essa arte perversa. Pensam que suas palavras so gaiolas para pegar Deus. 

Com isso ofendem Deus: pintam-no como pssaro engaiolvel. Mas Deus  Vento ( isso que quer dizer a palavra "Esprito"), no pode ser engaiolado como passarinho. 
"Tudo aquilo para que temos palavras  porque j passamos adiante", diz Nietzsche. Em outras palavras: no adianta, quando a gaiola se fecha,  porque o sagrado 
j voou para outro lugar. Deus est sempre alm das palavras, no lugar onde as palavras no chegam, onde s existe o silncio. "A Palavra", diz a Adlia, " coisa 
mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada." 

As gaiolas de pegar Deus tm muitos nomes: rezas, teros, novenas, oraes, mantras, promessas, templos, Bblia, Coro. Mas s os cegos no percebem que elas esto 
sempre vazias. 

Se deixarmos as metforas bblicas e passarmos para as metforas do Tao Te Ching seremos transformados de pssaros em peixes: sairemos do Vento e mergulharemos no 
Rio - do jeito mesmo como Escher viu e pintou, no intervalo (guarde esta palavra!) dos patos que voam esto os peixes que nadam! (A festa de Maria, pg. 21.) 


GAIOLAS E ASAS 
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram tambm 
atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a fora de um raio. Aforismos so vises: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, 
de repente, esse aforismo me atacou: "H escolas que so gaiolas. H escolas que so asas".
Escolas que so gaiolas existem para que os pssaros desaprendam a arte do vo. Pssaros engaiolados so pssaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode lev-las 
para onde quiser. Pssaros engaiolados sempre tm um dono. Deixaram de ser pssaros. Porque a essncia dos pssaros  o vo.
Escolas que so asas no amam pssaros engaiolados. O que elas amam so os pssaros em vo. Existem para dar aos pssaros coragem para voar. Ensinar o vo, isso 
elas no podem fazer, porque o vo j nasce dentro dos pssaros. O vo no pode ser ensinado. S pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam so relatos de horror 
e medo. Balbrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaas... E elas, timidamente, pedindo silncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam 
feitas, como dar o programa, fazer avaliaes... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras  mostra - e a domadoras 
com seus chicotes, fazendo ameaas fracas demais para a fora dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir  escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho  livrar-se de tudo aquilo. Mas no podem. A porta de ferro que fecha 
os tigres  a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infncia, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas prprias arapucas, punha fub dentro e ficava escondido, esperando... O pobre 
passarinho vinha, atrado pelo fub. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mo na arapuca, 
pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pssaro se lanava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre 
os vos. Na intil tentativa de ganhar de novo o espao, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pssaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta ser a imvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou sero as escolas 
que so violentas? As escolas sero gaiolas? Vo me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem 
de vida. De acordo.  preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educao. Uma boa educao abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas 
escolas esto dando uma boa educao? O que  uma boa educao?
O que os burocratas pressupe sem pensar  que os alunos ganham uma boa educao se aprendem os contedos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educao, 
criam mecanismos, provas e avaliaes, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministrio da Educao.
Mas ser mesmo? Ser que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educao? Voc sabe o que  "dgrafo"? E os usos da partcula 
"se"? E o nome das enzimas que entram na digesto? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plcidas de um povo herico o brado retumbante"? Qual a utilidade 
da palavra "mesclise"? Pobres professoras, tambm engaioladas... So obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que  intil. Isso  hbito velho das 
escolas. Bruno Bettelheim relata sua experincia com as escolas: "Fui forado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender 
 sua maneira".
O sujeito da educao  o corpo, porque  nele que est a vida.  o corpo que quer aprender para poder viver.  ele que d as ordens. A inteligncia  um instrumento 
do corpo cuja funo  ajud-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligncia, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional 
do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos". 
"Ferramentas" so conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" so todas aquelas coisas que, no tendo nenhuma utilidade 
como ferramentas, do prazer e alegria  alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, est o resumo da educao. Ferramentas e brinquedos no so gaiolas. So asas. Ferramentas me permitem voar pelos 
caminhos do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem est aprendendo ferramentas e brinquedos est aprendendo liberdade, no fica violento. Fica alegre, vendo 
as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar,  ferramenta?  brinquedo?" Se no for,  melhor deixar de lado.
As estatsticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados no me dizem nada. No me dizem se so gaiolas ou asas. 
Mas eu sei que h professores que amam o vo dos seus alunos.
H esperana...


 MANSIDO

Eu era menino, l em Minas, bola de gude no cho, pipa voando no ar, pio rodando na mo... De dia brincando naquela terra, de noite lutando distante guerra... Os 
homens da vizinhana se reuniam  frente da nossa casa para ouvir o rdio - era o nico da redondeza - notcias da guerra na Europa. E o Carlos Frias dizia com sua 
voz dramtica, fundo musical de "Moonlight Serenade": "E Stalingrado continua a resistir." Ao que, ouvindo isso o Z da Cotinha - a Cotinha era uma vizinha velha 
desdentada maledicente que estava sempre pedindo uns pauzinhos de lenha emprestados - o Z da Cotinha anunciava com voz solene que ningum ousava contestar: "Pois 
hoje,  meia-noite, Stalingrado vai mudar de nome. Vai se chamar Hitlerlogrado..."

Era emocionante. O pai ia me mostrando, no enorme mapa da Europa pendurado na parede da sala, os lugares que tinham sido mencionados no rdio, lugares onde as metralhadoras 
e os canhes faziam soar a "sinistra melodia" da guerra. E eu imaginava a msica do pisto a tocar languidamente o "toque de silncio", ao cair da noite, em memria 
daqueles que haviam sido silenciados para sempre.

Quando a guerra acabou - eu tinha 12 anos - perguntei ao meu pai: "Agora quais sero as notcias que vo aparecer nos jornais?" Meu pai respondeu: "Os jornais vo 
falar sobre poltica." Pensei: "Ento vai ser muito chato..." Fiquei triste porque a guerra tinha acabado. A guerra  mais emocionante que a paz. Agora os jornais 
esto interessantes de novo. No mais as banalidades da corrupo de polticos grotescos que vomitam eloquncia com dedo em riste. Emoo de verdade. Adrenalina. 
Ao. Guerra. Guerra com prenncios de fim do mundo. Fico hipnotizado pelas manchetes. Elas me colocam no meio da emoo da ao. Essa  a razo porque os filmes 
de guerra so campees de bilheteria: todo mundo quer experimentar as emoes da guerra sem correr os seus perigos. A ao  rpida. Meu pensamento, lerdo, no consegue 
segui-la. As imagens tomam o lugar das idias. Sou espectador de um filme de guerra - um mero espectador. Foram outros os que escreveram o "script". Eu nada posso 
fazer alm de contemplar. Estou estupidificado intelectualmente e paralisado praticamente.

* * *

O professor Bento Prado Jr.  filsofo, talvez o maior filsofo brasileiro. Velho, mais ou menos a minha idade. Escreve com clareza. Escreve com beleza. Professor, 
pensou e ensinou o pensamento de outros. Sbio, pensa e ensina os seus prprios pensamentos. Sabe que sabedoria se ensina com poesia. Assim, virou poeta e escreveu: 
"Na minha vida to agitada, / na alma exposta ao tormento de tanto vento - o lenol, no varal, l fora, que estala violento / contra si mesmo e contra o Bento - 
, eis-me, finalmente, velho e sem idade / com o vendava l que, desde sempre, estrala, no espao onde se dispersam as estrelas. / Que fazer? Mudar o mundo, justo 
em seu fim, ou, mais custoso ainda, a mim? / Nem um, nem outro: - cultivar docemente meu jardim."

Esse poeminha me deu grande "felicidade de palavras": ele diz o que sinto. L fora, o vendaval que estala violento, indiferente ao que sinto, indiferente ao que 
penso. Nada posso fazer. Ele s faz me emocionar, uma emoo estril, uma ereo do pensamento sem que haja ato de amor, orgasmo e fecundao. Assim, fecho os jornais 
com suas manchetes de guerra que me deixam na condio de espectador intil, e me volto para aquilo que posso fazer. Posso fazer amor com o meu jardim. Meus pensamentos 
sobre o meu jardim no sero inteis. Do meu jardim eu posso cuidar.

Nas manchetes dos jornais, as emoes fortes da morte, rpida e barulhenta. Minhas idias perturbadas. Nas plantas do meu jardim, as emoes brandas da vida, mansa 
e silenciosa. Penso pensamentos alegres.

* * *

Quem ter sido? De uma coisa estou certo: tinha de ser jardineiro, tinha de ser poeta e tinha de ser educador. Tudo junto. Se jardineiro, poeta e educador no estivessem 
juntos a metfora no teria aparecido. "Jardim de Infncia!" Foi isso o que esse desconhecido exclamou ao ver a crianada alegremente aprendendo. E todos concordaram. 
" isso mesmo!" - responderam em coro. Tanto que o nome ficou, muito embora o nome do poeta-jardineiro-educador tenha sido esquecido.

Crianas e jardins - como se parecem! Nos dois a vida aparece, exuberante, alegre e mansa. Alguns no gostaram do nome "jardim". Acharam que o ensino dos saberes 
 coisa sria, no  brinquedo, no  coisa de criana, ensinam-se os saberes s crianas precisamente para que elas deixem de ser crianas e se tornem adultos produtivos. 
Jardim no  espao produtivo. Produtivas so as hortas. Assim, trataram de fazer com que o nome "jardim de infncia" tivesse vida curta - como uma bolha de sabo. 
Logo as crianas saem do jardim e entram para a escola de verdade que no  jardim. Se fosse, se chamaria jardim. Se no se chama jardim  porque no . Que coisa 
 essa escola que no  jardim eu no sei direito. s vezes imagino que ela  uma linha de montagem - as crianas-flores sendo transformadas em peas de uma mquina.

Pois estou muito alegre porque Campinas, nesse momento em que as manchetes dos jornais esto cheias de violncia, crimes e morte, est recebendo a visita de um educador 
que acha que a escola tem de ser um jardim, do princpio ao fim.  o professor Jos Pacheco, acompanhado da esposa Ftima - da Escola da Ponte, aquela sobre que 
escrevi, em Portugal: a escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir...

Imagino que todo mundo deve estar curioso sobre os princpios bsicos da sua jardinagem pedaggica... Isso  fcil.

Posso resumir os princpios pedaggicos da Escola da Ponte em poucas palavras.

Posso tambm resumir os princpios da jardinagem em poucas palavras.

E os princpios do casamento feliz em poucas palavras.

At mesmo os princpios da arte de escrever em poucas palavras.

Mas h um problema que no sei resolver: o conhecimento dos princpios nem faz jardins bonitos, nem casamentos felizes e nem literatura bonita. Princpios funcionam 
bem quando o que se deseja  a produo de uma linha de montagem. No funcionam bem quando o que se deseja  a criao de um jardim... Princpios pedaggicos no 
fazem escolas-jardins...

Martin Buber, um maravilhoso filsofo que ps palavras nos meus sentimentos, disse que o que faz o mundo humano no so as coisas. So as relaes. O Paraso era 
um lugar maravilhoso, onde se encontravam todas as coisas capazes de trazer felicidade. Mas houve um momento em que a beleza do jardim foi destruda por uma perturbao 
nas relaes. Homem e mulher se olharam com olhos tortos, tiveram vergonha um do outro, e se cobriram. Tiveram medo de Deus, e se esconderam. E o Paraso foi perdido. 
Veja o nosso mundo. Com a riqueza que temos e o conhecimento que produzimos, temos condies de reconstruir o Paraso. E, no entanto, nossa riqueza e nossa cincia 
produziram um Inferno. Por qu? Porque as relaes entre as pessoas e os povos esto podres, vazias de amor, cheias de morte. Isso vale para tudo. Assim acontece 
com pases, empresas, universidades, casas, escolas...

O segredo da Escola da Ponte no se encontra nos seus princpios pedaggicos. Ele se encontra nas relaes entre pessoas que ali convivem e trabalham. Acontece que 
a qualidade das relaes no pode ser produzida por princpios que se ensinam em cursos de capacitao. "Mundos melhores no so feitos; eles simplesmente nascem" 
- disse Cummings. A mesma coisa vale para as instituies e organizaes:  preciso que a relaes nasam... Uma planta, para nascer, tem de ser plantada. E que 
semente  essa que foi plantada, nasceu e floresce na Escola da Ponte?

Eu acho que  uma semente que o Jos Pacheco plantou, sem saber que estava plantando. Plantou sem inteno, simplesmente sendo o que ele , sem precisar fazer fora. 
O Jos Pacheco plantou mansido...

Mansido  o abandono voluntrio do exerccio do poder. "Professor Jos Pacheco" - uma pessoa conversava com ele ao telefone, faz uns dias - "tenho de preencher 
formulrios relativos  sua vinda ao Brasil. No item relativo  sua funo o que coloco? Diretor?" Responde Jos Pacheco do outro lado do oceano, quase gaguejando: 
"No... no... Aqui no temos um diretor. Todos os professores so diretores. Coloque ..." segue-se um silncio - "coloque 'coordenador de projetos'".  verdade. 
Na Escola da Ponte no h uma pessoa que tenha a ltima palavra. O poder no pertence a ningum; pertence a todos. As idias no so monoplio de ningum. So propriedade 
de todos. O poder no estando localizado numa diretoria, no existe tenso entre "diretoria" e subordinados. E nem a possibilidade de greve... por no haver um detentor 
do poder a ser dobrado pela fora. E nem uma instncia superior que use fora para intimidar os mais fracos: o professor que manda o aluno para a diretoria... Se 
h questes de disciplina a serem resolvidas, sero os prprios alunos que as resolvero - pois so eles que cuidam que ningum estrague o seu jardim. E se todos 
participam, em igualdade, do cuidado desse jardim, o solo no  propcio para o desenvolvimento da grande praga, responsvel pelo envenenamento das relaes humanas: 
a inveja. No digo que ela no exista... Mas, se aparece, brota mirrada, envergonhada, no tem tempo de se transformar em maledicncia e conspirao,  fcil de 
ser arrancada...

Viso do profeta Isaas (cap. 6:11-13). Estas eram as manchetes dos jornais no tempo em que ele vivia: as cidades devastadas, sem habitantes; as casas vazias, sem 
moradores; e os campos totalmente assolados. Nesse cenrio de fim de mundo Deus lhe diz: ser como o carvalho, que mesmo depois de cortado, continua a brotar...

A Escola da Ponte  um broto verde, um anncio de jardim em meio ao deserto.

Bem-vindos, Jos Pacheco e Ftima...


Aperitivos

1. "Bem-aventurados os mansos porque eles herdaro a terra".

2. "So as palavras mais tranquilas que trazem a tempestade. Pensamentos que caminham com ps de ps de pomba - so eles que guiam o mundo." (Nietzsche)

3. Albert Camus: "J se disse que as grandes idias vm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, ento, se ouvirmos com ateno, escutaremos, em meio ao estrpito 
de imprios e naes, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperana. Alguns diro que tal esperana jaz numa nao; outros, num homem. Eu creio, 
ao contrrio, que ela  despertada, revivificada, alimentada por milhes de indivduos solitrios, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicaes 
mais cruas da histria. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade sempre ameaada de que cada e todo homem, sobre a base dos seus prprios sofrimentos 
e alegrias, constri para todos..." (Albert Camus)

4. "No h imprio que valha que por ele se parta uma boneca de criana." (Bernardo Soares)

(Correio Popular, Caderno C, 30/09/2001.) 




"MEU CLCULO CEREBRAL EST DOENDO..."
Clculos renais so minsculos cristais produzidos pelos rins. Entalados num ureter produzem dor tamanha que, no fora a esperana de alvio, o sofredor desejaria 
morrer. A, repentinamente, o cristal se desloca e se aninha num outro lugar confortvel e a dor passa. Mas o alvio  passageiro. Move-se de novo, volta a dor e 
a vontade de morrer. Sei porque j sofri. Faz tempo que eles no me visitam e espero que nunca mais voltem. Mas,  semelhana dos meus rins, minha cabea se especializa 
em produzir clculos cerebrais. Clculos cerebrais so idias que dem muito, muito. Um desses clculos me est fazendo sofrer. Apareceram pela primeira vez faz 
muitos anos, ao ler o livro Os limites do crescimento.
O que  isso, limites do crescimento?  fcil entender. Qualquer criana entende. Crianas adoram bexigas! Todo aniversrio tem de ter bexigas coloridas! Mas as 
bexigas, para ficarem bonitas, tm de ser cheias de ar. A gente comea a soprar, vai soprando, a bexiga vai enchendo, ficando cada vez maior. Mas a criana sabe 
que  preciso parar de soprar. Porque, se no parar, a bexiga estoura. A bexiga  feita de borracha, um material que tem capacidade de se expandir. Mas no pode 
se expandir indefinidamente. Depois de um certo ponto, arrebenta. Sbia, a criana prefere ter uma bexiga pequena a no ter nenhuma.
O que o livro Os limites do crescimento diz  que o nosso mundo  como uma bexiga. Ele tem limites. No pode crescer indefinidamente. Ultrapassados esses limites 
vai acontecer com ele o que acontece com a bexiga. O nome dessa bexiga multicolorida em que vivemos  "biosfera", uma esfera mgica onde h vida! Sem se importar 
com os limites da biosfera, h Algum que a est soprando sem parar. A bexiga est ficando cada vez maior. Pode estourar. Por que  que esse Algum no para de soprar? 
No pode parar de soprar porque, se parar, ele morre. O nome desse algum  "capitalismo". O capitalismo  um sistema que precisa crescer sempre, como se limites 
no existissem. No pode parar de soprar o balo. Economia que no cresce  economia estagnada, moribunda. Crescimento constante significa padres crescentes de 
consumo de energia, uso crescente das reservas naturais da terra, crescimento constante das indstrias, acelerao das transformaes ambientais. Mas, ao soprar 
a bexiga, ele faz promessas maravilhosas: "Tudo isso te darei se prostrado, me adorares...": progresso. riqueza, bem-estar, beleza e at mesmo amor...
Li, faz vrios anos, uma entrevista que uma de nossas revistas fez com o presidente de uma gigantesca empreiteira - do seu nome eu me esqueci, mas no do seu cachimbo... 
Ele falava com entusiasmo acerca das riquezas enterradas na Amaznia e que o progresso haveria de desenterrar. A o meu clculo cerebral ps-se a doer, minha imaginao 
ps-se a trabalhar e aquele homem se me apareceu como um general comandante de uma diviso de blindados, tratores, escavadeiras, brocas perfurantes, serrarias, guindastes, 
caminhes, serras, em guerra contra a natureza selvagem, cortando rvores, abrindo estradas, perfurando a terra, extraindo ferro, ouro, petrleo, construindo barragens, 
enquanto animais maravilhosos, aves coloridas, flores exticas, peixes e guas cristalinas fugiam, impotentes ante o avano do progresso, do ao, do barulho, do 
cimento, fumaa, areia - areia to branca e to fina como a areia das praias... E do lucro. Porque o lucro  o nico valor que o capitalismo conhece, o nico motor 
que move as bolsas.  preciso reconhecer que a preservao da natureza e da maravilhosa diversidade de vida que enche o nosso mundo de beleza e alegria  incompatvel 
com os exigncias do progresso. Afinal de contas animais e plantas em seu estado selvagem no tm significao econmica. Sim, depois de explorados os recursos naturais 
da Amaznia estaremos muito ricos. Teremos tanto dinheiro que poderemos construir pirmides no meio das areias brancas desoladas e mortas que restaro... No sei 
se  verdade: disseram-me que, em milnios passados, havia florestas no Saara.
Para evitar a dor do meu clculo cerebral passei a evitar informaes que me fizessem pensar no fim do mundo, no estouro da bexiga. Mas a mdia no deixava. A televiso 
tem o poder de fazer a gente ver o que no quer ver. Florestas e campos incendiados, o mar coberto com o petrleo, peixes mortos boiando em rios, milhares de carros 
enchendo o ar com monxido de carbono, montanhas de lixo crescendo sem parar, o apodrecido Tiet... Estive, pela primeira vez, em Rondnia. Encantaram-me os ips 
amarelos floridos no meio dos campos. Diferentes dos nossos, eram muito altos. A me explicaram: so altos porque cresceram no meio da mata. Ficaram altos para chegar 
at a luz! As matas foram cortadas. Transformaram-se em lucro. Ficaram os altos ips, como testemunho do que j foi. Enquanto isso deslizam os caminhes, sem parar, 
carregados com gigantescas toras de madeira.
A dor aumentou: o fracasso da conferncia sobre o meio ambiente, em Johanesburg, Rio+10. O fracasso era inevitvel. Em oposio ao crescimento suicida em que nos 
encontramos, alguns desenvolveram o conceito de "desenvolvimento auto-sustentvel". Desenvolvimento auto-sustentvel  desenvolvimento em harmonia com a fragilidade 
da vida, a fragilidade da biosfera. Com esse conceito tentava-se introduzir na economia capitalista, que s conhece a tica do "lucro", a tica da "reverncia pela 
vida". Mais importante que o lucro so o ar, as guas, a terra, a temperatura da terra. Mas a lgica interna do capitalismo no admite limites. As justas crticas 
ticas que se fazem ao capitalismo, de que ele produz a pobreza e concentra a riqueza, no vo ao cerne da questo. Imaginemos que, por um passe de mgica, o capitalismo 
viesse a fazer com que todos os pobres do mundo tivessem o nvel de bem-estar dos pases ricos. Um dos ndices usados para se medir o bem-estar de um povo  o consumo 
de energia por habitante. Um mundo em que todos tivessem o nvel de bem-estar dos pases ricos seria um mundo em que todos os seus seis bilhes de habitantes consumiriam 
a mesma quantidade de energia que consomem os habitantes dos pases ricos. Mas se isso viesse a acontecer as alteraes no ambiente, na temperatura e na atmosfera 
seriam de tal monta que as calotas polares se derreteriam e o ar se transformaria em veneno. Imagine uma vela gigantesca representando os recursos naturais da terra. 
Nela esto bilhes de pavios, um para cada habitante da terra. Mas desses, s quinhentos milhes esto acesos: a populao dos pases ricos. Esses quinhentos milhes 
de pavios acesos fazem a vela se derreter rapidamente, enchem o ar de fumaa e aumentam a temperatura do ambiente a nveis insuportveis. O que aconteceria se os 
seis bilhes de pavios fossem acesos?  isso que aconteceria se os benefcios do capitalismo fossem "democratizados", se ele conseguisse dar a toda a populao do 
mundo o nvel de bem-estar econmico dos pases ricos. O bem-estar universal se transformaria na runa universal.
Meu clculo cerebral comeou a doer porque no vi o futuro do nosso mundo sendo assunto de debates entre os candidatos polticos. Tive a impresso de que todos prometem 
a mesma coisa: crescimento econmico, mais empregos, mais produo industrial, mais exportaes, soprar a bexiga, soprar a bexiga... Mas eu os absolvo. Eles no 
so culpados. O jogo da poltica  igual ao jogo da economia. A tica da economia  o lucro. A tica da poltica  o poder. Pelo lucro se faz tudo, pelo poder se 
faz tudo - mesmo o inimaginvel... Os polticos no tm alternativas porque eles so refns de dois poderes. De um lado, o poder econmico. Sem dinheiro eles nem 
se elegem e nem governam. Bush, presidente do pas que mais polui e que mais coloca em risco o futuro da terra (no seria isso um tipo de terrorismo?) recusou-se 
a ratificar o Procotolo de Kioto, sobre controle de emisso de gases, porque isso colide com os interesses da economia norte-americana. Do outro lado os polticos 
esto  merc das necessidades imediatas do povo que os elege e os mantm no poder. Para se pensar no futuro da terra  preciso pensar longe. Mas o povo sofrido 
no tem condies para pensar longe. Quem est com fome agora no pode comer colheitas futuras! Quem est com fome daria a alma ao Diabo por um prato de comida ou 
um emprego!
Di o meu clculo cerebral, entalado. Procuro alvio. Em vo. Eu gostaria de poder votar num "conspirador", em algum que falasse com paixo sobre o futuro da terra, 
mesmo ao risco de no fazer promessas de crescimento, para se eleger. Afinal de contas a terra ser a terra dos nossos filhos e netos. Gostaria que eles a recebessem 
bela, pura e exuberante de vida...

l As profecias esto se cumprindo: Os profetas vaticinaram que a vinda do Reino seria marcada por uma metamorfose universal: o leo deixaria de ser carnvoro e comeria 
palha com o boi, as serpentes abandonariam o seu veneno e seriam companheiras de brinquedo das crianas... Olhando bem para as alianas polticas que se celebram 
alegra-me ver lobos, tigres, gambs, hienas, cobras, raposas, bichos de dieta carnvora, irmanados aos cordeiros, bois, coelhos, galinhas, pombas, bichos mansos 
de dieta vegetariana. Meu desejo sincero  que os carnvoros no mudem de idia. Porque se isso acontecer haver churrascos...
l Voc faz a capa do livro! A capa do meu novo livro Retratos de Amor  apenas uma moldura de retrato, vazia. Mas h dois cortes verticais, no lado interno da moldura: 
atravs deles voc coloca o retrato do seu amor! A capa do seu livro, ento, ser absolutamente nica, diferente de todas as demais. Se voc der, para o seu amor, 
um livro com a fotografia dele ou dela na capa,  certo que haver uma recada de paixo! Vai ser lanado no prximo dia 24, quinta-feira, na Fnac, shopping D. Pedro, 
a partir das 19h. Informaes: telefone 3272-4500, Papirus Editora.

MEU DEUS, ME CURA DE SER GRANDE...
O cu estava enfarruscado. O vento soprava nuvens cinzentas desgrenhadas. Nem lua nem estrelas. Bem dizia minha me que em dia de chuva elas se escondem, por medo 
de ficarem molhadas. A gente se lembrou de Prometeu: foi ele quem roubou dos deuses o fogo - por d dos mortais em noites iguais quela. Se no fosse por ele o fogo 
no estaria crepitando no fogo de lenha. O fogo fazia toda a diferena. L fora estava frio, escuro e triste. Na cozinha estava quentinho, vermelho e aconchegante. 
No fogo fervia a sopa: o cheiro era bom, misturado ao cheiro da fumaa. Comida melhor que sopa no existe. Se eu tivesse de escolher uma comida para comer pelo resto 
de minha vida no seria nem camaro, nem picanha, nem lasanha. Seria sopa. Sopa  comida de pobre, que pode ser feita com as sobras. Pela magia de fogo, caldeiro 
e gua, qualquer sobra vira sopa boa. Tem at a estria da sopa de pedra... 

O fogo  um poder bruxo. Tem o poder de irrealizar o real: os olhos ficam enfeitiados pela dana das chamas, os objetos em volta vo perdendo os contornos, acabam 
por transformar-se em fumaa. Quando isso acontece comeam a surgir, do esquecimento em que estavam guardadas, as coisas que a memria eternizou. O fogo faz esquecer 
para poder lembrar. Digo sempre para os meus clientes que, ao invs do div, que lembra maca de consultrio mdico, eu preferiria estar assentado com eles diante 
de um fogo aceso.  diante do fogo que a poesia aparece melhor. No admira que Neruda tivesse dito que a substncia dos poetas so o fogo e a fumaa. 

"Antigamente eu costumava propor uma troca com Deus: um ano de vida por um s dia da minha infncia... Hoje no fao isso. Tenho medo de que ele me atenda. No acho 
prudente, na minha idade, dispor assim dos meus anos futuros, pois no sei quantos esto ainda esto  minha espera..." Assim falou a Maria Alice com voz mansa, 
saudade pura. O fogo de lenha  lugar de saudade. Porque os foges de lenha, eles mesmos, so fantasmas de um mundo que no mais existe. 

"Quando eu era menina, l em Mossmedes, nas noites frias a gente se reunia na cozinha, todos assentados em volta de uma bacia cheia de brasas, os ps nos pauzinhos 
das cadeiras, era bom o calor do fogo nos ps frios..." 

"... a me enrolava um pano na cabea e dizia: 'Vou no quintal apanhar umas folhas de laranjeira pra fazer um ch pra ns' - e virava a taramela para abrir a porta 
da cozinha. O pai dizia sempre a mesma coisa, todo dia: 'Mulher, voc vai  ficar estuporada, de boca torta. Faz mal tomar friagem com corpo quente de fogo...' Mas 
a me nem ligava. Com as canecas quentes de ch na mo - como era bom o cheiro de folha de laranja! Posso at sentir ele de novo! - a gente pedia ao pai pra contar 
estrias. Ele contava. Eram sempre as mesmas. A gente j sabia. Mas era como se ele estivesse contando pela primeira vez. Vinha sempre o assombro, o medo, os arrepios 
na espinha." 

A ela parou e comeou a divagar. Lembrou-se de um tio. 

"Naquele tempo as pessoas eram diferentes. Pois esse meu tio tinha, na frente da casa dele, uma sala grande, vazia, que nunca era usada. Houve gente que quis alugar 
a sala - ele receberia um bom dinheirinho por ela. Recusou. E se explicou: 'No alugo no.  dessa sala que eu vejo a chuva vindo, l longe. Se eu alugasse ficaria 
triste quando a chuva viesse...' , as pessoas eram diferentes..." 

Houve um silncio. A a memria potica se transformou em imaginao teolgica. 

"Eu acho que h muitos cus, um cu para cada um. O meu cu no  igual ao seu. Porque cu  o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. 
No cu est guardado tudo aquilo que a memria amou..." 

J sugeri que teologia  coisa que deve ser feita na cozinha. Claro que no  qualquer cozinha. Cozinha de microondas e fogo a gs no serve. Sei que  mais prtico. 
Fogo a lenha  coisa complicada.  preciso muita arte para acender o fogo. E  preciso cuidado para que ele no se apague. Mas que sonhos me faz sonhar um forno 
de microondas? Que sonhos me faz sonhar um fogo a gs? 

Enquanto a Maria Alice falava eu voltava para minha casa de infncia, em Minas Gerais, casa velha, forro de esteira, assoalho de tbuas largas, j meio apodrecidas, 
goteiras sem conta nos dias de chuva. A gente no se afligia. Isso era o normal. Telhado sem goteira era que era impensvel. E era bom ouvir os pingos da chuva batendo 
nas panelas e bacias espalhadas pela casa. Era do mesmo jeito, nas noites frias. Com duas diferenas: a gente apagava a luz. No por economia mas para fazer a magia 
mais forte. No escuro os rostos refletiam as brasas, ficavam vermelhos contra o fundo negro. A imaginao ficava bbada, as estrias mais fantsticas. A outra  
que havia sempre o apito rouco do trem-de-ferro. Vinha resfolegando, apitava na curva um gemido rouco, triste. Chamuscava a paineira velha com milhares de faiscas 
que saam aos jatos, ejaculaes incandescentes, e eu imaginava que assim tinham nascido as estrelas - eram fascas de um trem-de-ferro cujo maquinista era Deus. 

Fernando Pessoa era tomado por xtases metafsicos ao contemplar o cais de pedra e os navios que partiam. Eu sinto o mesmo ao pensar no trem-de-ferro e no seu apito 
rouco que no mais se ouve. 

"Um trem-de-ferro  uma coisa mecnica, 
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, 
atravessou minha vida, virou s sentimento" - assim foi o gemido rouco da Adlia Prado, poema-apito de trem-de-ferro... 

Lembro-me do meu assombro, quando meu pai completou 60 anos. Como ele me parecia velho! Com certeza j estava remando sua canoa rumo  terceira margem do rio. Eu 
acho que a terceira margem  a saudade. Diz o Riobaldo que "toda saudade  uma forma de velhice". Hoje, 15 de setembro, jogo no rio da saudade mais um ano de vida. 
 a 63a vez que fao isso. A vela est ficando curta. E o fao rezando, com a Maria Alice e a Adlia: "Meu Deus, me d cinco anos, me cura de ser grande..." 

(Transparncias da eternidade, Verus, 2002)

MONJOLOS E CARROS DE BOI
Minhas netas: Os animais, para sobreviver, precisam apenas de uma coisa: os seus corpos. Os corpos dos animais - cada um deles  uma caixa de ferramentas onde esto 
guardadas as ferramentas de que eles tm necessidade para sobreviver. Dentes, garras, carapaas, escamas, asas, ferres, venenos, disfarces, fedores, perfumes, cascos... 
Os gambs so fedidos: com isso eles afastam os inimigos. O bicho-pau se parece com um pedao de pau seco. Com isso ele se esconde dos pssaros que gostariam de 
com-lo. Os castores tm dentes enormes e afiados, verdadeiros formes que usam para cortar rvores para fazer as represas em que vivem. H um besouro terrvel, 
chamado "bicho-serrador". Pois o danado, de noite, corta galhos de rvores com a preciso de uma serra. E os vagalumes possuem lmpadas que se acendem durante a 
noite, para atrair as namoradas. Nenhum pssaro  louco de engolir uma taturana. Lindas, verdes, vermelhas, marrom, abbora, so fogo puro. E a cascavel, cobra pacfica, 
adverte aqueles que esto se aproximando com o chocalhar dos guizos que tm na ponta do rabo. Mas esse animal chamado homem, ao contrrio, tem uma caixa de ferramentas 
muito pobre... Se os homens tivessem de se virar s com o seu corpo, h muito teriam desaparecido. Mas como eles no queriam desaparecer, eles se puseram a pensar. 
E, com essa ferramenta chamada pensamento, eles se puseram a inventar coisas para melhorar o seu corpo deficiente. Cada inveno  uma melhoria do corpo. O que  
uma rede de pescar?  uma melhoria das mos que, sozinhas, no conseguiriam agarrar os peixes. Uma rede  uma mo com 1.000 dedos! E o que  um cesto?  uma melhoria 
dos braos e das mos que, sozinhos, no conseguiriam carregar mais que 6 ovos. Com uma cesta eu posso carregar 50 ovos! O fio dental  uma melhoria da unha. Aquele 
pedao de carne entre os dentes, irritante, a unha no chega l. Primeira melhoria da unha: um pauzinho de ponta, palito. Mas mesmo o palito no consegue cutucar 
as carnes mais fundas. A o pensamento inventou o fio dental. Pense no seu corpo nu: todos os objetos que no so o corpo e que esto ao seu redor e que ele usa 
tm o nome de tecnologia. 
A tecnologia  uma extenso do corpo, uma melhoria do corpo. O corpo inventou a tecnologia para viver melhor, para sofrer menos, para fazer menos fora... Por isso 
os homens inventaram os monjolos...
Voc no sabe o que  um monjolo. Nunca ouviu falar. Vou explicar. Tudo comeou quando um homem percebeu que havia coisas duras demais para os nossos dentes. O milho 
maduro, que os dentes dos cavalos trituram sem dificuldade, se um homem tentar fazer como os cavalos fica desdentado. A o pensamento pensou um jeito de ajudar os 
dentes: transformar o milho em farinha. O pensamento pensou e teve a idia de quebrar o gro com uma pedra. Funcionou. A pedra quebrou o milho mas o milho se espalhou 
por todos os lados e foi um trabalho ajuntar tudo. A a inteligncia pensou que, se o milho estivesse dentro de um buraco num pau, ele no se espalharia quando 
batido. S que, para se bater no milho, no fundo de um buraco num pau, no era possvel usar uma pedra. A inteligncia pensou que o mesmo resultado da pedra podia 
ser obtido com um pau comprido que entrasse dentro do buraco. Assim foi inventado o pilo. Mas ficar batendo no milho com o pau dava uma canseira... A houve um 
homem, gnio maior que o de Einstein, que imaginou se no seria possvel pr a gua para trabalhar para a gente... Ele conhecia o poder da gua, dos seus banhos 
nas cachoeiras. O problema era: como transferir a fora da gua das cachoeiras para o pilo. E foi ento que, num estalo de gnio, esse homem bolou uma mquina, 
o monjolo. Toda mquina  uma coisa que transfere a fora de um lugar para outro. O monjolo se parece com uma gangorra:  um pau grosso que oscila sobre um eixo. 
Uma das pontas dessa gangorra, pau grosso,  cavada por um arteso, pode ser a machado, a fogo, a enx, formando um buraco, um vazio, colher imensa. Na outra ponta, 
fincado na madeira da gangorra, est o pau do pilo. E, debaixo dele, o pilo onde se pe o milho. Como  que funciona? Essa mquina  construda debaixo de um cocho 
por onde a gua corre. A gua do cocho cai no buraco da colher. Quando a gua enche o vazio, a gangorra se desequilibra pelo peso da gua, e se inclina para o lado 
do peso maior. 
Mas, ao se inclinar, a gua que enchia o vazio escorre. O vazio fica de novo vazio, leve. Novo desequilbrio. A gangorra cai na direo da extremidade do monjolo 
onde est preso o pau do pilo. O pau grosso da gangorra, pesado, desce com fora. e o pau do pilo bate no fundo do pilo, quebrando o milho... E assim o monjolo 
trabalha a noite toda, enquanto os homens dormem. Trabalhando, o monjolo canta uma msica. Quando ele se levanta d um gemido de dor; ai! E quando ele bate no fundo 
do pilo  como barulho de um bumbo: ai - bum, ai - bum, ai - bum. O "ai"  longo, lamentoso, sofrido. O "bum"  rpido e seco. Canta o monjolo noite e dia. O milho 
duro vira fub macio. O fub, no forno, vira bolo. Comer o bolo: que alegria!
Geme e canta o monjolo, fazendo msica. Ao longe, canta um outro msico, o carro de boi! Vem carregado de lenha, carregado de milho... O carro de boi era uma alegria 
para a meninada. A gente corria atrs e subia nele, pr andar um pouquinho. Quem no tem automvel anda de carro de boi. Era fcil subir. Andava muito devagar. Boi 
no corre. Quem corre  cavalo e at h os hipdromos, lugares onde acontecem corridas de cavalos. Mas nunca ouvi de corrida de bois. H, na Espanha, um costume 
cruel e sangrento, que a bondade e a razo h muito deveriam ter abolido: as corridas de touros. Touradas. Aqueles touros correm e ai do toureiro que se distrair! 
Mas touro no  boi. Boi foi touro. O touro, fortssimo, no serve pr puxar carro porque touro tem vontade prpria. Ele faz com a sua fora aquilo que ele quer. 
Os homens compreenderam que, para usar a fora do touro era preciso tirar dele sua vontade. Os homens ento castraram o touro, tiraram seus hormnios de macho que 
corria atrs das fmeas. E os touros ficaram fortes e obedientes. Por isso eles andam tristes, olhando pr baixo. E os homens puseram a fora do boi para puxar carro 
da mesma forma como puseram a fora da gua para bater o monjolo. Tecnologia  isso: usar uma fora que no  nossa para realizar os desejos que so nossos.
Quando os homens sentiram que as mos eram pequenas para carregar as coisas eles inventaram as cestas. Quando perceberam que as cestas eram pequenas para carregar 
muitas coisas inventaram o carro de boi. O carro  uma melhoria das mos. Mas no s isso. Carregar uma cesta cheia cansa os braos. Cansa as pernas. Cansa os msculos. 
Carregando as coisas no carro o corpo descansa. Ao invs do corpo do homem, os corpos dos bois. Mas melhoria maior ainda para as pernas so as rodas. A roda foi 
uma das mais importantes descobertas da histria dos homens. Quem ser que inventou a roda? Como ser que a idia da roda apareceu na sua cabea? A idia aparece 
antes da inveno. O homem que fez a primeira roda foi um gnio de inteligncia.
O carro de boi  guiado pelo carreiro que caminha ao lado dos bois. Na mo ele tem uma vara comprida com um prego na ponta:  o ferro. Com o ferro ele espeta o 
boi que est fazendo corpo mole, ou o boi que est indo na direo errada. E os bois obedecem.  impossvel no obedecer as ordens da dor. 
Quem no tem vontade prpria fica  merc do ferro dos outros...
Mas o orgulho do carreiro est na msica que o carro faz. Carro de boi  instrumento musical. A madeira do eixo, girando apertada na madeira do encaixe, produz um 
som contnuo, lamentoso, uivo de carpideira, um gemido sem fim. Quando o carro canta o carreiro sobe em cima, segura o ferro na vertical como se fosse uma lana, 
e sorri, orgulhoso, como se fosse um msico dando um concerto.
Tenho saudade dessas msicas, a msica do monjolo, a msica do carro de boi. Dentro de mim elas continuam. E eu gostaria que ainda houvesse monjolos e carros de 
boi para que vocs, minhas netas, pudessem sentir o que eu sinto...

NO  PRPRIO FALAR SOBRE OS ALUNOS...

Gosto de ouvir conversas. Mania de psicanalista.  que nas conversas moram mundos diferentes do meu. Thomas Mann, no seu livro "Jos do Egito", conta um dilogo 
entre Jos e o mercador que o comprara para vend-lo como escravo, no Egito: "Estamos a um metro de distncia um do outro. E, no entanto, ao teu redor gira um universo 
do qual o centro s tu, e no eu. E ao meu redor gira um universo do qual o centro sou eu, e no tu". Fascinam-me esses universos que me tangenciam e que, no entanto, 
esto distantes de mim. Gosto de ouvir conversas para viajar por outros mundos.
Por vrios anos eu viajei diariamente de trem, de Campinas para Rio Claro, no Estado de So Paulo, onde eu era professor na antiga Faculdade de Filosofia. No mesmo 
vago viajavam tambm muitos professores a caminho das escolas onde trabalhavam. Iam juntos, alegres e falantes... Por anos escutei o que falavam. Falavam sempre 
sobre as escolas. Era ao redor delas que giravam os seus universos. Falavam sobre diretores, colegas, salrios, reunies, relatrios, frias, programas, provas. 
Mas nunca, nunca mesmo, eu os ouvi falar sobre os seus alunos. Parece que nos universos em que viviam no havia alunos, embora houvesse escolas. Se no falavam sobre 
alunos  porque os alunos no tinham importncia.

Participei da banca que examinou uma tese de doutoramento cujo tema eram os livros em que, nas escolas, so registradas as reunies de diretores e professores. A 
candidata se dera ao trabalho de examinar tais reunies para saber sobre o que falavam diretores e professores. As coisas registradas eram as coisas importantes 
que mereciam ser guardadas para a posteridade. Nos livros estavam registradas discusses sobre leis, portarias, relatrios, assuntos administrativos e burocrticos, 
eventos, festas. Mas no havia registros de coisas relativas aos alunos. Os alunos, aqueles para os quais as escolas foram criadas, para os quais diretores e professoras 
existem: ausentes. No, no era bem assim: os alunos estavam presentes quando se constituam em perturbaes da ordem administrativa. Os alunos, meninos e meninas, 
alegres, brincalhes, curiosos, querendo aprender, alunos como companheiros dessa brincadeira que se chama ensinar e aprender -sobre tais alunos o silncio era total.

Essa ausncia do aluno -no do aluno a quem o discurso administrativo das escolas se refere como o "o perfil dos nossos alunos", nem esse nem aquele, todos, aluno 
abstrato- no esse, mas aquele aluno de rosto inconfundvel e nome nico, esse aluno de carne e osso que  a razo de ser das escolas. Ah!,  importante nunca se 
esquecer disso: alunos no so unidades biopsicolgicas mveis sobre os quais se devem gravar os mesmos saberes, no importando que sejam meninos nas praias do Nordeste, 
nas montanhas de Minas, s margens do Amazonas, ou nas favelas do Rio. Os alunos so crianas de carne e osso que sofrem, riem, gostam de brincar, tm o direito 
de ter alegrias no presente e no vo  escola para serem transformados em unidades produtivas no futuro. E  essa ausncia do aluno de carne e osso que est progressivamente 
marcando os universos que giram em torno da escola. Os professores no falam sobre os alunos. Na verdade, no  prprio que os professores falem com entusiasmo e 
alegria sobre os alunos. Os alunos no so tema de suas conversas. Acontece nas escolas primrias (ainda escrevo do jeito antigo porque no acredito que a mudana 
de nomes mude a realidade...). Mas no s nelas. Lembro-me de uma brincadeira sria que corria entre os professores de uma de nossas universidades mais respeitadas. 
Diziam os professores que, para que a dita universidade fosse perfeita, s faltava uma coisa: acabar com os alunos... Brincadeira? Psicanalista no acredita na inocncia 
das brincadeiras. Com isso concordam os critrios de avaliao dos docentes, impostos pelos rgos governamentais: o que se computa, para fins de avaliao de um 
docente, no so as suas atividades docentes, a relao com os alunos, mas a publicao de artigos em revistas indexadas internacionais. O que esses critrios esto 
dizendo aos professores  o seguinte: "Vocs valem os artigos que publicam: publish or perish"! Num universo assim definido pelo discurso dos burocratas, o aluno, 
esse em particular, cujo pensamento  obrigao do professor provocar e educar, esse aluno se constitui num empecilho  atividade que realmente importa. Os raros 
professores que tm prazer e se dedicam aos seus alunos esto perdendo o tempo precioso que poderiam dedicar aos seus artigos.

"Aquele que  um verdadeiro professor toma a srio somente as coisas que esto relacionadas com os seus estudantes -inclusive a si mesmo", afirmou Nietzsche. Eu 
sonho com o dia em que os professores, em suas conversas, falaro menos sobre os programas e as pesquisas e tero mais prazer em falar sobre os seus alunos.


 O DECRETO DA ALEGRIA
Era uma vez um rei de corao muito bom e de cabea muito tola.
O seu corao era bom porque o que ele mais desejava era que todos os que moravam no seu reino, crianas, homens, mulheres e velhos, vivessem sempre alegres.
E a sua cabea era tola porque acreditava que ele, rei, tinha o poder de fazer realizar os desejos do corao por meio de decretos.
Assim, para que todos os seus sditos vivessem alegres, sua cabea tola baixou o seguinte decreto:
"Artigo primeiro: Fica decretado que todas as pessoas do meu reino sejam alegres.
Artigo segundo: Fica decretado que todas as tristezas so proibidas."
Qualquer decreto, para funcionar, precisa ser regulamentado. Os regulamentos de um artigo explicam como o artigo deve ser obedecido. Assim, o rei chamou os seus 
ministros e lhes ordenou: "Regulamentem o Decreto da Alegria."
Os ministros se apressaram a obedecer as ordens do rei. E pensaram: se todas as tristezas so proibidas a primeira coisa a se fazer  dar nome a todas as coisas 
que produzem tristeza. Puseram-se, ento, a fazer uma lista das coisas que produzem tristeza a serem proibidas.
Um dos ministros lembrou que h muitas msicas que fazem o corao ficar triste. A um outro ministro comentou com o outro, baixinho: "No  estranho que as pessoas 
gostem de ouvir msicas que do tristeza? Eu mesmo" - ele acrescentou mais baixinho ainda, por medo de ser ouvido -"choro todas as vezes que ouo a Valsinha, do 
Chico. Eu gosto da tristeza da Valsinha, razo porque eu no me canso de ouvi-la..."
Mas decreto de rei no pode ser questionado. E assim eles se puseram a trabalhar e fizeram uma lista enorme das msicas que do tristeza a serem proibidas dali para 
frente. A lista comeava com a Valsinha, passava pelo Adagio da Sonata ao Luar de Beethoven e terminava com um coral de Johann Sebastian Bach. Sim, os ministros 
sabiam muito sobre msicas que do tristeza.
A um ministro falou: "As poesias! Eu choro todas as vezes que leio a Elegia, da Ceclia Meireles." Ato contnuo comeou a recitar os primeiros versos da Elegia 
mas teve de parar porque as lgrimas comearam a saltar dos seus olhos e os soluos eram demais. Os outros ministros foram contagiados pela tristeza e trataram de 
tirar lenos dos seus bolsos para enxugar suas prprias lgrimas. Concordaram ento, imediatamente, que a Elegia da Ceclia trazia tristeza, e se apressaram a coloc-la 
no "Index Librorum Prohibitorum". E a, em meio a soluos, cada um deles foi mencionando os seus poemas mais queridos, que os faziam chorar e que nunca mais seriam 
lidos.
Terminada a lista de poemas que faziam chorar eles passaram aos quadros que faziam chorar. Pinturas de Grnenwald, Michelangelo, Van Gogh, Portinari, Picasso... 
E que dizer de fotografias? Fotografias de tempos passados felizes, um tempo que se foi: quanta tristeza elas provocam! Depois os filmes que faziam chorar e as peas 
de teatro... Quem consegue no chorar ao ver Romeu e Julieta ou o Fale com Ela?
Um dos ministros observou ento que tambm os pores-de-sol produziam tristeza, bem como os sabis, cantando no fim das tardes. Determinou-se, ento, que alm da 
proibio das obras de arte supra-citadas, tambm os pores-de-sol seriam proibidos, bem como os sabis e o seu canto.
"Mas, e os velrios?", perguntou um dos ministros. "No  possvel proibir que as pessoas morram. E nos velrios h sempre choradeira..." Foi quando um deles, versado 
em literatura, lembrou que Guimares Rosa, conhecedor dos costumes do serto, disse que no serto at velrio  festa. Concluram, ento, que a prpria tradio 
cultural do povo aprovava a transformao dos velrios tristes em velrios de alegria. Assim, foram proibidos velrios com carpideiras, choros e lamentaes. Os 
velrios seriam transformados em alegres reunies de amigos onde se comeriam doces e salgadinhos e se "beberia o morto". Nada melhor para espantar a tristeza e produzir 
alegria que uns golinhos de cachaa...
"Terminamos a lista das coisas que do tristeza", disse o ministro que presidia a reunio. "Temos, agora, de fazer a lista das coisas que do alegria. Se as coisas 
que do tristeza so proibidas, as coisas que do alegria sero obrigatrias. No Reino da Alegria a alegria ser obrigatria. Quem no estiver alegre estar quebrando 
o decreto do rei. E quem quebrar o decreto ter que ser punido."
Um dos ministros se assustou: "Mas, excelncia, punies trazem tristeza. E a tristeza est proibida..." O presidente no se perturbou pois j havia pensado numa 
soluo. "Quando V. Excia. vem com o milho eu j estou indo com o fub", ele observou desdenhoso. "Sero punies especiais, punies que provocam riso. Os tristes 
sero submetidos a sesses contnuas de ccegas e piadas, sesses que s terminaro quando as lgrimas e caras tristes forem substitudas por risos e gargalhadas."
Comearam, ento, a fazer a lista das coisas que do alegria e que seriam obrigatrias. Festas. Nas festas  obrigatrio estar alegre. Nas festas, ai daqueles que 
esto com caras tristes... Churrascos com cerveja, comilanas, banquetes... Bebidas alegram o corpo e a alma: aperitivos, caipirinhas, caipiroskas, cerveja, vinhos, 
gin tonic, usque e, de forma especial, as champanhes que se abrem com estouro, espuma e risos... Danas sim, mas s as rpidas e acrobticas. Dana lenta com rosto 
colado produz melancolia... Ter de haver som, preferencialmente trios eltricos, pelo seu volume. O volume do som dos trios eltricos no deixa lugar algum para 
vida interior, que  o lugar onde mora a tristeza. Nada de conversas srias. Em seu lugar, piadas. Desde pequenas as crianas sero educadas na arte de contar piadas 
e de rir das piadas. Tambm o hino nacional do Reino da Alegria foi alterado para atender ao decreto do rei, e ficou parecido com as msicas dos Mamonas Assassinas 
que faziam todos rir... Terminado o hino, ao invs de aplausos, todos deveriam dar risadas. Filmes cmicos, especialmente os pasteles. Fogos de artifcio. Serpentinas. 
Confete. E presentes. Nada existe que d mais alegria que presentes.
E assim o decreto foi publicado e regulamentado.
Quando as tristezas ficaram sabendo do decreto do rei elas ficaram muito mais tristes do que j eram. E sentindo que no eram amadas naquele pas, trataram de se 
mudar para outros pases onde as pessoas eram amigas das tristezas. E foi assim que, durante a noite, quando todos estavam dormindo, as tristezas silenciosamente 
e chorando se foram  procura de um lugar onde pudessem morar e fazer amigos...
Morava naquele pas uma menininha que tinha algumas tristezas que lhe eram muito queridas. Uma delas era a memria de uma cadelinha alegre, companheira de brincadeiras, 
que havia morrido. Quando a menina se lembrava da cadelinha ela ficava triste e chegava mesmo a chorar. Mas no queria se esquecer dela. Ela amava a sua cachorrinha 
e o amor no troca a tristeza da memria de uma cadelinha que morreu pela alegria de no mais se lembrar dela. Uma outra tristeza querida acontecia quando ia dormir 
e a sua me lhe cantarolava uma msica, a Berceuse de Brahms. Ouvindo sua me cantar ela ficava com uma tristezinha mansa e adormecia. Ficava triste tambm quando 
via os cabelos brancos do seu pai e pensava que ele estava envelhecendo e que chegaria o dia em que ele morreria. No queria abandonar essa tristeza pois era ela 
que a enchia de ternura pelo seu pai a quem tanto amava. Mas agora suas tristezas amigas haviam se mudado e ela estava sozinha e sendo obrigada a estar alegre mesmo 
quando no queria.
Pois a menina resolveu procurar suas tristezas. Encheu uma mochila com roupa e comida e de noite, quando seus pais dormiam, saiu de casa e foi  procura das tristezas... 
para poder ficar alegre de novo. (continua)

l Da. Irahy: O telefone da Da. Irahy, aquela professora de 93 anos que preparou centenas de meninos e meninas para o exame de admisso,  o seguinte: 3242-3863. 
Repito o que eu j disse: ela merece uma homenagem, uma medalha. Que vereador vai tomar a iniciativa?
l Mansamente pastam as ovelhas:  o nome de um coral de Bach, para Natal. A gente o ouve e se sente transportando para um campo verde onde as ovelhas pastam ao som 
da flauta de um pastor. Eu estava ouvindo esse coral quando escrevi minha crnica pela morte do Toninho, morto por um lobo. E esse  o ttulo do meu novo livro de 
crnicas do qual essa  a primeira. Vai ser lanado no prximo dia 18, na floricultura Florssima, Rua Da. Joana de Gusmo, 126, perto do Bosque dos Alemes, Guanabara, 
a partir das 18 horas. Fone 3243-9381. Vai ser lanado tambm o CD de estrias infantis Rubem Alves conta estrias, musicado pelo meu amigo Dcio Lauretti, mdico, 
cirurgio, que nasceu com um piano dentro dele, bem ao lado do corao.
l 80 anos: Meu amigo Jether Ramalho, aquele que se recusou a comprar o blazer vermelho, completou 80 anos no dia 15, no calendrio de Chronos, muito embora no calendrio 
de Kairs s tenha 17. Fiz-lhe uma parbola de um texto bblico: Embora, com a passagem dos anos, o corpo, por fora, v ficando enferrujado, por dentro os jardins 
vo ficando cada vez mais bonitos...

O FOGO
Quando os nossos antepassados, h milhes de anos - sofrendo a chuva, o frio, o sol, o vento e o perigo dos bichos selvagens - descobriram que numa caverna eles 
estariam protegidos, eles inventaram a casa. Acontece que cavernas so raras. No existem em qualquer lugar. Sem cavernas, com chuva, frio, sol, vento e bichos ferozes, 
a inteligncia dos homens comeou a funcionar.  sempre assim. A inteligncia funciona quando o corpo padece. E eles comearam a pensar em como construir uma coisa 
que desse a proteo que uma caverna dava. E foi assim que as casas foram inventadas. Toda casa  uma caverna construda pelos homens, melhorada e enfeitada. Tambm 
os nossos antepassados enfeitavam suas cavernas com pinturas. A segurana no basta para fazer os homens felizes. Eles querem a beleza. (Vocs j visitaram uma caverna? 
Vocs poderiam pedir aos seus pais que, para variar, no fossem para as praias apinhadas nas prximas frias. Seria legal visitar uma caverna... Existe at um esporte 
que consiste em explorar cavernas.)
Foi assim que essa casa de pau-a-pique onde morei quando criana foi inventada. Era uma casa boa. Protegia da chuva, do frio, do calor do sol, das cobras, ces selvagens 
e onas... Sim, havia onas... Era to boa que estou aqui, vivo. Aquela casa me protegeu. E porque eu estou vivo, vocs esto vivas. Se eu tivesse morrido vocs 
no existiriam, porque seus pais - meus filhos - no teriam nascido...
Aquela era a casa melhor e mais bonita que eu conhecia. As outras eram as choupanas dos caboclos, de cho batido e sem pintura nas paredes. Na minha casa quando 
chovia havia muitas goteiras. Chovia dentro de casa. O jeito era por bacias, baldes e panelas no lugar onde a gua pingava. Era at gostoso dormir ouvindo o ping 
- ping das goteiras. A gua caa direto das telhas porque a casa no tinha forro. Olhando para cima eu via as telhas e os paus redondos do telhado. Via tambm os 
ratos que passeavam pelas madeiras durante a noite. Havia tambm gretas nas portas e janelas por onde, no inverno, entrava um vento frio Mas, como eu j disse, eu 
no conhecia casas melhores. Eu achava que as casas eram assim. E eu no me sentia pobre e nem sofria. Aquela era a minha casa, enfeitada com roseiras, dlias no 
jardim, e malva perfumada em latinhas de massa de tomate.
Minha casa era assim (seu pai, sua me ou professora podem ajudar voc a fazer uma planta): a porta da frente dava para uma salinha de entrada. Era a sala onde as 
visitas se assentavam para conversar. Tinha trs cadeiras, um banco de madeira e um ba. Trs quartos com uma cama com colcho de palha de milho e um armrio. E 
uma cozinha grande com uma mesa de madeira, dois bancos compridos, um guarda-comida, e um fogo de lenha. Guarda-comida era um armrio com porta de tela fina onde 
se guardava a comida, pois geladeiras no havia. O fogo de lenha ficava sempre aceso, com um bule de caf na chapa quente. A porta da frente era a nica que tinha 
fechadura. As outras portas e as janelas eram fechadas com trancas e tramelas. Na porta de entrada havia um buraquinho por onde passava um barbante amarrado ao trinco. 
Qualquer pessoa que chegasse podia puxar o barbante, abrir o trinco, entrar na casa e ir tomar caf na cozinha. Naquele tempo no existia medo de ladres e malfeitores. 
Todo mundo era amigo. O medo s existia  noite... De noite era escuro l fora, as sombras davam medo e havia barulhos estranhos. Os ces latiam. Galos com pesadelo 
cantavam fora de hora. As noites eram misteriosas. De noite era preciso que a casa estivesse bem fechada por causa dos lobisomens e mulas sem cabea que saam dos 
seus esconderijos, juntos com os bichos e assombraes. Hoje no h mais. As luzes e a televiso fizeram com que eles se mudassem para longe. Hoje as noites no 
tm mistrios.
Os nossos antepassados que viviam nas cavernas descobriram que uma caverna com uma fogueira dentro  uma casa melhor. Fogo  melhoria: d luz, calor, espanta o medo, 
espanta os bichos. E, por acidente, eu acho, eles descobriram que com o fogo se pode fazer comida. A histria da humanidade est ligada ao domnio do fogo. (Vejam 
o filme A guerra do fogo -  divertido e instrutivo.)
Hoje  fcil acender o fogo: gira-se um boto para o gs sair, aperta-se outro boto para produzir uma fasca, e o fogo est aceso. Naquele tempo era complicado 
fazer fogo. Exigia um longo preparo e uma arte delicada. Primeiro, era preciso catar lenha no mato. Ainda hoje, nas regies mais pobres do Brasil, a gente pode ver 
as mulheres levando feixes de lenha equilibrados miraculosamente em suas cabeas. Era preciso ter achas grossas de lenha, para o fogo que fica queimando, e gravetos 
pequenos, para o foguinho inicial de curta durao, necessrio para se acender as achas grossas. A arte comeava na forma de tranar paus grossos com os gravetos. 
Fsforos j havia. A gente risca os fsforos sem pensar. Paus de fsforo deveriam ser objeto de estudo, nas escolas. J pensei mesmo em oferecer um curso sobre a 
histria do pau de fsforo, histria que comea quando um ancestral nosso pegou, pela primeira vez, um pau que um raio incendiara. Num pau de fsforo est resumida 
a luta dos homens, atravs dos milnios, para dominar o fogo. Objeto tcnico incrvel.  esfregar a cabea dele numa superfcie spera e ele acende. Os paus j esto 
tranados no fogo. No havia lcool para ajudar. No havia jornais para queimar. Capim seco, sim. Tudo arranjado do jeito certo, encosta-se o fsforo aceso no capim. 
E o milagre acontece: o fogo. Quando o fogo  aceso anuncia-se a comida: o caf, o biscoito, o bolo de fub, o feijo, o frango ensopado. Ainda hoje eu fico comovido 
quando, viajando pelo interior, vejo a fumaa saindo da chamin das casas dos pobres. Casa de rico no tem chamin. Fogo de lenha aceso anuncia que existe vida 
naquela casa. Fogo de rico no faz fumaa. Por isso  que comida feita em fogo de lenha  mais gostosa.
Mas, e os pobres, que no tm caixa de fsforo? A est um segredo: depois de acabado o fogo, as brasas podem ser guardadas, debaixo da cinza.  preciso que sejam 
cobertas de cinza. Caso contrrio apagam. Voc olha para o fogo, tudo apagado - e no sabe que  s mexer na cinza com um pau para que as brasas vermelhas apaream. 
A, as brasas, colocadas debaixo dos gravetos e do capim -  s soprar. No precisa fsforo: o sopro acende as brasas. E o milagre acontece. Brasas debaixo das cinzas: 
essa imagem  usada como metfora - se voc no sabe o que  metfora pergunte ao pai, me, professora - para algo que acontece com a gente. Tivemos um grande amor 
que nos fez sofrer. O tempo passou. Agora tudo parece esquecido. No est. Est como as brasas debaixo das cinzas: basta um sopro para que o fogo se acenda e a paixo 
volte... Fernando Pessoa tem um verso em que ele fala de um "anjo que com suas asas soprou as brasas de ignoto lar..." 
Mas, e se as brasas se apagarem? O jeito  pedir fogo emprestado para uma vizinha. "- A senhora me empresta um pau de lenha aceso?" "Claro! Pode levar!" Com o pau 
de lenha aceso na mo ela saa correndo para que ele chegasse aceso  sua casa. Tinha de correr para que o fogo no se apagasse. Quem pede fogo emprestado no tem 
tempo para conversa fiada. Da um ditado que se diz a quem chegou e saiu, rapidinho: "Veio buscar fogo?"
Numa cidade onde morei depois de grande, Lavras do Funil, havia uma "Rua do Fogo". Acho que ainda tem. Nunca entendi a razo desse nome. A meu irmo Ismael me explicou: 
nos tempos antigos, muito antigos, fsforo era objeto de luxo. No se encontrava fcil. Algum, ento, teve uma idia brilhante: vender fogo. Assim, naquela casa 
havia fogo aceso sempre, dia e noite. Se faltasse fogo na casa de algum era s ir at a "Rua do Fogo" e comprar fogo.
Fazer uma fogueirinha  coisa gostosa.  por isso que os pais gostam de fazer churrasco. Eles se sentem voltando s suas origens, s cavernas, onde o churrasco apareceu, 
por acidente, quando um pedao de carne crua caiu no braseiro enquanto nossos antepassados dormiam. Quando acordaram, ficaram bravos: carne queimada. Como no tinham 
nada mais para comer, comeram a carne queimada mesmo. E perceberam que ela era gostosa. No existe culinria mais primitiva que o churrasco... 

 "... O MELHOR DE TUDO SO AS CRIANAS
Convidaram-me a participar de um congresso sobre educao, na Itlia. Fui. Esperava que fosse igual aos muitos congressos de que j participei: conferencistas famosos, 
pedagogos, filsofos, professores, educadores, polticos, todos explicando teorias sobre a educao. Assim  porque aqueles que comparecem a congressos so sempre 
adultos. Mas uma surpresa me aguardava: o congresso estava cheio de crianas. Se so as crianas que vo ser objetos da educao  absurdo pensar sobre o que se 
vai fazer com elas sem que elas sejam ouvidas. L estavam elas, misturadas com os adultos. Fiquei com inveja delas e saudades do meu tempo de criana. Fiquei fascinado 
pela oficina para se fazer brinquedos, com serras, martelos, morsas, alicates, papis, barbante, cola, carretis, elsticos, madeira, etc. A vi que as crianas 
de qualquer parte do mundo podem se entender porque os brinquedos, como a msica, so uma linguagem universal que no necessita de palavras. Os jogadores de xadrez 
jogam xadrez mesmo se falam lnguas diferentes. Crianas de pases diferentes podem, juntas, armar quebra-cabeas, jogar pio, empinar pipas, pular corda...
Eu no falo italiano. Estava l, andando invejoso entre os meninos. A um jovem, vendo meu sorriso de inveja, sem dizer uma palavra, veio empurrando um carrinho 
de rolem e simplesmente me fez um gesto. Assentei-me no carrinho e l fui eu, empurrado pelo jovem, correndo como se fosse piloto de frmula 1, rindo de felicidade. 
E percebi que andar num carrinho de rolem me d mais prazer que guiar automvel. Quando guio um automvel sou adulto. Quando ando de carrinho de rolem sou criana. 
S tive uma reclamao a fazer:  que os carrinhos de rolem so feitos para crianas - o que revela um miservel preconceito. Por que no carrinhos de rolem tamanho 
adulto? Por acaso os adultos no tm direitos? Por acaso eles esto proibidos de entrar no mundo das crianas? E no se fala tanto em "incluso"? Eu quero ser includo 
no mundo das crianas. Exijo os meus direitos. Pena que l no houvesse balanos, um dos meus brinquedos favoritos. Balanos, pra existir, precisam de rvores grandes 
com galhos fortes ou armaes de madeira. E l no havia nem uma coisa nem outra.  impossvel balanar sem se sentir leve e com vontade de rir. Balano  terapia 
contra depresso. Lembrei-me do que disse Nietzsche: o Diabo nos faz graves, solenes, pesados; faz-nos afundar. Deus, ao contrrio, d leveza e nos faz flutuar. 
Concluo, ento, que o balano  um brinquedo divino, por aquilo que ele faz com a gente. Balanar num balano  um forma de rezar, de estar em comunho com Deus.
Os brinquedos do prazer. Os brinquedos fazem pensar. Quer ver? Voc sabe que, sem ter ningum que o empurre, voc pode fazer o balano balanar alto, at fazer 
o p tocar na folha do galho, pela simples alternncia da posio das pernas, pr frente e pr trs. Eu lhe pergunto ento: por que  que essa alternncia na posio 
das pernas, sem encostar em nada, produz o movimento do balano? E o ioi? Participei de um congresso sobre brinquedos, na Bahia. Havia uma infinidade de brinquedos 
em exposio. De alguns, apenas as fotografias. Como, por exemplo, pipas do tamanho de uma casa, pesando quinhentos quilos. E a fotografia de um mosaico grego, de 
antes de Cristo. Pois nesse mosaico aparecia um grego jogando ioi! Nunca imaginei que os iois fossem to antigos! Pergunto: o que  que faz com que o ioi v para 
baixo e para cima? E que dizer dos quebra-cabeas? Quantas funes intelectuais altamente abstratas entram em jogo enquanto se monta um quebra-cabeas! E as bolhas 
de sabo! Me explique, por favor: por que  que elas so to redondinhas? Quem joga sinuca aprende, intuitivamente, as leis da composio de foras. E os pies: 
por que  que se equilibram sobre um prego?
L no congresso na Itlia parei diante de um quebra-cabeas, dois pregos entrelaados que, se se pensar bem, podem ser separados. Fiquei longos minutos lutando com 
os ditos pregos. E pensei: Que coisa mais estranha! No vou ganhar nada se conseguir separar os dois pregos. O que  que faz que eu esteja aqui, perdendo o tempo 
e quebrando a cabea? A resposta  simples: pelo desafio. Todo brinquedo bom  UM desafio. E isso nada tem a ver com esses brinquedos eletrnicos comprados, em que 
no se usa a inteligncia mas apenas o dedo para apertar um boto. Brinquedo bom tem de ser desafio. Brinquedo bom tem de fazer pensar.
 possvel que voc tenha comprado brinquedos para os seus filhos. Mas sugiro que aquilo que seu filho ou filha mais deseja  ter voc como companheiro de brinquedo. 
No me esqueo da imagem triste de um pai, numa manh de domingo, empurrando o filho no balano com a mo esquerda enquanto lia o jornal que segurava com a mo direita. 
Para aquele pai, brincar com o filho era um sacrifcio. Para ele o importante eram as notcias do jornal. A infncia passa rapidamente. Logo logo a nica coisa que 
restar ser o jornal na mo direita e o vazio na mo esquerda.
No congresso distriburam um pgina com os "Dez Direitos Naturais das Crianas" que quero compartilhar com vocs. "1. Direito ao cio: Toda criana tem o direito 
de viver momentos de tempo no programado pelos adultos. 2. Direito a sujar-se: Toda criana tem o direito de brincar com a terra, a areia, a gua, a lama, as pedras. 
3. Direito aos sentidos: Toda criana tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza. 4. Direito ao dilogo: Toda criana tem o direito 
de falar sem ser interrompida, de ser levada a srio nas suas idias, de ter explicaes para suas dvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos. 5. Direito ao 
uso das mos: Toda criana tem o direito de pregar pregos, de cortar e raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o 
fogo. 6. Direito a um bom incio: Toda criana tem o direito de comer alimentos sos desde o nascimento, de beber gua limpa e respirar ar puro. 7. Direito  rua: 
Toda criana tem o direito de brincar na rua e na praa e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhes 
pertencem. 8. Direito  natureza selvagem: Toda criana tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e rvores nas quais 
subir. 9. Direito ao silncio: Toda criana tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pssaros, o murmrio das guas. 10. Direito  poesia: Toda criana 
tem o direito de ver o sol nascer e se pr e de ver as estrelas e a lua." E a eu pedi s crianas licena para acrescentar o dcimo primeiro direito: "Todo adulto 
tem o direito de ser criana..."
Desejo que voc, nesse "Dia das Crianas", redescubra a delcia que  ser criana. Porque, como disse Fernando Pessoa, "Grande  a poesia, a bondade e as danas... 
Mas o melhor do mundo so as crianas". (Fernando Pessoa, Obra Potica 189)
* * *
Criticaram-me por haver tornado pblico o meu voto.  estranho. Porque a crtica partiu daqueles que, como eu, exigem transparncia nas coisas da poltica. Se a 
transparncia partidria e administrativa  uma virtude, por que no a transparncia individual? Ah! No foi isso... Fui criticado porque, na minha transparncia, 
eu disse um nome proibido. No disse o nome "politicamente correto", nome que a maioria repetia, nome canonizado pela maioria. A maioria sempre canoniza nomes. Se 
eu tivesse dito o nome "politicamente correto" a maioria me teria aplaudido. Como disse o nome "politicamente incorreto", fui criticado. Acho estranho que isso acontea 
com aqueles que dizem lutar pela democracia. Porque a democracia tem as suas bases precisamente no respeito  liberdade dos indivduos em tomar decises e pensar 
os seus prprios pensamentos. Todos os regimes totalitrios, da Inquisio aos comunistas, exigiram que os nomes canonizados fossem os nicos a ser repetidos. Os 
que se atreviam a dizer outros nomes no cannicos eram perseguidos, presos e, eventualmente, mortos. A base da democracia est no respeito que se tem  liberdade 
do indivduo para livremente pensar, decidir e tornar pblicos seus pensamentos e decises. Para aqueles que, ao contrrio, preferem a repetio do nome cannico, 
eu cito um curto aforismo de Nietzsche: "A maneira mais fcil de corromper um jovem  ensin-lo a respeitar mais aqueles que pensam pensamentos iguais aos seus que 
aqueles que pensam pensamentos diferentes."


O QUE AMO NA IGREJA
Acho que o Papa deveria promulgar uma encclica tornando obrigatrio o uso do Latim nas coisas da Igreja. Assim eu me converteria. Os padres modernosos, que gostam 
de ensinar e conscientizar, diro que o latim ningum entende. Retruco: pois s assim eu me converteria. Seria preciso que eu no entendesse nada. Os carismticos 
esto certos. Falam lnguas estranhas, e nessa estranheza se encontram com o seu Deus. Um Deus que se compreende no pode ser grande coisa. Um mar que se compreende 
no passa de um aqurio. A. Gottlieb disse que os seus smbolos favoritos eram aqueles que ele no entendeu. Digo amm. Por isso amo o latim: porque no o entendo. 
Como no entendo os riachos, os pssaros, o vento, as minhas netas, e os amo todos. 

Minha educao foi protestante. Os protestantes tinham raiva dos catlicos. E com razo. Latim era coisa de padre. Por isso protestante no estudava latim. Assim, 
no aprendi. Mas amo o latim por causa da msica. Cristal puro. Beleza das esferas csmicas. Se papas, bispos e padres s falassem latim eu me converteria  Igreja: 
precisamente por no entender a letra da msica que eles cantam, e ouvir a melodia do brando encanto do seu canto. 

Tenho uma teoria sobre o Pentecostes. Como  sabido, naquele dia os apstolos falaram a lngua que sabiam falar, e todo mundo ouviu como se fosse nas prprias lnguas 
estranhas que eles, turistas estrangeiros, falavam. Para mim s existe uma possibilidade de explicao desse milagre. Eles no falaram. Eles cantaram. Ali se inventou 
o vocalise. Vocalise  uma cano sem palavras. A voz  usada como um instrumento. Pura voz, pura msica, pura beleza, sem sentido, sem nada dizer. Por isso, por 
nada dizer, todo mundo entende. Quem no sabe sobre que estou falando que escute a Bachianas Brasileiras n. 5, para soprano e oito violoncelos. Ou a Pavana, de Gabriel 
Faur, cantada pela Barbra Streisand. A beleza no precisa do sentido. Ela salva sem nada dizer. Sim, eu me converteria a uma religio onde as palavras fossem silenciadas 
para que a msica pudesse ser ouvida. 

Assim fico eu diante da Igreja, repetindo o poema do Ricardo Reis: 

"Cessa o teu canto. 
Cessa, porque enquanto o ouvi 
ouvia uma outra voz 
como que vindo nos interstcios 
do brando encanto com que o teu canto vinha at ns..." 

No quero entender nada do que se diz. Na verdade, no quero que coisa alguma seja dita. "A Palavra", diz a Adlia, " disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, 
foi inventada para ser calada." 

Neste momento estou ouvindo canto gregoriano da Schola Ungarica. Agora entraram as vozes femininas dos meninos. Cantam em latim. Que esto dizendo? Sei l. E nem 
quero saber. A beleza me basta. A beleza faz amor com o corpo. Por isso ele treme e chora. As palavras ficam na cabea. Lembro-me do dito por Kierkegaard, um filsofo 
protestante que entendia dessas coisas: "A Verdade no est naquilo que  dito mas no como ele  dito." Deus no est na letra. Est na msica. 

Para amar a Igreja eu paro de pensar.  preciso fazer dormir a minha inteligncia. Recito o verso o Alberto Caeiro: "Pensar  estar doente dos olhos". Cessado o 
pensamento eu me transformo num ser s de sentidos, do jeito mesmo como nasci. Eu sou olho, ouvido, nariz, boca, pele. Vejo, ouo, sinto cheiros, sinto gostos, sinto 
toques. Amo a Igreja por suas artimanhas erotizantes, por aquilo que ela faz com os meus sentidos. 

O canto gregoriano continua. Vai fazendo sua tarefa de seduo sensual. Penetra suavemente nos meus ouvidos como uma macia serpente de veludo, at atingir o centro 
da minha alma onde se localizam os meus pontos ergenos. Cada sentido tem pontos ergenos que lhes so peculiares. Me entrego  melodia. Estou derrotado. Esse canto 
gregoriano, talvez a maior produo da Igreja Catlica no campo da msica (como se sabe J. S. Bach era protestante) me faz esquecer tudo o que disseram telogos, 
bispos e papas em todos os sculos de vida (e morte) da Igreja. 

A seduo da msica no pra a. Amo os sinos. Para mim, um dos mais belos versos da lngua portuguesa  o escrito pelo lvaro de Campos: "Todo cais  uma saudade 
de pedra." Eu acrescento: "E todo sino  uma saudade de bronze." Os cais anunciam partidas e distncias. Os sinos anunciam mundos que no existem mais. No h nada 
mais contraditrio que o repicar dos sinos nas cidades grandes. s cidades pertence o barulho das buzinas, dos trios eltricos, dos alto-falantes. A msica dos sinos 
 uma borboleta que entra na cela de uma priso. Ela fala de mundos que s existem na saudade. A sua msica nos vm de lugares indefinidos num passado distante. 
Como eu acho que Deus mora  na saudade, o repicar dos sinos, que nada diz e nada significa,  um altar construdo com sons. Fosse eu o Papa e ordenaria que os sinos 
fossem tocados trs vezes por dia: s seis da manh, ao meio dia e s seis da tarde. Os sinos fariam o corpo se lembrar de Deus mais que muitos sermes. 

Onde esto eles, os sinos? Sei no. A Igreja se modernizou. Acho que ficou com vergonha de suas coisas antigas. Em So Paulo havia um seminrio e no centro do ptio 
havia um sino que marcava o ritmo da vida. O sino desapareceu. No seu lugar, uma coisa moderna, uma cigarra estridente, parecida com voz clerical. 

E a seduo dos olhos? As terrveis telas de Grnenwald, os Cristos crucificados mais horrendos que jamais vi, os pesadelos de Bosch, os transparentes Cristos de 
Salvador Dal, as madonas de Rafael, a Piet de Michelangelo. O protestantismo no produziu nada que pudesse se comparar a essas obras de arte, por medo da idolatria. 
O protestantismo sempre teve medo da beleza em sua objetividade plstica:  muito fcil que o encantamento do belo transforme o belo objeto em fetiche. Para no 
correr o risco da tentao os protestantes seguiram  risca o conselho evanglico: arrancaram os olhos. 

Parei um pouco de escrever para folhear um maravilhoso livro que comprei - Le Vitrail (O vitral). Ali se encontra a arte do trabalho com os vidros, as cores, as 
transparncias, a luz. Ah! Como  maravilhosa uma catedral gtica quando a luz do sol se filtra atravs do vitral. Isso no pode se transformar em dolo.  como 
o arco-ris: no pode ser tocado. 

Amo os vitrais. Foi uma maravilhosa poetisa, a Maria Antnia, professora em Mato Grosso, que me ensinou que a alma  um vitral. 

"A vida se retrata no tempo 
formando um vitral, 
de desenho sempre incompleto, de cores variadas, 
brilhantes, quando passa o sol. 
Pedradas ao acaso 
acontece de partir pedaos, 
ficando buracos irreversveis..." 

E amo tambm os espaos vazios das catedrais gticas, por onde a alma voa. E os mosteiros e seus claustros, os jardins, as fontes, as ervas. Tambm amo o incenso, 
erotizao perfumada do meu corpo. 

Vocs devem ter entendido: amo, na Igreja, tudo aquilo que saiu das mos dos artistas. Mas, quando ouo as explicaes do telogos e mestres, o encanto se quebra 
e eu desejo que eles tivessem falado em latim, para que eu no tivesse entendido. A letra acaba com a msica. Por isso, s desejo repetir o dito pelo Ricardo Reis: 
"Cessa o teu canto..." Deixa que a Beleza, sem palavras ou catecismos, evangelize o mundo. Deus  Beleza. 

(Transparncias da eternidade, Verus, 2002) 

OS IPS ESTO FLORIDOS
Thoureau, que amava muito a natureza, escreveu que se um homem resolver viver nas matas para gozar o mistrio da vida selvagem ser considerado pessoa estranha ou 
talvez louca. Se, ao contrrio, se puser a cortar as rvores para transform-las em dinheiro (muito embora v deixando a desolao por onde passe), ser tido como 
homem trabalhador e responsvel. Lembro-me disso todas as manhs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ip rosa florido. A beleza  to grande que 
fico ali parado, olhando sua copa contra o cu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metlicas rodantes, em busca de um destino, devem 
imaginar que no funciono bem. 

Gosto dos ips de forma especial. Questo de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrrio. As outras rvores fazem o que  normal - abrem-se para o amor 
na primavera, quando o clima  ameno e o vero est pr chegar, com seu calor e chuvas. O ip faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida  uma despudorada 
e triunfante exaltao do cio. 

Conheci os ips na minha infncia, em Minas, os pastos queimados pela geada, a poeira subindo das estradas secas e, no meio dos campos, os ips solitrios, colorindo 
o inverno de alegria. O tempo era diferente, moroso como as vacas que voltam em fim de tarde. As coisas andavam ao ritmo da prpria vida, nos seus giros naturais. 
Mas agora, de repente, esta rvore de outros espaos irrompe no meio do asfalto, interrompe o tempo urbano de semforos, buzinas e ultrapassagens, e eu tenho de 
parar ante esta apario do outro mundo. Como aconteceu com Moiss, que pastoreava os rebanhos do sogro, e viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar 
para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: "Tira as sandlias dos teus ps, pois a terra em que pisas  santa". Acho que no foi sara ardente. Deve ter sido um ip 
florido. De fato, algo arde, sem queimar, no na rvore, mas na alma. E concluo que o escritor sagrado estava certo. Tambm eu acho sacrilgio chegar perto e pisar 
as milhares de flores cadas, to lindas, agonizantes, tendo j cumprido sua vocao de amor. 

Mas sei que o espao urbano pensa diferente. O que  milagre para alguns  canseira para a vassoura de outros. Melhor o cimento limpo que a copa colorida. Lembro-me 
de um p de ip, indefeso, com sua casca cortada a toda volta. Meses depois, estava morto, seco. Mas no importa. O ritual de amor no inverno espalhar sementes 
pela terra e a vida triunfar sobre a morte, o verde arrebentar o asfalto. A despeito de toda a nossa loucura, os ips continuam fiis  sua vocao de beleza, 
e nos esperaro tranqilos. Ainda haver de vir um tempo em que os homens e a natureza convivero em harmonia. 

Agora so os ips rosa. Depois viro os amarelos. Por fim, os brancos. 

Cada um dizendo uma coisa diferente. Trs partes de uma brincadeira musical, que certamente teria sido composta por Vivaldi ou Mozart, se tivessem vivido aqui. 

Primeiro movimento, "Ip Rosa", andante tranqilo, como o coral de Bach que descreve as ovelhas pastando. Ouve-se o som rural do rgo. 

Segundo movimento, "Ip Amarelo", rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com as do ip, fazem soar a exuberncia da vida. 

Terceiro movimento, "Ip Branco", moderato, em que os violoncelos falam de paz e esperana. Penso que os ips so uma metfora do que poderamos ser. Seria bom se 
pudssemos nos abrir para o amor no inverno... 

Corra o risco de ser considerado louco: v visitar os ips. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouviro e no respondero. Esto muito 
ocupados com o tempo de amar, que  to curto. Quem sabe acontecer com voc o que aconteceu com Moiss, e sentir que ali resplandece a glria divina... (Tempus 
Fugit, pg. 12) 

OS MECANISMOS DA LEI
Desejo tranqilizar os meus amigos: a raiva passou. No estou mais levando para a minha cama o garom-cantor... O que desejo, hoje,  fazer umas tranqilas reflexes 
sobre a justia e a legalidade.
 preciso compreender que legalidade e justia so duas coisas totalmente diferentes. Nos tempos de Jesus era legal que uma mulher adltera fosse apedrejada. Os 
apedrejadores, gente do povo, no eram considerados criminosos. No eram levados perante os tribunais como assassinos. Mas esse ato que era legal, era justo? Nos 
tempos da inquisio era legal que os judeus fossem queimados em praa pblica - com entusistica participao do povo. Milhares o foram. Mas esses atos legais, 
aprovados pelas multides populares, eram justos? No Brasil antigo era legal que os senhores fossem donos de escravos, com direito a amarr-los no pelourinho para 
aoit-los em praa pblica, como espetculo. Era justo? Em certos pases maometanos  legal que os ladres tenham a sua mo direita decepada.  justo? Na Inglaterra 
do sculo XIX era legal que os donos de tecelagem usassem mulheres e crianas para trabalhar em suas fbricas por at 18 horas por dia. Sobre isso Marx escreveu 
muito. Era legal. Tanto era legal que no se conhece caso de um dono de tecelagem que tenha sido levado perante os tribunais por essa prtica. Era legal. Era justo?
Existe uma enorme distncia entre a legalidade e a justia - e essa  a razo por que as leis esto sempre passando por transformaes. Se as leis fossem justas 
elas no precisariam ser mudadas. So mudadas porque so injustas.
Lutei muito durante essa semana para ver se eu conseguia, a partir do que sei sobre filosofia e teologia, chegar a uma definio de justia. Fracassei. No sei o 
que  justia. Sei o que  o "sentimento de injustia" - uma coisa dentro da alma que diz que as coisas no deveriam ser da forma como so. Marx sugeriu "de cada 
um segundo as suas possibilidade e a cada um segundo as suas necessidades." Acho bonito e certo. Mas no sei como implementar esse princpio. Ele me , portanto, 
intil.
A partir dessa discrepncia entre o que  justo e o que  legal sinto-me tentado a sugerir que o nome "Palcio da Justia" seja substitudo pelo nome "Palcio da 
Lei". Acho que esse nome seria mais verdadeiro.
No tenho estudos especiais no campo do direito. A despeito disso - e pedindo que os entendidos me corrijam, pelo que ficarei muito grato - me parece que os mecanismos 
da lei funcionam segundo o modelo de um silogismo. O silogismo  uma forma de pensamento lgico. Primeira premissa: "Todo homem  mortal." Note que se trata de uma 
afirmao universal que no se refere a ningum em particular. A palavra "todo" indica que nenhum homem pode escapar do fato de que ele  mortal: vai morrer. Segunda 
premissa: "Scrates  homem." A afirmao agora  particular. No tem a ver com o Joo ou o Jos.  o "Scrates". Scrates  homem. Isso no  um princpio universal. 
 um fato. Juntando-se a primeira premissa que diz que "Todo homem  mortal", com a segunda premissa que diz que "Scrates  homem" segue-se uma concluso da qual 
no  possvel fugir: "Scrates  mortal". Sentena lgica: Scrates vai morrer.
Pois  assim que funcionam os mecanismos da lei. Em primeiro lugar h uma premissa geral, que  composta por todas as leis. As leis so universais. No se referem 
a Joo ou a Jos.  crime matar.  crime roubar.  crime difamar. Sem esse corpo universal de leis a ordem social seria impossvel porque, ento, cada um poderia 
fazer o que quisesse. Participar de uma sociedade significa sempre abdicar de uma vontade individual (por exemplo, "Quero matar Joo", "Quero roubar o carro do Jos") 
em prol de uma vontade geral, expressa na lei. Na linguagem dos filsofos: a sociedade se baseia na "alienao" da vontade individual. Eu abro mo da minha vontade 
individual e a transfiro para a lei. Essa "alienao" da vontade  a base da ordem social. Sem ela, como indicou Hobbes, seria a "guerra de todos contra todos." 
Segunda premissa: aqui comeam as complicaes. Algum, o Joo ou Jos, fez alguma coisa em desacordo com a lei. O problema existe porque ningum faz delituosa de 
forma aberta. A transgresso da lei busca no ser conhecida. Os livros de mistrio da Agatha Christie mostram que os criminosos sempre fazem os seus crimes escondidos. 
Se no fosse isso no haveria a deliciosa novela em que o detetive, penetrando nas dissimulaes do criminoso, acaba por desvendar o crime. Delinqentes e criminosos 
no desejam ser pegos nas malhas da lei. Porque se o forem, recebero os castigos devidos. Assim, nunca se sabe com certeza como foi o ato. Coliso de autos. Algum 
morre. Quem  o culpado? Quem foi que transgrediu a lei? Ter sido um simples acidente, fatalidade, caso em que ningum ser culpado? Ter sido provocado pelo fato 
de que o motorista estava bbado? Ou teria sido excesso de velocidade?
A segunda parte do processo, assim,  a "construo" do fato, pela boca das testemunhas, dos peritos e dos advogados, posto que ningum sabe o que realmente ocorreu. 
O que  apresentado diante dos juizes, para julgamento, assim, nunca  o fato, tal como ele realmente se deu. So duas "construes": uma delas feita pela defesa, 
e a outra feita pelos promotores. Quem quiser ver isso acontecendo, basta ver um filme americano em que h um julgamento: Neve sobre os Cedros, por exemplo. Um pescador 
aparece morto. O promotor constri a morte do homem como resultado de um ato assassino de um criminoso. O advogado de defesa constri a morte do mesmo homem como 
tendo sido resultado de um acidente - no havendo, portanto, criminoso algum. No  raro que a "construo" mentirosa - ou errada - seja a mais charmosa, a que mais 
comove os jurados - a que mais toca nos seus preconceitos - e o resultado  a condenao de um inocente. Um jri  um espetculo de "construes" fictcias em busca 
da aprovao dos jurados que, eles mesmos, tudo ignoram sobre o que realmente aconteceu. Entram em jogo, aqui, os mais variados elementos: o preconceito das testemunhas, 
o medo das testemunhas, a falta de clareza das testemunhas, a nervosia das testemunhas - e a esperteza, a sagacidade, a honestidade e a desonestidade dos advogados. 
Tambm os advogados so seduzidos pelos ganhos! Quem no ? S uns poucos, seres do outro mundo. Isso quando no entram o suborno das testemunhas, as ameaas e as 
mentiras. Os "objetos" que assim se obtm, portanto, dificilmente se aproximam da realidade.
A ltima parte do processo  a concluso do silogismo. "Senhor Scrates:  verdade indisputvel que todo homem  mortal.  verdade indisputvel que o senhor  um 
homem. Conclumos, assim, que o senhor, inevitavelmente vai morrer."
O juiz  a ltima parte do processo. Em primeiro lugar ele tem na cabea o sistema de leis que rege a sociedade e que  normativo, devendo, portanto, ser obedecido. 
Sobre isso ele nada pode fazer. Em segundo lugar ele tem diante de si as "construes" apresentadas pelos advogados dos dois lados, sabendo que elas so "construes" 
feitas, no no interesse da justia, mas no interesse de se ganhar a causa, com as implicaes humanas e econmicas que ela contm para as partes, inclusive os advogados... 
Se os juizes fossem mquinas, computadores, seria muito simples. Bastaria colocar os dados no computador e a concluso apareceria. O juiz estaria, assim, liberto 
de qualquer responsabilidade moral. Mas toda sentena implica uma responsabilidade moral do juiz. Por isso mesmo o juiz tem de ser um sbio, um psiclogo. Ele tem 
de perceber quando uma testemunha est mentindo. Ele tem de ponderar as contradies dos testemunhos. Ele tem de tomar a eloqncia dos advogados cum grano salis. 
Mais que um tcnico, ele tem de saber que a verdade est jogo e que a sua sentena, mesmo sendo legal, poder se injusta. Eis o drama do juiz: Qual ser a sentena 
legal que mais se aproximar da justia? Para isso ele ter de ser um sbio...


OS SABERES DE CADA UM

O galinheiro estava em polvorosa. Cocorocs de galos, cacarejos de galinhas, tofracos de angolinhas, pios de pintinhos -tudo se misturava num barulho infernal. Todos 
haviam sido convocados a uma assemblia pelo Chantecler, o galo prefeito do galinheiro, para tratar de um assunto de grande importncia: o fato de vrios ovos chocados 
pela Cocota terem sido comidos por um ladro, num breve momento em que ela abandonara o ninho para comer milho e beber gua. 

As pegadas eram inconfundveis: o ladro era uma raposa. Raposas so animais muito perigosos. Comem no somente ovos como tambm pintinhos e mesmo galinhas mais 
crescidas. Com um sonoro cocoricoc, Chantecler pediu silncio, exps o problema e franqueou a palavra.

Encarapitado no galho de uma goiabeira, um galinho garniz cantou estridente. Era o Mundico. Ele adorava discursar. "Companheiros", ele comeou, "peo a ateno 
de vocs para as ponderaes que vou fazer acerca da crise conjuntural em que nos encontramos. Charles Darwin foi o primeiro a mostrar que a histria dos bichos 
 marcada pela luta em que os mais fortes devoram os mais fracos. Os lees comem os veados, os lobos comem os cordeiros, os gavies comem as pombas, as raposas comem 
as galinhas. Os mais aptos sobrevivem, os outros morrem".

"Assim, a crise conjuntural em que nos encontramos nada mais  que uma manifestao da realidade estrutural que rege a histria dos bichos. E o que  que faz com 
que as raposas sejam mais aptas do que ns? As raposas so mais aptas e nos devoram porque elas detm o monoplio de um saber que ns no temos. Somente nos libertaremos 
do jugo das raposas quando nos apropriarmos dos saberes que elas tm."

"Como se transmitem os saberes? Por meio da educao. Sugiro ento que empreendamos uma reforma em nossos currculos e programas. Se, at hoje, nossos currculos 
e programas ensinavam aos nossos filhos saberes galinceos, de hoje em diante eles ensinaro saberes de raposa."

"Primeiro, teremos de educar os nossos olhos para que eles passem a ver como vem as raposas. Onde  que as raposas tm os seus olhos? Na frente do focinho. E ns? 
Onde esto os nossos olhos? Do lado. Educaremos os nossos olhos para que eles olhem para frente, como as raposas."

"Segundo: teremos de reeducar o nosso andar. Raposas andam com quatro patas. Por isso valem o dobro que ns, que s temos duas. Como transformar duas patas em quatro? 
Ns, galinhas e galos, bpedes, passaremos a andar aos pares, um na frente, outro atrs, o de trs segurando o traseiro do que vai  frente, e assim seremos quadrpedes."

"Terceiro: as raposas tm plos, enquanto ns temos penas. Teremos de nos livrar de nossas penas para que no seu lugar cresam plos. E os nossos rabos, ridculos 
uropgios, estimulados pelos plos, se alongaro para trs e se transformaro em rabos de raposa." 

"Quarto: as raposas tm focinhos e ns temos bicos. Mas o que  um focinho? Focinho  uma coisa sem bico. Ora, bastar que extraiamos os nossos bicos para termos 
focinhos, como as raposas. Assim, pela educao, nos apropriaremos dos saberes das raposas, espcie que por tantos milnios nos tem dominado. Ser, ento, o advento 
da liberdade!"

Mundico se calou. Todos estavam "biquiabertos" com a sua eloquncia. E todos concordaram com o seu projeto educacional. Galos e galinhas arrancaram umas s outras 
as suas penas e, peladas, aguardavam o crescimento dos plos. Por meio de exerccios apropriados, movimentavam seus olhos para que eles aprendessem a olhar para 
a frente. Desbicaram-se, lixando seus bicos em pedras speras. E andavam, como Mundico dissera, aos pares, um na frente e outro agarrado atrs...

Mas parece que o currculo de raposa no deu resultado. A raposa continuou a comer ovos dos ninhos e chegou mesmo a devorar um pintinho distrado. Acharam que ela 
tivesse tambm devorado o Sesfredo, um galo velho de pescoo pelado, vermelho, e que cantava com sotaque caipira.

Convocou-se outra assemblia. Toda a populao do galinheiro compareceu. Para surpresa de todos, at mesmo o Sesfredo, que tomou lugar num galho de uma rvore muito 
alta, onde nenhum galo ou galinha jamais fora. "A gente pensou que voc tinha sido devorado pela raposa", cantou o Godofredo, forte galo ndio. "Que nada", disse 
Sesfredo. " que me internei no spa do Urubuzo para fazer uma reciclagem de vo. Urubu  ave como ns. Mas raposa no come urubu. Raposa no come urubu porque urubu 
sabe voar. Raposa come galos e galinhas porque desaprendemos o uso de nossas asas..."

Nesse momento uma angolinha que ficara de sentinela deu o alarme: "A vem a raposa, a vem a raposa, a vem a raposa...". Foi uma correria, cada um correndo para 
um lado. Mas ningum sabia voar. A raposa, valendo-se da confuso, abocanhou uma galinha garniz, j depenada e desbicada...

Todo mundo entrou em pnico. Menos o Sesfredo. L de cima, ele abriu as asas e voou alto, muito alto, at parecia um urubu... Assim : ave que sabe voar, raposa 
no consegue pegar.

Alguns h que justificam os currculos de nossas escolas dizendo que  preciso que as classes dominadas se apropriem dos saberes das classes dominantes. H muitos 
Mundicos por a...


PARA AS MES EXTREMOSAS
Eu tenho planos definidos sobre as coisas que quero deixar escritas, como se fossem um testamento, as tais "ltimas palavras". Quero terminar um livro que comecei 
faz cinco anos, com os essenciais da minha filosofia da educao; quero terminar um outro, sobre a esttica do envelhecer; quero tambm escrever um outro, contando 
aos meus colegas de profisso, terapeutas, aquilo que julgo ter aprendido. Infelizmente, entretanto, a vida est cheia de acidentes que me desviam do meu alvo. Aconteceu 
comigo essa semana: j tinha esboado a minha prxima crnica, que seria sobre a escola dos meus sonhos. Mas a, numa curva do caminho, um demnio se apossou de 
mim, baralhou meus pensamentos pedaggicos e me ordenou que escrevesse uma coisa horrvel que no estava nos meus planos. Refuguei, disse que aquilo eu no escreveria, 
sabia que seria odiado por quem me lesse, mas no houve jeito. Quanto mais eu resistia mais ele me apertava o gog. "Se voc no fizer o que estou mandando eu no 
deixarei que voc escreva o que voc deseja escrever..." Assim, vou escrever o que ele me ordenou escrever, no sem antes pedir perdo aos meus leitores - esperando 
que eles entendam que no sou eu quem est escrevendo. Estou possudo e s vou escrever o que ele ditar.
"Dedicado s mes fofas, amorosas, extremosas, que s pensam nos seus queridos filhos, de todos os mais bonitos, razo de suas vidas, s lhes desejando o bem e sabendo 
o que  melhor para eles, no economizando rezas, novenas e promessas no sentido de que eles sejam sempre seus filhinhos queridos, ficando com elas at o fim de 
suas vidas, como foi o caso da me da Tita, do filme 'Como gua para chocolate'. Amam tanto os seus filhos que j nem sobra tempo para os maridos, esquecidos e abandonados, 
muito importantes,  verdade, indispensveis mesmo como o forte brao da lei que deve ser acionado sempre que os ditos filhos se recusarem a obedecer s ordens de 
suas extremosas e amorveis mes. 'Voc vai ter que se entender com o seu pai!' - elas ameaam. De tanto ouvir essa ameaa os filhos acabam por compreender que pais 
so seres terrveis, que detm o monoplio do dinheiro e da fora fsica, ogros, tal como est explicado na estria do 'Joo e o p de feijo' - estria que, sem 
dvida alguma, foi escrita por uma pobre e sofrida mezinha extremosa! 
Tudo comea nas deliciosas e inocentes brincadeiras de casinha. Panelinhas, pratinhos, paninhos, tudo arranjado de forma impecvel - casinha tem de ser bonitinha. 
E dentre as coisas arranjadinhas esto as bonecas. Ah! Como  gostoso brincar de boneca. A gente aperta um botozinho e a boneca chora. Aperta outro e ela ri. Apertado 
o terceiro, ela fala mame. Terminado o tempo da brincadeira a gente desliga o boto da pilha e guarda a boneca na caixa (cometi, por obra do dito demnio que tomou 
conta de mim, um lapso freudiano terrvel que logo apaguei, mas tenho de confessar: minha cabea ordenou que meus dedos escrevessem 'caixa', mas os dedos desobedeceram 
e escreveram 'caixo'...), para onde ela vai sem protestar e dorme o tempo que mame ordenar.
A brincadeira fica ruim quando a amiguinha vem para brincar e traz uma boneca muito mais bonita que a nossa, com botezinhos que fazem a boneca andar, cantar, dizer 
frases inteiras. A a me da boneca sub-desenvolvida fica triste, no quer brincar mais, sua filhinha querida deixa de ser motivo de orgulho e passa a ser motivo 
de vergonha, e ela vai chorar com a me, dizendo que quer uma boneca igual  boneca super-desenvolvida da amiguinha. Quem quer que tenha dado uma Barbie para a filha 
sabe que  assim que a coisa funciona, s custas da inveja. Bonecas no tm vontade prpria. Elas existem para que suas mes tenham orgulho delas.
A menininha cresce, tem um filho e a brincadeira continua. Ela quer que sua boneca viva seja a mais bonita e tenha um mundo de botezinhos - para fazer inveja a 
todas as outras mes. Pe-se a sonhar e a colocar seus sonhos sobre a boneca viva. Sonha com a profisso - sonhos de inteligncia, de importncia, de riqueza.  
preciso freqentar clubes ricos porque ser l que ela, se for uma menina, encontrar homens ricos que possuem BMWs. E ser l que ele, se for menino, encontrar 
seus futuros pares de importncia. Cuidado especial na escolha do colgio. Dever ser colgio 'forte', pois  necessrio ir desenvolvendo o boto que far com que 
ele ou ela passe no vestibular. Escola pblica nem pensar. Escola pblica  evidncia de pobreza: boneca mal vestida... E  preciso por na aula de bal, de ingls, 
de equitao, de jud, de alemo (criana que nunca vai morar na Alemanha e nem ler Goethe no original tem de aprender alemo. Que orgulho dizer: 'Meu filho me disse 
'Mutti, Ich liebe dich..')
A histria da educao de um filho  a histria do feitio pelo qual os pais e mes vo enredando seus filhos nas malhas dos seus desejos. Pode at ser que tenham, 
pendurado na parede, o texto do Khalil Gibran, em que ele diz que 'nossos filhos no so nossos filhos. Os pais so o arco que dispara a flecha. Nossos filhos so 
a flecha.' Eu j corrigi o erro do Khalil Gibran, que muito amo. Porque uma flecha, ainda que erre o alvo, vai sempre na direo do alvo. Nossos filhos so flechas 
que, uma vez disparadas, se transformam em aves que voam para onde querem - para destinos com que seus pais nunca sonharam ou mesmo odiaram. Para evitar que as aves 
voem para onde querem  preciso engaiolar as aves.
Os pais as engaiolam pela fora. Como o fez o pai do jovem do filme 'A Sociedade dos Poetas Mortos'. O moo queria ser artista de teatro. Mas o pai tinha sonhos 
mais importantes para ele: mdico. Mas o jovem queria voar e vocs sabem o que ele fez para no ficar na gaiola... Filhos so bonecos, no tm entranhas, no tm 
corao. Devem fazer o que os pais mandam. Como as bonecas, quando o boto  apertado. O que tem suas vantagens. Quem faz obrigado, pela fora, aprende logo a lio 
do dio. O corpo vai na direo mandada. Mas o esprito voa e sonha com o dia em que, como o Joo, haver de cortar o p-de-feijo. 
Aquela pobre menina odiava aqueles laos de fita enormes, gigantescos, com que as mes de antigamente enfeitavam suas filhinhas. Para que? Para que suas filhinhas 
fossem felizes? No. Para que elas, mes, ficassem felizes e orgulhosas, mostrando s outras mes suas filhinhas debaixo do lao de fita. Pois a menina no queria 
lao de fita na cabea. Mas, como j disse, bonecas no tm vontade prpria. A me era mais forte. E a pobre menininha ficava horas diante do espelho, achando-se 
ridcula e chorando. A me triunfava. Todos falavam sobre a beleza da fita e da menina. E a menina sofria. A ferida nunca sarou. Hoje, passados mais de cinqenta 
anos, ela ainda se lembra... e sofre.  possvel perdoar. No  possvel esquecer. 
Mas as mes extremosas, fofas e amorosas usam um artifcio muito mais sutil e eficiente que a fora. O menino de seis anos v os cabelos j grisalhos da me. 'Mame, 
por que  que seus cabelos esto ficando brancos?' Responde a me, com um sorriso doce: 'O cabelo preto vira cabelo branco com cada desobedincia do filho...' A 
o menino descobre que ele  o assassino de sua me. A me, olhando para a filha adulta que no foi aquilo que ela desejava que ela fosse, pergunta-lhe com voz chorosa: 
'Por que  que voc me faz sofrer tanto?' Filha malvada, esquecida das noites mal-dormidas, das lgrimas vertidas - agora ousa viver a sua prpria vida. As mes 
no usam a fora. Usam algo mais terrvel: o sentimento de culpa que, traduzido da forma mais grosseira, assim se resume: 'Sofri por voc. Agora voc tem de viver 
para mim.' Quem  fisgado pelo sentimento de culpa perdeu a liberdade, perdeu as asas. Nunca mais voar. Engaiolado para sempre.
Por vezes os pais e as mes mandam os filhos para o terapeuta. Tomam o terapeuta como seu aliado. Acham que o terapeuta  um especialista em por aves selvagens dentro 
da gaiola. Mas ficam atentos. 'Meu filho, sobre o que voc o seu terapeuta conversaram?' O moo ou moa, j fisgado pela culpa, no mais tem direito a um espao 
interior. Bonecas no tm espao interior. Ter espao interior seria trair as noites mal dormidas e as lgrimas vertidas. E a eles confessam que conversaram sobre 
a beleza do vo. Os pais horrorizados descobrem o que no sabiam: que a misso dos terapeutas  dar asas aos que no as possuem e desejam voar... Fim da terapia." 
Ditas essas palavras o demnio me abandonou e eu voltei a ser o que sempre sou...
 

PARA UMA MENINA CHAMADA DINA
Minha crnica para minhas netas j estava esboada. O seu ttulo seria Terra. Minhas estrias sobre meu mundo de menino obedecem a um projeto filosfico. A primeira, 
A Mquina do Tempo, oferece a um professor com imaginao ocasio para comear uma conversa fascinante sobre o tempo - o que faria as crianas viajar at um longnquo 
passado, na Grcia, para uma conversa com Herclito. A segunda, A Casa,  ocasio para se pensar sobre o pensamento. Por que pensamos?O que  que o pensamento faz? 
Casas no existem na natureza. Elas nascem do pensamento. Mas o pensamento  o lugar do que no existe. Uma casa pensada  uma casa que no existe. E de sua no 
existncia surge a casa que existe. A matemtica, toda ela,  um jogo lgico com coisas que no existem. O mundo surge do que no existe... H muito pensamento por 
detrs de uma casa de pau-a-pique... A comearamos um passeio pelos quatro elementos que, segundo os filsofos antigos, so a substncia de que tudo  feito. Primeiro, 
o fogo: o fogo de lenha, o despertar do fogo... Depois, a gua: a mina, as tcnicas relacionadas  gua. Hoje seria o dia da terra. E a prxima seria sobre o ar. 
Fogo, gua, terra e ar: os quatro elementos fundamentais.
Mas a apareceu uma coisa mais importante. Uma carta. A carta me comoveu tanto que resolvi adiar a terra e transcrever a carta, escrita por uma menina chamada Dina. 
Acho que vocs vo gostar. Transcrevo do jeito exato como foi escrita.
" uns tempos atraz, o M. Castro escreveu uma cronica sobre os brincos da infancia. Falou sobre cirandinha, amarelinha, boca de forno, esconde-esconde, etc etc. 
Muito bem, e no final como sempre, ele pendurou no poste: Saudosista  a vovsinha.
Alem de ele ser saudosista, ele  tal qual voce, faz a gente voltar ao passado. Exemplo: a Casa e o Fogo, me fizeram voltar ao passado, muitos anos atraz. Tenho 
86 anos, e hoje sou azilada. Lendo seus escritos, voltei ao passado. Aquela casa j foi minha nos idos de 29. Pau a pique e coberta de sap. Quanta recordao que 
voce me trouxe. Quase fugiu da memoria, e voce veio fazer surgir  tna, muito sofrimento e trabalho, mas tambem alegrias. Eu era quase uma menina. Tinha que buscar 
lenha no mato, fazer po e acender aquele forno enorme para assa-lo. E na minha inexperiencia, quaze sempre saia ruim. As vezes nem crescia. Morava no Salto do Pinhal, 
onde havia usinas eletricas que forneciam luz para as fazendas visinhas. L havia uma cachoeira, era o rio Mogi-Guau. Aquele caudal de agua que caia sobre as pedras, 
levantando espumas, tal qual as nereidas do mar. Rugia dia e noite embalando o nosso sono, pois ficava em frente a janela do quarto. E nas noite enluaradas e o cu 
cheio de estrelas, sem a poluio atual, ela se tornava um caudal luminoso. Como era lindo! No tempo da piracema, os peixes pareciam ter asas, eles saltavam a cachoeira 
para a desova. Rubem, era uma beleza! Muitos no conseguim e caiam sobre as pedras, e eu da janela ficava torcendo para que eles conseguissem. Sem falar nos pirilampos, 
no coaxar dos sapos, na revoada dos tangars a tarde onde eles iam se alojar nas pedras da agua da cachoeira para dormirem. A mata nativa, era exuberante, havia 
nela tanto bichinho, borboletas orquideas, a gente no adentrava porque existia cobras e bichos perigosos. Aquelas arvores de um verde escuro (era a mata ciliar) 
com suas flores roxas e brancas, traziam alegria para suavisar a rudez das nossas vidas. Sabe, Rubem, era tudo rudimentar tal qual voce falou no Fogo. Aquele fogo, 
a vassoura de guaxuma ou alecrim, tudo isso, eu conheci e tracei na raa. Por isso queridos Rubem e M. Castro, fazem-me voltar ao passado. O Castro, quando eu era 
criana, naqueles brincos da infancia cheio de inocencia, que hoje no existe mais. Faz-me lembrar dos meus oito anos, de Casemiro de Abreu. Voces fizeram me reviver 
o passado que parece no ser muito distante, pois veio-me a tna como se estivesse vivenciando aquele tempo. (...) Quase no posso ler, tenho problema nos olhos, 
mas sou uma velha muito, mas muito mesmo teimosa, e isso me prejudica um pouco. Mas gosto de mim assim mesmo. Deus tem me ajudado a "vencer" a velhice. Dificil, 
no ? Mas no impossivel. Um abrao para voce e o Castro. De vez em quando dou um beijo no retratinho dele que vem impresso na coluna, quando ele escreve coisas 
que eu gosto. Desculpe, so trez laudas, no  muito, pois no? Moro no Recanto dos Velhinhos. Rua Arlindo Gomes 285. Novo Campos Eliseos. Campinas. Congregao 
Crist do Brasil. Venham nos visitar, tragam suas esposas para nos conhecer. Seria um grande prazer recebe-los.
Tenho muita coisa escrita, mas muitas se perderam no tempo. Mas ficou ainda algumas que guardo com carinho porque so Reminiscencias do passado. Muita coisa no 
recordo mais, mas ainda me considero um baluarte, apezar dos 86 anos. Se tiver erros no meu portugues, desculpe. Sou autodidata e no erudita.
PS: Hoje, domingo dia 11, li sua cronica sobre a agua. Pelos meus escritos voce sabe que tambem conheo uma mina. No uma mas diversas. No final voc diz que tem 
algo te machucando. Rubem, no ser saudade? Depois de uns poucos anos todos ns sofremos desse mal. Acertei? (...) Ns, seus leitores, poderemos compartilhar e 
fazer votos que voce se cure. Mas o subterranio da vida, voce tem que atravessa-lo sozinho.
As vezes as letras saem meio tortas, porque no tenho mesa para escrever, escrevo em cima de um caderno de capa dura e no colo. Dina de Sousa."
Dina, querida, voc  uma menina! Se havia alguma coisa me fazendo sofrer, lendo sua carta eu sorri e ri - como estou rindo agora! - e fiquei curado. Voc escreve 
muito gostoso. J li sua carta muitas vezes e a li tambm para o grupo que amigos que se renem comigo s 3as. feiras para ler poesia. Sua carta  poesia. Aqueles 
peixes com asas, a revoada dos tangars... Poesia e sabedoria! Que bom que voc existe! No tenho fotografia sua. Se tivesse faria o que voc faz com as fotos do 
Moacyr Castro: daria um beijo nela! De qualquer forma, estou dando um beijo em voc - mesmo de longe! 


BACH

Florais de Bach: confesso minha ignorncia. Nada sei sobre os seus poderes. Mas sei muito sobre os poderes teraputicos dos "Corais de Bach". A msica tem poderes 
mgicos. Nietzsche fala sobre isso no seu livro O nascimento da tragdia grega - a partir do esprito da msica. A msica entra no corpo e o possui. A experincia 
esttica com a msica  uma experincia de "possesso".

"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses ho de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que h de mortal.
Pois acredito que eles me traro
Os poemas da alma e da imortalidade."
E  raa humana eu digo:
-No seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e no sou curioso a respeito de Deus.
No h palavra capaz de dizer 
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu no entenda 
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que no sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
 para mim um milagre,
Milagre cada polegada cbica de espao,
Cada metro quadrado de superfcie
Da terra est cheio de milagres
E cada pedao do seu interior
Est apinhado de milagres.
O mar  para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vo com homens dentro
- existiro milagres mais estranhos?" (Walt Whitmann)

PERGUNTAS DE CRIANA

H muita sabedoria pedaggica nos ditos populares. Como naquele que diz: " fcil levar a gua at o meio do ribeiro. O difcil  convenc-la a beber a gua". De 
fato: se a gua no estiver com sede, ela no beber gua, por mais que o seu dono a surre... Mas, se estiver com sede, ela, por vontade prpria, tomar a iniciativa 
de ir at o ribeiro. Aplicado  educao: " fcil obrigar o aluno a ir  escola. O difcil  convenc-lo a aprender aquilo que ele no quer aprender".
s vezes, eu penso que o que as escolas fazem com as crianas  tentar for-las a beber a gua que no querem beber. Brunno Bettelheim, um dos maiores educadores 
do sculo 20, dizia que, na escola, seus professores tentaram ensinar-lhe coisas que queriam ensinar, mas que ele no queria aprender. No aprendeu e, ainda por 
cima, ficou com raiva. Que as crianas querem aprender, disso no tenho a menor dvida. Vocs devem se lembrar do que escrevi, corrigindo a afirmao com que Aristteles 
comea a sua "Metafsica": "Todos os homens, enquanto crianas, tm, por natureza, desejo de conhecer".

Mas o que  que as crianas querem aprender? Pois, faz uns dias, recebi de uma professora, Edith Chacon Theodoro, uma carta digna de uma educadora e, anexada a ela, 
uma lista de perguntas que seus alunos haviam feito, espontaneamente. "Por que o mundo gira em torno dele e do Sol? Por que a vida  justa com poucos e to injusta 
com muitos? Por que o cu  azul? Quem foi que inventou o portugus? Como foi que os homens e as mulheres chegaram a descobrir as letras e as slabas? Como a exploso 
do Big Bang foi originada? Ser que existe inferno? Como pode ter algum que no goste de planta? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um cego sabe o que  
uma cor? Se na Arca de No havia muitos animais selvagens, por que um no comeu o outro? Para onde vou depois de morrer? Por que eu adoro msica e instrumentos musicais 
se ningum na minha famlia toca nada? Por que sou nervoso? Por que h vento? Por que as pessoas boas morrem mais cedo? Por que a chuva cai em gotas, e no tudo 
de uma vez?"

Jos Pacheco  um educador portugus. Ele  o diretor (embora no aceite ser chamado de diretor, por razes que um dia vou explicar) da Escola da Ponte, localizada 
na pequena cidade de Vila das Aves, ao norte de Portugal.  uma das escolas mais inteligentes que j visitei. Ela  inteligente porque leva muito mais a srio as 
perguntas que as crianas fazem do que as respostas que os programas querem faz-las aprender. Pois ele me contou que, em tempos idos, quando ainda trabalhava numa 
outra escola, provocou os alunos para que escrevessem numa folha de papel as perguntas que faziam ccegas na curiosidade e que ficavam rolando dentro das suas cabeas, 
sem resposta. O resultado foi parecido com o que transcrevi acima. Entusiasmado com a inteligncia das crianas pois  nas perguntas que a inteligncia se revela, 
resolveu fazer experincia parecida com os professores. Pediu-lhes que colocassem numa folha de papel as perguntas que gostariam de fazer. O resultado foi surpreendente: 
os professores s fizeram perguntas relativas aos contedos dos seus programas. Os professores de geografia fizeram perguntas sobre acidentes geogrficos, os professores 
de portugus fizeram perguntas sobre gramtica, os professores de histria fizeram perguntas sobre fatos histricos, os professores de mate-mtica propuseram problemas 
de matemtica a serem resolvidos e assim por diante.

O filsofo Ludwig Wittgenstein afirmou: "Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo". Minha verso popular: "As perguntas que fazemos revelam 
o ribeiro onde queremos ir beber..." Leia de novo e vagarosamente as perguntas feitas pelos alunos. Voc ver que elas revelam uma sede imensa de conhecimento! 

Os mundos das crianas so imensos! Sua sede no se mata bebendo a gua de um mesmo ribeiro! Querem guas de rios, de lagos, de lagoas, de fontes, de minas, de 
chuva, de poas d'gua... J as perguntas dos professores revelam (perdo pela palavra que vou usar!  s uma metfora, para fazer ligao com o ditado popular!) 
guas que perderam a curiosidade, felizes com as guas do ribeiro conhecido... Ribeires diferentes as assustam, por medo de se afogarem... Perguntas falsas: os 
professores sabiam as respostas... Assim, elas nada revelavam do espanto que se tem quando se olha para o mundo com ateno. Eram apenas a repetio da mesma trilha 
batida que leva ao mesmo ribeiro...

Eu sempre me preocupei muito com aquilo que as escolas fazem com as crianas. Agora estou me preocupando com aquilo que as escolas fazem com os professores. Os professores 
que fizeram as perguntas j foram crianas; quando crianas, suas perguntas eram outras, seu mundo era outro... Foi a instituio "escola" que lhes ensinou a maneira 
certa de beber gua: cada um no seu ribeiro... Mas as instituies so criaes humanas. Podem ser mudadas. E, se forem mudadas, os professores aprendero o prazer 
de beber guas de outros ribeires e voltaro a fazer as perguntas que faziam quando eram crianas.

Rubem Alves, 68,  educador e psicanalista. Participou em agosto do congresso "Educar Diversa-mente", na Itlia, organizado pelo Centro Educazione alla Mondialit.O 
tema era uma oposio a "Educar Igual-mente", ao estilo de "linha de montagem" e que termina na "formatura", evento festivo em que se proclama que todos os formandos 
possuem os mesmos conhecimentos sendo, por isso, intercambiveis.



POR QUE UM JARDIM

Um amigo me disse que o poeta Mallarm tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra s. Ele buscava uma nica palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no 
seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorncia da Palavra". A poesia  uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, 
aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa nica palavra: Jardim! Jardim  a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. 
Se me fosse dado dizer uma ltima palavra, uma nica palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu 
no tinha. De meu, eu s tinha o sonho. Sei que  nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim  um sonho que virou realidade, 
revelao de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, so coisas 
fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pssaros sem asas... So como as canes, que nada so at que algum as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, 
 espera de algum que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra no me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espao, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar 
onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Com os olhos eu via as coisas feias. Com o nariz sentia o seu fedor. Era o que estava l, a dura 'realidade' presente. Mas a imaginao  coisa mgica. Tem o poder 
para ver e cheirar o que est ausente. Assim, graas aos seus poderes mgicos, eu via o meu jardim ausente e sentia os cheiros de suas flores e ervas. Pensava que, 
de alguma forma, coisa semelhante deveria ter acontecido com Deus Todo Poderoso. Pois o que dizem os textos sagrados  que,  sua volta, s existiam escurido e 
confuso. Coisas que o deixavam triste. Foi ento que ele sonhou com um jardim e compreendeu que era aquilo que o deixaria feliz, se existisse. E se ps a trabalhar 
para plantar um Paraso. Terminado o trabalho, dizem os poemas, o Criador descansou e se entregou ao puro prazer. Viu que tudo era muito bom. E, ao contrrio do 
que dizem dele os religiosos, (que mora no cu infinito, em meio s estrelas, entre os anjos...) resolveu que lugar melhor para se morar que um jardim no existe. 
E l ficou, tomando prazer especial em passar em meio s plantas,  hora da brisa quente da tarde... 
Eu no acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E at andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes 
para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pssaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado 
 infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
No chamei paisagista. Paisagistas so especialistas em jardins bonitos. Mas no era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois voc no sabe que os 
jardins falam? Quem diz isto  o Guimares Rosa: "So muitos e milhes de jardins, e todos os jardins se falam. Os pssaros dos ventos do cu - constantes trazem 
recados. Voc ainda no sabe. Sempre  beira do mais belo. Este  o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma 
Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia voc ter saudades... Vocs, ento, sabero..."  preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades 
entende os recados dos jardins. No chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele no podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele no eram 
as saudades minhas. At que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas so especialistas em esttica: tomam as cores e as formas e constrem 
cenrios com as plantas no espao exterior. A natureza revela ento a sua exuberncia num desperdcio que transborda em variaes que no se esgotam nunca, em perfumes 
que penetram o corpo por canais invisveis, em rudos de fontes ou folhas... O jardim  um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como  bom!
Mas no era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava no era a esttica dos espaos 
de fora; era a potica dos espaos de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias j idas. Em busca do 
tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melanclico. Dele no mais se pode esperar coisa alguma..." No 
entendeu. Pois melancolia  justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperana de que elas possam ser de novo criadas. 
Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade  a dor que se sente quando se percebe a distncia que existe entre o 
sonho e a realidade. Mais do que isto:  compreender que a felicidade s voltar quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em 
realidade. Entendem agora por que um paisagista seria intil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de fico cientfica onde a vida acontece 
em meio aos metais,  eletrnica, nas naves espaciais que navegam pelos espaos siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbao que levou aqueles homens 
a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demnio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da 
humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou tambm metlico, eletrnico, sideral e vazio... E com isto, a esperana do Paraso se perdeu. Pois, como o disse 
o mstico medieval Angelus Silsius: 

Se, no teu centro
um Paraso no puderes encontrar,
no existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Ceclia Meireles me encanta,  o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelao do nosso lugar e do nosso destino: 

"No mistrio do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

Metfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma poltica. Pois poltica  isto: a arte da jardinagem aplicada 
ao mundo inteiro. Todo poltico deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrrio: todo jardineiro deveria ser poltico. Pois existe apenas um programa poltico 
digno de considerao. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para alm de todas as misrias, um destino de felicidade. O homem deve 
reencontrar o Paraso." (O retorno eterno, pg. 65




PRECISO QUE AQUELES QUE ME AMAM ME PERDOEM

Preciso que aqueles que me amam me perdoem. Que me perdoem porque - preciso confessar - eu me pareo com os esquilos... . Eu me pareo com os esquilos... Esquilos 
so animaizinhos deliciosos, com sua longa cauda peluda. Qualquer um gostaria de t-los no colo e acariciar seu pelo liso. Assentados, eretos, olhinhos assustados, 
eles seguram as nozes com as mos e as mordiscam de um jeito que faz lembrar os humanos. Me disseram que eles tm o costume de guardar enterradas as nozes que no 
comem, com a inteno de com-las mais tarde, quando os bosques se cobrirem de neve. Me disseram mais, que eles tm memria curta; esquecem-se dos lugares onde guardaram 
suas preciosas nozes. Pois eu sou assim: guardo coisas preciosas para degust-las num momento de calma - e depois me esqueo. E elas ficam enterradas em gavetas 
e caixas at que, acidentalmente, as encontro de novo. Acham que fico alegre? Enganam-se. Fico muito triste. Porque elas no poderiam ter sido esquecidas. As nozes, 
acho que elas at ficam alegres por terem sido esquecidas. Esquecidas, elas no so comidas pelos esquilos. Quando a primavera volta elas germinam, brotam, nascem 
e se transformam em rvores. Toda noz quer virar rvore. Mas as coisas preciosas que ficaram esquecidas nas minhas gavetas e caixas no poderiam ter sido esquecidas 
- porque elas me foram enviadas precisamente para que eu as comesse. Foram presentes de pessoas que me amam, gestos de carinho. E o que elas receberam de mim, em 
troca do seu gesto, foi o silncio...

Fui sempre assim, bagunado. Minha me tentou me treinar para a ordem. Inutilmente. Eu mesmo tenho lutado para ser organizado. Encho-me de boas intenes e fao 
promessas. Mas sou sempre derrotado: depois de uns trs dias a baguna est de novo instalada no meu escritrio. Fiquei conformado com a minha incapacidade para 
a ordem quando, faz uns anos, uma pessoa que me ama sem me conhecer me enviou um presente: um quadro bordado em ponto de cruz com as palavras "Deus abenoe esta 
baguna". Sem me conhecer, como poderia saber? Certamente foi um anjo que lhe disse. E se foi dito por um anjo, no h o que fazer...

Hoje quero pedir perdo a duas pessoas. Para elas, o vento me soprou um versinho que eu gostaria fosse um haikai:

"No escuro da gaveta,
nozes esquecidas,
vozes no ouvidas..."

Vou transcrever partes da carta que uma delas me escreveu:

"Frias de janeiro - no sei de que ano - Antes de ir viajar, procurei nas estantes de livros da minha me o livro que seria meu companheiro por alguns dias. Buscava 
algo potico que no fosse poesia, que no fosse romance (com filhos sabia que no seria possvel ler um livro inteiro), que fosse algo que tocasse o fundo da minha 
alma, que me fizesse tambm poeta. Encontrei um livro 'O retorno eterno'. O livro foi comigo para a praia, ficou na areia, tomou chuva, tomou sol, ficou comigo na 
rede, me acompanhou na hora de dormir. Quando a gente descobre alguma coisa muito preciosa, deseja que as pessoas que a gente ama tambm descubram. Foi assim que 
o Aldo, meu marido, se encontrou com Rubem Alves... Assim que voltei de viagem disse ao meu pai que ele precisava conhecer uma pessoa. Era voc. E assim o meu pai 
conheceu e se apaixonou por Rubem Alves. (10 de novembro de 1999). Meu irmo morreu. 3 dias depois fui a uma livraria. Queria encontrar uma palavra sua para aliviar 
um pouco a nossa dor. Dei para os meus pais "Concerto para corpo e alma". Ler 'O morto que canta' aliviava a minha dor. Voc falava do meu irmo. Li e reli milhares 
de vezes. Fico feliz quando vejo meu pai lendo. ...No sei escrever. Sei pintar. E foi com todo carinho, ouvindo o Adagio de Albinoni - uma das melodias mais tristes 
e lindas que j ouvi em minha vida... que fiz essa aquarela para voc. Com amor. Solange Sandoval 01.09.2000 " 

Quase um ano! Haver perdo? E o pior: na carta no se encontra nem o endereo e nem o telefone da Solange. Ser que algum pode me ajudar a encontr-la?

A outra a quem quero pedir perdo  a Lvia Vezzani Sassi Piraino. Sua carta est datada de 04 de setembro de 2000. Junto com a carta ela me enviou um livro artesanal 
- lindo - onde ela colocou os resultados de um longo trabalho de garimpagem: aforismos, frases, pitadas de sabedoria - que ela colheu dos livros que leu e transcreveu 
nos seus cadernos. O jeito que tenho de lhe pedir perdo, Lvia,  compartilhando com meus leitores alguns fragmentos do seu livro. Se voc leu minha ltima crnica 
voc ter percebido que foi da leitura de uma frase do seu livro que ela nasceu: "Tomar uma deciso de ter um filho  algo que ir mudar sua vida inteira de forma 
inexorvel. Dali para frente, para sempre, o seu corao caminhar por caminhos fora do seu corpo."

1. "Em tempos difceis em algumas pessoas crescem asas; outras compram muletas."
2. "No  a violncia de uns poucos que me horroriza;  o silncio dos muitos" (Martin L. King)
3. "No  possvel mudar a direo do vento, mas  possvel ajustar as velas."
4. "Um homem velho amando  como uma flor que floresce no inverno."
5. "A preocupao no tira do amanh os seus sofrimentos mas esvazia o presente da sua fora."
6. "A verdadeira viagem de descobrimento consiste no em buscar cenrios novos mas em ter olhos novos." (Proust)
7. "Simplicidade  fazer a viagem desta vida com o mnimo de bagagem possvel" (Charles Warner)
8. "As passagens da Bblia que me causam problemas no so aquelas que eu no entendo mas aquelas que eu entendo..." (Mark Twain)
9. "Se voc deseja ter paz de esprito demita-se da funo de administrador geral do universo."
10. "Universidades so grandes reservatrios de conhecimento. Os calouros trazem um pouco de conhecimento a cada ano. Os formandos, por sua vez, nada tiram de l. 
O resultado  que a montanha de conhecimento vai crescendo..."
11. "Uma forma infalvel de fazer o seu filho infeliz  satisfazer todas as suas exigncias."

12. Acabo de passar pelo meu jardim. Em meio s plantas compradas em floriculturas e plantadas de propsito esto crescendo outras que ningum plantou. Nasceram 
porque nasceram. Algumas, estrelas cor de rosa de cinco pontas, nascem dos trevos. Outras, amarelas, so margaridinhas minsculas, com menos de um centmetro de 
dimetro. E num p de mato que no sei o que  crescem flores brancas, estrelas tambm de cinco pontas. Quase invisveis. No podem ser compradas em floriculturas. 
Miniaturas delicadssimas. Todas nos falam do manancial silencioso de beleza que est em todos os lugares do mundo. O mundo  um jardim florido. Claro: s vem a 
beleza aqueles que tm novos olhos. Obrigado Solange e Lvia: a beleza que veio com suas cartas me encheu de alegria.


APERITIVOS

1. A Dina morreu hoje, dia 15. Iria completar 87 anos no prximo dia 22. Morreu triste. Sentia-se como um pssaro engaiolado. Dizia que a escrita era a sua forma 
de voar alm dos limites em que estava confinada. Enviou-me muitas cartas que no publiquei, a pedido dela. Mas agora que ela est livre, nada impede que suas cartas 
sejam publicadas.

2. Abra os olhos! As "patas-de-vaca" esto maravilhosamente floridas, espalhadas pela cidade. Parecem-se com orqudeas. Orqudeas de pobre: abundantes e grtis. 
E veja os ips brancos, delicadssimos, antes que sua florao efmera acabe. Tambm esto florescendo as quaresmeiras.

3. Bruno Bettelheim, um dos grandes educadores do sculo XX, falando sobre o absurdo da sua experincia escolar, disse: "Fui forado a estudar o que os professores 
haviam decidido que eu deveria aprender, e a aprender  sua maneira..."

4. Minha secretria me informou que h 553 e-mails  minha espera.

(Correio Popular, Caderno C, 19/08/2001.) 



PRIMEIRA LIO PARA EDUCADORES
Tenho uma grande ressonncia espiritual com Herman Hesse. Comove-me, de maneira especial, a figura de Joseph Knecht, que  o personagem central do seu livro "O jogo 
das contas de vidro". Joseph Knecht era o lder espiritual, o "magister ludi" de uma ordem monstica que se dedicava ao cultivo da beleza. Ele, mestre supremo, era 
um msico, intrprete de Bach. Havia atingido o ponto mximo que um homem pode atingir. No havia altura maior que ele pudesse galgar. No entanto, com a velhice, 
aconteceu uma mudana no seu corao - igual  mudana que acontecera no corao de Zaratustra, depois de dez anos de solido no alto de uma montanha. Comeou a 
sentir uma dolorosa nostalgia por uma coisa muito simples, muito humilde. Comeou a desejar que os ltimos anos de sua vida fossem gastos no nas alturas onde ele 
se encontrava, mas nas plancies onde os homens comuns viviam. Veio-lhe o desejo de descer (tal como aconteceu com Zaratustra, depois de dez anos nas alturas das 
montanhas...) para educar uma criana, uma nica criana, que ainda no tivesse sido deformada pela escola. 
Hesse era apaixonado pela educao. Declarou que, de todos os assuntos culturais, era o nico que lhe interessava. Mas o curioso  que, ao mesmo tempo, ele sentia 
um horror pelas escolas - lugar onde as crianas eram deformadas. Ns dois poderamos ter sido amigos. Sentimos igual. A educao  a paixo que queima dentro de 
mim. E, no entanto, olho para as escolas com desconfiana...
Estremeo quando me dizem que h entrevistadores de televiso e de jornais  minha espera. Sei, de antemo, a primeira pergunta que vo me fazer. "O que  que o 
senhor acha da educao no Brasil?" A pergunta  banal porque eles j esperam uma resposta estereotipada. Querem que eu denuncie a falta de verbas, a condio de 
indigncia dos professores, o mau aproveitamento dos alunos, etc. Mas isso, todo mundo j sabe.  um equvoco pensar que com mais verbas a educao ficar melhor, 
que os alunos aprendero mais, que os professores ficaro mais felizes. Como  um equvoco pensar que, com panelas novas e caras, o mau cozinheiro far comida boa. 
Educao no se faz com dinheiro. Se faz com inteligncia. E a, frustrando as expectativas dos entrevistadores, eu falo sobre coisas lindas que esto acontecendo 
por esse Brasil afora, no campo da educao. Porque o fato  que, a despeito de todas as coisas ruins e andando na direo contrria, h professores que amam os 
seus alunos e sentem prazer em ensinar. 
No h nada que tenha ocupado tanto o meu pensamento quanto a educao. No acredito que exista coisa mais importante para a vida dos indivduos e do pas que a 
educao. A democracia s  possvel se o povo for educado. Mas ser educado no significa ter diploma superior. Significa ter a capacidade de pensar. Diplomas somente 
atestam que aqueles que os tm so portadores de um certo tipo de conhecimento. Mas ser portador de um certo tipo de conhecimento no  saber pensar.  ter arquivos 
cheios de informaes. Nossas universidades so avaliadas pelo nmero de artigos cientficos que seus cientistas publicam em revistas internacionais em lnguas estrangeiras. 
Gostaria que houvesse critrios que avaliassem nossas universidades por sua capacidade de fazer o povo pensar. Para a vida do pas, um povo que pensa  infinitamente 
mais importante que artigos publicados para o restrito clube internacional de cientistas. 
 muito fcil continuar a repetir as rotinas, fazer as coisas como tm sido feitas, como todo mundo faz. As rotinas e repeties tm um curioso efeito sobre o pensamento: 
elas o paralisam. A nossa estupidez e preguia nos levam a acreditar que aquilo que sempre foi feito de um certo jeito deve ser o jeito certo de fazer. Mas os gregos 
sabiam diferente: sabiam que o conhecimento s se inicia quando o familiar deixa de ser familiar; quando nos espantamos diante dele; quando ele se transforma num 
enigma. "O que  conhecido com familiaridade", diz Hegel, "no  conhecido pelo simples fato de ser familiar". 
Dediquei grande parte da minha vida ao ensino universitrio e tive muitas experincias boas. Mas a sensao que tenho  que, nas universidades, j  tarde demais. 
Os costumes e as rotinas j esto por demais sacralizados. Aqui o processo de deformao a que se referiu Hesse j atingiu um ponto irreversvel. Sinto o mesmo que 
sentiu Joseph Knecht, no final de sua vida. Quero voltar s origens. Quero me encontrar com o pensamento no momento mesmo em que ele nasce. 
Gostaria que vocs lessem de novo aquilo que escrevi no meu ltimo artigo "Animais de corpo mole". Comecei, como Piaget, dos moluscos, animais de corpo mole que 
tm de fazer conchas para sobreviver. Usei os moluscos como metforas do que acontece conosco, animais de corpo mole que,  semelhana dos moluscos, temos tambm 
de fazer casas para sobreviver. Toda a atividade humana  um esforo para construir casas. Casas so o espao conhecido e protegido onde a vida tem maiores condies 
de sobreviver. Espao familiar. Piaget sugeriu que o corpo deseja transformar o espao que o rodeia numa extenso de si mesmo. Esse espao, extenso do corpo,  
a nossa casa. Da necessidade de construir uma casa surge a cincia dos materiais, a fsica mecnica, a hidrulica, o conhecimento e o domnio do fogo. Da necessidade 
de comer surgem as cincias das hortas e da agricultura. Da necessidade esttica de beleza surge a cincia da jardinagem. Da necessidade de viajar para caar e comerciar 
surge a cincia dos mapas, a geografia. Da necessidade de navegar surge a astronomia. E assim vai o corpo, expandindo-se cada vez mais, para que o espao desconhecido 
e inimigo ao seu redor se transforme em espao conhecido e amigo. At mesmo o universo... Se os homens olharam para os cus e pensaram astronomia e astrologia  
porque viram a abbada celeste e as estrelas como o grande telhado do mundo. O universo  uma casa. Karl Popper, no prefcio ao seu livro "A Lgica da Investigao 
Cientfica", diz da inspirao original da cincia (por oposio queles que a pensam como a produo quantitativa de artigos a serem publicados em revistas internacionais) 
que ela procurava compreender o universo onde vivemos. Era preciso conhecer essa casa enorme onde moramos para nos sentirmos em casa. Um universo que se conhece 
 um universo que faz sentido. "Quanto a mim", ele diz, "estou interessado em cincia e em filosofia somente porque eu desejo saber algo sobre o enigma do mundo 
no qual vivemos e o enigma do conhecimento que o homem tem deste mundo. E eu creio que somente um reavivamento no interesse desses enigmas pode salvar as cincias 
e a filosofia das estreitas especializaes e de uma f obscurantista nas habilidades especiais dos especialistas e no seu conhecimento e autoridade pessoais."
"O enigma do conhecimento que o homem tem deste mundo":  nesse ponto que a filosofia da educao tem o seu incio. Onde nasce o nosso desejo de conhecer? Para que 
conhecemos? Como conhecemos? Essas so as questes que me preocupam. E  por isso que estou interessado no conhecimento, no momento exato do seu nascimento. Quero 
v-lo nascendo, como uma criana sai do corpo da mulher. O conhecimento dos moluscos e de outros animais sobre a arte de construir casas nasce com eles. Mas no 
nasce conosco. Nascemos ignorantes. Que foras nos arrancaram da ignorncia? Que poder penetrou no corpo mole do homem e o engravidou, transformando-o num pensador? 
Que poder foi esse que transformou o crebro em tero? E que foras o ajudam a nascer? 
Para se ter resposta a essas perguntas basta observar esse milagre acontecendo na vida de uma criana. 
Primeira lio para os educadores: A questo no  ensinar as crianas. A questo  aprender delas. Na vida de uma criana a gente v o pensamento nascendo - antes 
que a gente faa qualquer coisa...
S QUERO UM PRESENTE...

Minhas netas: no dia 15 o v vai ficar mais velho. Bobagem, porque a gente envelhece o tempo todo; o tempo no para;  como o rio. S que a gente no percebe. Mas 
a chega um dia que faz a gente parar e prestar ateno: o dia do aniversrio. No dia do aniversrio a gente diz: "Passou mais um ano da minha vida".  o dia quando 
os nmeros mudam. Quando me perguntam: "Qual  a sua idade?" - eu respondo: "67". Mas depois do dia 15 a resposta ser "68".

Vocs crianas, quando pensam em aniversrio, do risada e ficam felizes. Aniversrio  dia de festa e presentes. Toda criana quer que o tempo passe depressa para 
ficar mais velha, deixar de ser criana e ficar adulta. Acham que ser criana  coisa ruim, porque crianas no so donas do seu nariz, no fazem o que querem. Bom 
mesmo  ser grande. Os grandes fazem o que querem e no precisam pedir permisso. Criana  passarinho sem asas. Adulto  passarinho com asas: voam bem alto e vo 
aonde as crianas no podem ir. No dia do aniversrio as crianas olham para frente: imaginam que est chegando o dia quando elas tero asas e podero voar.

Os grandes, no dia do aniversrio, olham para trs. Eles tm saudades do tempo em que eram crianas.  s depois que a gente deixa de ser criana que a gente descobre 
que ser criana  muito bom.

Explico de outro jeito. Imaginem que vocs vo fazer uma viagem. A felicidade da viagem comea antes da viagem. A gente examina mapas, l artigos sobre os lugares 
que vo ser visitados, conversa com amigos que j foram, olha fotografias. E s de imaginar fica feliz.

Depois de feita a viagem  diferente. A felicidade ficou para trs. S resta ver as fotos e conversar...

Criana  quem ainda no viajou e fica feliz imaginando a viagem. Viagem imaginada  sempre feliz. Adulto  quem j viajou e fica feliz olhando as fotos da viagem.

Foi por isso que resolvi mexer numa caixa de fotografias velhas - fotografias do tempo em que eu era menino. Foi o tempo mais feliz da minha vida. Ca muitas vezes, 
cortei o p com cacos de vidro (eu andava sempre descalo), me espetei com espinhos e pregos, cortei a mo com faca e serrote, fiquei doente, tive dor de dente, 
me queimei (eu vivia correndo; entrei correndo na cozinha e dei uma topada com a cozinheira que carregava uma panela de gua fervente. A panela virou, a gua fervente 
entornou no meu brao e peito; doeu muito; fiquei todo empolado), martelei o dedo, fui picado por marimbondos e abelhas, pus a mo em taturanas, ca de rvores, 
senti muita dor. Mas as dores passavam logo. E a alegria voltava. Fui um menino sempre alegre. Tudo no mundo me encantava. Menino, eu no imaginava que, um dia, 
eu seria velho...

Pois esse dia chegou. Meu aniversrio me diz que agora sou velho. Ser velho tem vantagens. Uma delas  ser av. Se eu fosse jovem no seria av, no teria netas. 
E no estaria escrevendo agora pensando em vocs - porque vocs no existiriam. Houve um tempo em que vocs no existiam. Vocs s existem porque eu deixei de ser 
criana e fiquei velho. Vocs so, para mim, um motivo de alegria.

Acho divertido ver fotografias. Quando eu era menino, no sobrado do meu av - um sobrado colonial, parecido com aqueles sobrades de Ouro Preto e Paraty - havia 
um enorme armrio amarelo (vejam s, que idia; pintar um armrio de amarelo!) em cuja gaveta estavam guardados dois lbuns de fotografias. Eu gostava de ver aqueles 
lbuns. As capas eram artsticas. Uma, de madeira entalhada, a outra, de veludo vermelho e letras douradas. E havia linguetas rendilhadas de metal para fech-los. 
Dentro, fotografias de homens srios, de colarinho duro, gravata borboleta, bigodes engomados torcidos para cima. As mulheres, todas com birotes, tranas ou cachos 
e vestidos rendados at o pescoo, com camafeus pendurados. Ningum ria. Todo mundo era srio. Riso, para eles, era sinal de criancice. Adulto no ri. E no fotografavam 
cenrios. S mereciam estar no lbum os rostos empalhados das pessoas importantes. Mas o sobrado pegou fogo e as fotos daquelas pessoas srias viraram cinza e fumaa. 
Tudo o que  srio vira cinza e fumaa... O tempo  rio, o tempo  fogo: assim dizia um sbio muito antigo chamado Herclito.

Naquele tempo era complicado tirar um retrato. No havia essas cmeras inteligentes que hoje todo mundo tem e que tiram uma foto bastando, para isso, apertar um 
boto. Eram necessrios longos preparativos com equipamentos trambolhosos e explosivos. Mas as fotografias que estou vendo so de tempos mais modernos. Ainda no 
havia fotografias coloridas mas as pessoas j tinham permisso para sorrir e ser naturais. Numa dessas fotos eu estou nen de 4 meses, de bruos, sobre uma almofada. 
Dessa almofada eu me lembro... No sei porque, mas essa foto me d uma pitada de vergonha... Imaginem: eu j fui nen! Duas outras, eu deveria ter uns dois anos: 
numa, concentrado, olhando um livro. Na outra, segurando uma gaiola vazia. Depois de adulto voltei  casa onde nasci. Ainda est l, conservada e cuidada. Fotografei. 
E fotografei tambm o quarto onde nasci. Como vocs devem saber, naqueles tempos as crianas nasciam em casa, e quem fazia o parto era uma mulher prtica chamada 
parteira. L, naquele quarto, cmera fotogrfica na mo, eu pensei: "Foi aqui que entrei no mundo..." A, h um longo perodo sem fotografias. Foram os anos quando 
meu pai, seu av, ficou pobre. Fotografia custa dinheiro,  coisa de rico. Nos anos de pobreza a gente gasta o que  essencial: comida, roupa, remdio. Uma fotografia 
quer dizer: melhorou de vida. Melhoramos de vida. Mudamos para o Rio de Janeiro. E l est uma foto minha: 12 anos, cala curta, assentado numa mureta de pedra, 
na Praia Vermelha. Essa praia me traz muitas memrias gostosas. Era prxima da casa onde eu morava e se encontra numa baa que tem,  sua esquerda, o morro da Urca 
e o Po de Acar. Foi a que aprendi a nadar.

A, no meio das minhas fotos, trs outras, dos seus pais e sua tia. Tambm eles foram meninos. Numa delas o Srgio, seis anos, est empinando uma pipa. Na segunda 
o Marcos, dois anos, est soprando uma bolha de sabo. Na terceira a Raquel - um ano - est dormindo.

No dia do meu aniversrio os nmeros vo mudar, como mudam no rodmetro, aquele aparelhinho no painel do carro que marca a quilometragem. Est l "67" e a, de repente, 
o "7" d um pulo e o "8" aparece no seu lugar. Esse  um jeito de marcar o tempo, contando os nmeros.

Jeito bobo. Os nmeros no dizem nada. H um verso sagrado que diz: "Ensina-me a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos coraes sbios." Muita gente 
envelhece sem ficar sbio. O que  um sbio? Sbio no  quem sabe muito. Sbio  quem come a vida como se ela fosse um fruto saboroso. O sbio presta ateno nos 
prazeres e alegrias de cada momento. E o que d prazer e alegria no so coisas grandes, festas com bolo, bexigas e presentes. O que d alegria so coisas pequenas. 
Por exemplo: brincar com um cachorrinho. Balanar num balano. Andar na gua fria de um riachinho. Ver um ip florido. Ler um livro. Armar um quebra-cabeas. Ver 
fotografias antigas.

No quero presentes comprados. No preciso de nada. Um presente que vocs, minhas netas, e os meus filhos, me poderiam dar  simples: ler as coisas que eu escrevo. 
Cada coisa que eu escrevo - quero que cada uma delas seja gostosa como um morango vermelho... Escrevo para dar felicidade. Quero que vocs sejam felizes.


APERITIVOS

1.  aniversrio do RAFAEL, filho da Tereza e do Eurico. Ele ainda no havia nascido mas o seu nome j estava escolhido. No sei se seus pais sabiam o significado 
daquele nome. Mas, na vida, a gente sabe muitas coisas sem saber. Rafael: esse ser o nome dele, eles disseram. Rafael, segundo os poemas sagrados,  o nome de um 
dos sete arcanjos que intercedem pelos homens diante de Deus. E a maravilhosa misso de Rafael  a de "curar a terra que foi ferida pelos anjos maus." O seu nome 
significa "Deus cura". Assim so os filhos. Todos eles so anjos. E se prestarmos ateno ao que eles angelicamente dizem com seus brinquedos e seus risos,  certo 
que ficaremos curados dessa doena que se chama ser adulto. Os anjos-crianas nos fazem voltar a ser criana de novo. Pois o Rafael, filho da Tereza e do Eurico, 
anjo com cara de menino e sorriso brincalho, fez mais um aniversrio. Meu desejo: Que seja da alegria sempre um aprendiz!. Que no se apaguem velas! Que se acendam 
velas!

2. NCLEO EDUCACIONAL PO DA VIDA: O Centro Corsini vai inaugurar um projeto educacional dedicado a crianas e adolescentes vtimas diretas ou indiretas da AIDS. 
Com parceria da Editora Globo, ser um espao para atividades educativas, arte e lazer. Qualquer criana, vtima direta ou indireta da AIDS, pode participar do projeto. 
Dois pintores maravilhosos, amantes das crianas, estaro l, expondo seus quadros: Avelino Rodrigues e Egas Francisco. E haver venda de produtos artesanais. O 
lugar era um velho barraco industrial que foi totalmente transformado com projeto arquitetnico e paisagstico de Raquel Nopper Alves, Maura Bresil Palhares e Endija 
de Castilho Barnab, arquitetas competentes e de imaginao. VOC PODE AJUDAR! Livros novos e usados. Brinquedos. Coisas que possam ser usadas pelas crianas e pelos 
adolescentes. Dia 20 de setembro, das 10 s 12 horas. V l! Mude seu programa. Pea licena ao chefe! Melhor: Leve o seu chefe! Eu mudei o meu programa. Vou estar 
l. Nos encontraremos! Rua Luis Otvio 2869, ao lado do Centro Corsini. Informaes: 3256-6344

(Correio Popular, Caderno C, 09/09/2001.) 



SOBRE DEUS

Era uma vez um velhinho simptico que morava numa casa cercada de jardins. O velhinho amava os seus jardins e cuidava deles pessoalmente. Na verdade fora ele que 
pessoalmente o plantara - flores de todos os tipos, rvores frutferas das mais variadas espcies, fontes, cachoeiras, lagos cheios de peixes, patos, gansos, garas. 
Os pssaros amavam o jardim, faziam seus ninhos em suas rvores e comiam dos seus frutos. As borboletas e abelhas iam de flor em flor, enchendo o espao com as suas 
danas. To bom era o velhinho que o seu jardim era aberto a todos: crianas, velhos, namorados, adultos cansados. Todos podiam comer de suas frutas e nadar nos 
seus lagos de guas cristalinas. O jardim do velhinho era um verdadeiro paraso, um lugar de felicidade. O velhinho amava a todas as criaturas e havia sempre um 
sorriso manso no seu rosto. Prestando-se um pouco de ateno era possvel ver que havia profundas cicatrizes nas mos e nas pernas do velhinho. Contava-se que, certa 
vez, vendo uma criana sendo atacada por um co feroz, o velhinho, para salvar a criana, lutou com o co e foi nessa luta que ele ganhou suas cicatrizes. Os fundos 
do terreno da casa do velhinho davam para um bosque misterioso que se transformava numa mata. Era diferente do jardim, porque a mata, no tocada pelas mos do velhinho, 
crescera selvagem como crescem todas as matas. O velhinho achava as matas selvagens to belas quanto os jardins. Quando o sol se punha e a noite descia, o velhinho 
tinha um hbito que a todos intrigava: ele se embrenhava pela mata e desaparecia, s voltando para o seu jardim quando o sol nascia. Ningum sabia direito o que 
ele fazia na mata e estranhos rumores comearam a circular. Os seres humanos tm sempre uma tendncia para imaginar coisas sinistras. Comearam, ento, a espalhar 
o boato de que o velhinho, quando a noite caa, se transformava num ser monstruoso, parecido com lobisomem, e que na floresta existia uma caverna profunda onde o 
velhinho mantinha, acorrentadas, pessoas de quem ele no gostava, e que o seu prazer era tortur-las com lminas afiadas e ferros em brasa. L - assim corria o boato 
- o velhinho babava de prazer vendo o sofrimento dos seus prisioneiros. 

Outros diziam, ao contrrio, que no era nada disto. No havia nem caverna, nem prisioneiros e nem torturas. Essas coisas existiam mesmo era s na imaginao de 
pessoas malvadas que inventavam os boatos. O que acontecia era que o velhinho era um mstico que amava as florestas e ele entrava no seu escuro para ficar em silncio, 
em comunho com o mistrio do universo. Quem era o velhinho, na realidade? Voc decide. Sua deciso ser um reflexo do seu corao. 

SOBRE DICIONRIOS E NECROTRIOS
Essa crnica  dedicada aos jovens que tm de aprender as leis da gramtica. E eu o fao na esperana da ressurreio das mortas. Sim, das mortas, no feminino, como 
ficar claro.
Se o conhecimento cientfico de anatomia fosse condio para se fazer amor, os professores de anatomia seriam amantes insuperveis. Se o conhecimento acadmico da 
gramtica fosse condio para se fazer literatura, os gramticos seria escritores insuperveis. Mas essa no  a verdade. No me consta que o Kama-Sutra tenha sido 
escrito por um professor de anatomia e no conheo gramtico que tenha feito literatura. Na verdade, os gramticos e os escritores so inimigos irreconciliveis. 
Gramtica se faz com palavras mortas. Literatura se faz com palavras vivas.
Eu sei escrever. Mas confesso, sei pouqussimo de gramtica. A minha ignorncia da gramtica  de tal ordem que freqentemente ( no sei a razo desse trema sobre 
o "u": nenhuma pessoa que fale portugus iria ler "frekentemente") erro na simples grafia das palavras e ignoro as regras de acentuao. Os cultores da gramtica 
se horrorizam e, perturbados pela minha ignorncia e movidos pelo mais puro sentimento de amor tratam de me corrigir, certamente para evitar que eu passe vergonha 
por ser assim, to despudoradamente, ignorante dos saberes gramaticais. Houve mesmo um senhor que, com pacincia teologal, me enviava longas missivas em que listava 
todos os meus erros, oferecendo-me detalhada explicao das regras que eu estava desobedecendo. A sua persistncia me assombrava. Mas o que mais me assombrava era 
o fato de que nunca, jamais, ele disse qualquer coisa sobre o contedo mesmo das minhas crnicas. O seu amor pela gramtica o tornava insensvel  literatura. Pensei 
mesmo em escrever uma crnica sobre o assunto, que seria construda em torno de uma estorieta que seria mais ou menos assim: eu fazia uma comidinha e convidava alguns 
amigos. Todos eles comiam e diziam que a comida era boa. Isso me dava grande alegria. Com uma exceo: um dos comedores, intruso que no fora convidado, limpava 
o prato sem dizer palavra sobre o gosto da minha comida, mas reclamava que ela havia sido servida num prato lascado. A obsesso com as regras da gramtica pode nos 
tornar insensveis ao gosto das palavras. 
O que sei sobre a lngua, no aprendi nos compndios de gramtica. A lngua , para mim, essencialmente, uma experincia sonora. Msica. Desrespeito, sabendo que 
estou desrespeitando o que dizem os cientistas da lngua. Invoco o Manoel de Barros: "Uma espcie de canto me ocasiona. Respeito as oralidades. Eu escrevo o rumor 
das palavras. No sou sandeu de gramticas" ( Sandeu=idiota, pateta). Escrevo "Me parece" quando a regra  que no se deve comear uma frase com pronome oblquo. 
Jamais respeito "tmeses" - vulgarmente chamadas "mesclises": contar-vo-lo-ei. Tmeses ( dei pr falar difcil) me parecem um homem barrigudo, vestido de fraque alugado, 
com gravata borboleta, em casamento chique: chique e ridculo. De agora em diante, quando me perguntarem por que escrevi ao arrepio das leis ditadas pelos gramticos, 
responderei: "Fi-lo porque qui-lo".
"Histria no quer se tornar histria": essa frase no  falsa nem verdadeira. Ela simplesmente no tem sentido. Essa frase no me faz pensar nada. Mas seria assim 
que a frase filosfica com que Guimares Rosa inica o "Tutamia" apareceria, depois de corrigida pelo revisor, obediente  autoridade do Aurlio. O que o Guimares 
Rosa escreveu  "Estria no quer se tornar histria". J briguei muito com revisores por causa dessa palavra "estria". O meu Aurlio, velho, dizia que ela existia. 
Mas o Aurlio novo diz que ela no existe. No verbete "estria" est escrito: "Ver 'histria'. Recomenda-se apenas a grafia histria, tanto no sentido de cincia 
histrica quanto no de narrativa de fico, conto popular e demais acepes." "Estria" no existe; s existe "histria".  o mesmo que dizer que "banana" no existe 
e que toda vez que se quiser dizer "banana" h de se dizer "laranja." Parece que os gramticos, vivendo no mundo das palavras, se esquecem da existncia das coisas. 
Da mesma forma como banana e laranja so coisas diferentes com nomes diferentes, estria e histria so coisas diferentes que exigem nomes diferentes. "Recomenda-se": 
"quem" recomenda? O sujeito est indeterminado. Foram alguns gramticos que, reunidos, tomaram a deciso de assassinar "estria" e depois se esconderam atrs do 
sujeito indeterminado. Mas Guimares Rosa no perdoa os assassinos e de dentro da "Tutameia" continua a denunci-los: "Estria no quer se tornar histria". Gramticos 
no levam a srio o que dizem os escritores. Com sua deciso querem cortar as asas do Guimares e as minhas. "Estria" e "histria" so mais diferentes que bananas 
e laranjas. "Histria"  entidade do mundo de fora, o que aconteceu no tempo e no acontece nunca mais. "Estria"  entidade do mundo de dentro, no aconteceu no 
tempo porque acontece sempre. "Histria no quer se tornar histria": esse "non-sense"  uma contribuio dos gramticos  literatura. 
Revendo as correes que uma revisora fizera num texto meu, segundo o Aurlio, encontrei essa frase divertida: "... e os anus fazendo os barulhos que lhe so caractersticos..." 
Que  que voc conclui? Que estou escrevendo sobre gases ftidos barulhentos expelidos pelo orifcio terminal do intestino. No  nada disso. Falo sobre os barulhos 
que fazem as aves "ans" que, segundo o Aurlio, no tm assento. O palavra que tem acento, talvez por estar localizada no assento,  nus"... Por via das dvidas 
ponho assento agudo no "u" dos ans. No quero que pios de ans sejam confundidos com pums.
E agora, meu conselho aos jovens: se vocs quiserem passar no vestibular, estudem gramtica, empreguem mesclises, escrevam "fi-lo porque qui-lo" e no leiam literatura. 
Mas se vocs quiserem sentir o delrio da leitura, se quiserem fazer amor com as palavras e experimentar os orgasmos da lingua, deixem as leis da gramtica de lado 
e aprendam a msica das palavras. Literatura  msica. Leiam o Manoel de Barros. Os livros dele no existiriam se tivessem de passar por revisores armados de Aurlio. 
Haver ttulo mais doido que "O Livro das Ignornas"? O revisor corrigiria para "O Livro das Ignorncias"... 
A poesia comea com a transgresso. Dito pelo Manoel de Barros: "Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras no era a beleza das frases, mas a doena 
delas. Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito. Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. -Gostar de fazer defeitos na frase  muito 
saudvel, o Padre disse. Ele fez um limpamento em meus receios. O Padre falou ainda: Manoel, isso no  doena, pode muito que voc carregue para o resto da vida 
um certo gosto por nadas... E riu. Voc no  bugre? - ele continuou. Que sim, respondi. Veja que bugre s pega por desvios, no anda em estradas - Pois  nos desvios 
que encontra as melhores surpresas e os araticuns maduros. H que apenas saber errar bem o seu idioma. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramtica." 
E mais: "A terapia literria consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos." Literatura  feito a casa. Casa arrumadinha 
emburrece,  mesmice, cada coisa em seu lugar, a gente fica do mesmo jeito sempre. Casa boa  cheia de surpresas. O gramtico est para a linguagem da mesma forma 
como a dona da casa est para a casa arrumada. Mais sobre a terapia literria: "Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras. Sou formado em desencontros. A sensatez 
me absurda. O delrios verbais me terapeutam."
Inventaram um crime atroz, fazer resumo das obras literrias que vo cair no vestibular. E at se ganha dinheiro com livros tais. Ah! Queria mesmo  ver o resumo 
que fariam das escrituras do Manoel de Barros...
Como disse: gramtica  necrotrio, sala de anatomia, as palavras mortas sob o bisturi da anlise. Literatura so as palavras vivas, fazendo o que elas bem desejam, 
 revelia de quem escreve. Por isso disse que eu esperava a ressurreio das mortas, no feminino. As mortas so as palavras, em estado de dicionrio. Mas a eu pergunto: 
Quem sentir vontade de fazer amor fazendo a necrpsia da amada morta?

SOBRE MOLUSCOS E HOMENS 
Piaget, antes de se dedicar aos estudos da psicologia da aprendizagem, fazia pesquisas sobre os moluscos dos lagos da Sua. Os moluscos so animais fascinantes. 
Dotados de corpos moles, seriam petiscos deliciosos para os seres vorazes que habitam as profundezas das guas e h muito teriam desaparecido se no fossem dotados 
de uma inteligncia extraordinria. Sua inteligncia se revela no artifcio que inventaram para no se tornarem comida dos gulosos: constrem conchas duras - e lindas! 
- que os protegem da fome dos predadores. Ignoro detalhes da biografia de Piaget e no sei o que o levou a abandonar seu interesse pelos moluscos e a se voltar para 
a psicologia da aprendizagem dos humanos. No sabendo, tive de imaginar. E foi imaginando que pensei que Piaget no mudou o seu foco de interesse. Continuou interessado 
nos moluscos. S que passou a concentrar sua ateno num tipo especfico de molusco chamado "homem". Se  que voc no sabe, digo-lhe que muito nos parecemos com 
eles: ns, homens, somos animais de corpo mole, indefesos, soltos numa natureza cheia de predadores. Comparados com os outros animais nossos corpos so totalmente 
inadequados  luta pela vida. Vejam os animais. Eles dispem apenas do seu corpo para viver. E o seu corpo lhes basta. Seus corpos so ferramentas maravilhosas: 
cavam, voam, correm, orientam-se, saltam, cortam, mordem, rasgam, tecem, constrem, nadam, disfaram-se, comem, reproduzem-se. Ns, se abandonados na natureza apenas 
com o nosso corpo, teramos vida muito curta. A natureza nos pregou uma pea: deixou-nos, como herana, um corpo molengo e inadequado que, sozinho, no  capaz 
de resolver os problemas vitais que temos de enfrentar. Mas, como diz o ditado, " a necessidade que faz o sapo pular". E digo:  a necessidade que faz o homem pensar. 
Da nossa fraqueza surgiu a nossa fora, o pensamento. Parece-me, ento, que Piaget, provocado pelos moluscos, concluiu que o conhecimento  a concha que construmos 
a fim de sobreviver. O desenvolvimento do pensamento, mais que um simples processo lgico, desenvolve-se em resposta a desafios vitais. Sem o desafio da vida o pensamento 
fica a dormir... O pensamento se desenvolve como ferramenta para construirmos as conchas que a natureza no nos deu. 

O corpo aprende para viver.  isso que d sentido ao conhecimento. O que se aprende so ferramentas, possibilidades de poder. O corpo no aprende por aprender. Aprender 
por aprender  estupidez. Somente os idiotas aprendem coisas para as quais eles no tm uso. Somente os idiotas armazenam na sua memria ferramentas para as quais 
no tm uso.  o desafio vital que excita o pensamento. E nisso o pensamento se parece com o pnis. No  por acidente que os escritos bblicos do ao ato sexual 
o nome de "conhecimento"... Sem excitao a inteligncia permanece pendente, flcida, intil, boba, impotente. Alguns h que, diante dessa inteligncia flcida, 
rotulam o aluno de "burrinho"... No, ele no  burrinho. Ele  inteligente. E sua inteligncia se revela precisamente no ato de recusar-se a ficar excitada por 
algo que no  vital. Ao contrrio, quando o objeto a excita, a inteligncia se ergue, desejosa de penetrar no objeto que ela deseja possuir. 

Os ditos "programas" escolares se baseiam no pressuposto de que os conhecimentos podem ser aprendidos numa ordem lgica predeterminada. Ou seja: ignoram que a aprendizagem 
s acontece em resposta aos desafios vitais que esto acontecendo no momento (insisto nessa expresso "no momento" - a vida s acontece "no momento") da vida do 
estudante. Isso explicaria o fracasso das nossas escolas. Explicaria tambm o sofrimento dos alunos. Explicaria a sua justa recusa em aprender. Explicaria sua alegria 
ao saber que a professora ficou doente e vai faltar... Recordo a denncia de Bruno Bettelheim contra a escola: "Fui forado (!) a estudar o que os professores haviam 
decidido o que eu deveria aprender - e aprender  sua maneira..." No h pedagogia ou didtica que seja capaz de dar vida a um conhecimento morto. Somente os necrfilos 
se excitam diante de cadveres. 

Acontece, ento, o esquecimento: o supostamente aprendido  esquecido. No por memria fraca. Esquecido porque a memria  inteligente. A memria no carrega conhecimentos 
que no fazem sentido e no podem ser usados. Ela funciona como um escorredor de macarro. Um escorredor de macarro tem a funo de deixar passar o intil e guardar 
o til e prazeroso. Se foi esquecido  porque no fazia sentido. Por isso acho inteis os exames oficiais (inclusive os vestibulares) que se fazem para avaliar a 
qualidade do ensino. Eles produzem resultados mentirosos por serem realizados no momento em que a gua ainda no escorreu. Eles s diriam a verdade se fossem feitos 
muito tempo depois, depois do esquecimento haver feito o seu trabalho. O aprendido  aquilo que fica depois que tudo foi esquecido... Vestibulares: tanto esforo, 
tanto sofrimento, tanto dinheiro, tanta violncia  inteligncia... O que sobra no escorredor de macarro, depois de transcorridos dois meses? O que restou no seu 
escorredor de macarro de tudo o que voc teve de aprender? Duvido que os professores de cursinhos passem nos vestibulares. Duvido que um professor especialista 
em portugus se saia bem em matemtica, fsica, qumica e biologia... Eles tambm esqueceram. Duvido que os professores universitrios passem nos vestibulares. Eu 
no passaria. Ento, por que essa violncia que se faz sobre os estudantes? 

Ah! Piaget! Que fizeram com o seu saber? Que fizeram com a sua sabedoria?  preciso que os educadores voltem a aprender com os moluscos... 
(Folha de S. Paulo, Tendncias e Debates, 17/02/2002)

SOBRE MOLUSCOS, CONCHAS E BELEZA...

Voltamos ao mundo dos moluscos que fez Piaget pensar sobre os homens... Deles a primeira coisa que vi foram as conchas. Eu vi, simplesmente, sem nada saber sobre 
suas origens. Ignorava que existissem moluscos. No sabia que elas, as conchas, tinham sido feitas para serem casas daqueles animais de corpo mole que, sem elas, 
seriam devorados pelos predadores. Meus olhos apenas viram. Viram e se espantaram. O espanto: os gregos sabiam que  no espanto que o pensamento comea. O espanto 
 quando um objeto se coloca diante de ns como um enigma a ser decifrado: "Decifra-me ou te devoro!" Conchas so objetos espantosos. Enigmas. As conchas me fizeram 
pensar. 

Foi um espanto esttico. Foi a beleza que exigiu que eu a decifrasse. Conchas so objetos assombrosos, construdos segundo rigorosas relaes matemticas.  possvel 
transformar conchas em equaes. Os moluscos no eram apenas engenheiros competentes na construo de casas. Eram tambm artistas, arquitetos. Suas casas tinham 
de ser belas. Ser que a natureza tem uma alma de artista? Coisa estranha essa, com certeza alucinao de poeta, imaginar que a natureza seja uma casa onde mora 
um artista! No para Bachelard, que no se envergonhava em falar sobre "imaginao da matria". Haver uma analogia entre a natureza e o esprito humano? Sero os 
homens apenas a natureza tomando conscincia de si? Antes que a Piet existisse como escultura existiu como realidade virtual na alma de Michelangelo. Antes que 
as conchas existissem como objetos assombrosos elas existem como realidades virtuais na "alma" dos moluscos... 

O espanto ante as conchas me faz pensar. Pensei que a vida no produz apenas objetos teis, ferramentas adequadas  sobrevivncia. A vida no deseja apenas sobreviver. 
Ela no se satisfaz com a utilidade. Ela constri os seus objetos segundo as normas da beleza. A vida deseja alegria. Assim acontece conosco: precisamos sobreviver 
e para isso cultivamos repolhos, nabos e batatas e estabelecemos a cincia do cultivo de repolhos, nabos e batatas - cincia que se transmite de gerao em gerao, 
nas escolas. E esse  um dos sentidos da cincia: receitas para a construo de ferramentas para a sobrevivncia. Mas, por razes que se encontram alm das razes 
cientficas, talvez por obra do artista invisvel que mora em ns, gastamos nosso tempo e nossas foras na produo de coisas inteis, tais como violetas, orqudeas 
e rosas, coisas que no servem para nada e s do trabalho... Nosso corpo no se alimenta s de po. Ele tem fome de beleza. Creio que Jesus Cristo no se importaria 
e at mesmo sorriria se eu fizesse uma parfrase da sua resposta ao Diabo, que o tentava com a soluo prtica: "No s de repolhos, nabos e batatas viver o homem, 
mas tambm de violetas, orqudeas e rosas..." 

Uma menina perguntou a Mrio Quintana se era verdade que os machados pblicos iriam cortar um maravilhoso p de figueira que havia numa praa. Isso o levou de volta 
aos seus tempos de menino - no quintal de sua casa havia uma paineira enorme que, quando florescia, era uma glria. At que um dia foi posta abaixo, simplesmente 
"porque prejudicava o desenvolvimento das rvores frutferas. Ora, as rvores frutferas! Bem sabes, meninazinha, que os nossos olhos tambm precisam de alimento..." 

Penso que, desde que o objetivo da educao  permitir que vivamos melhor, nossas escolas deveriam tomar a natureza como sua mestra. Assim, j que tanto falam em 
Piaget, imaginei que poderiam adotar as conchas como smbolos - afinal de contas, foi no estudo dos moluscos que o seu pensamento sobre educao se iniciou... - 
posto que nelas se encontra, em resumo, toda uma filosofia: foi o espanto diante das conchas que me fez filosofar... E quando, perguntados por pais e alunos sobre 
as razes de serem as conchas os smbolos da escola, os professores teriam uma ocasio para lhes dar a primeira aula de filosofia da educao: "O objetivo da educao 
 ensinar as novas geraes a construir casas.  preciso que as casas sejam slidas, por causa da sobrevivncia. Para isso as escolas ensinam a cincia. Mas no 
basta que nossas casas sejam slidas.  preciso que sejam belas. A vida deseja alegria. Para isso as escolas ensinam as artes.  preciso educar os sentidos." 

Hume, ao final do seu livro Investigao sobre o entendimento humano, prope duas perguntas, somente duas, que, se feitas, produziriam uma assepsia geral do conhecimento. 
De forma semelhante, e inspirado pela sabedoria dos moluscos e suas conchas, quero propor duas perguntas a serem feitas a tudo aquilo que se ensina nas escolas. 
Primeira: isso que estou ensinando,  uma ferramenta? Tem um uso prtico? Aumenta o poder do meu aluno sobre o mundo que o cerca? De que forma ele pode usar isso 
que estou ensinando como ferramenta para construir a sua concha, a sua "casa"? Segunda: isso que estou ensinando contribui para que o meu aluno se torne mais sensvel 
 beleza? Educa a sua sensibilidade? Aumenta suas possibilidades de alegria e espanto? Concluo com as palavras de Hume: se a resposta for negativa, ento, "que seja 
lanado ao fogo" - porque nada tem a ver com a sabedoria da vida. No passa de tolice e perda de tempo... 

(Folha de S. Paulo, maro/2002) 


SOBRE O CAPITALISMO E JESUS

Um dos meus leitores ficou bravo comigo por coisas que disse sobre o capitalismo e Jesus Cristo. A culpa deve ter sido minha. Por vezes eu no me explico bem e o 
resultado  a confuso. A falta de clareza faz com que alguns leitores, a partir do que escrevo, entendam coisas que no estavam na minha cabea ao escrever. Vou 
tentar ser mais claro.
Eu disse que o capitalismo  um jogo no qual no h lugar para a bondade. O meu leitor ficou bravo porque ele deve conhecer muitos capitalistas que so boas pessoas. 
Eu tambm conheo vrios. Acontece que o jogo econmico chamado capitalismo em tudo se parece com outros jogos, como, por exemplo, o xadrez. Um jogador de xadrez, 
no ato de jogar xadrez, tem de se esquecer de tudo o mais que no seja xadrez. Tem de se esquecer da namorada, da me doente, de Deus, de amor ao prximo, do seu 
amor por flores e Mozart. No momento em que joga xadrez ele  apenas uma mquina que joga xadrez. Tanto assim que tem havido partidas de xadrez entre os grandes 
mestres e computadores. Computadores, como se sabe, no tm sentimentos. Computadores que jogam xadrez so mquinas de jogar xadrez.
O capitalismo  tambm um jogo com regras precisas. Se no jogo de xadrez o objetivo  o xeque-mate sobre o adversrio, no jogo do capitalismo o objetivo  o lucro. 
Imagine que dois homens vo ao teatro e compram ingressos para um concerto. Na hora do concerto os dois se dirigem ao teatro. Um deles pega o seu ingresso, entrega-o 
ao porteiro e entra. Ele comprou o ingresso porque desejava ter o prazer da msica. O outro, ao contrrio, fica perto da bilheteria. Ele sabe que a lotao est 
esgotada e que haver retardatrios amantes de msica que no podero entrar. Mas eles querem entrar. Chegam os retardatrios. Os ingressos se esgotaram! Nesse momento 
o dito homem mostra o seu ingresso e diz que poder vend-lo... pelo dobro do preo. Na verdade, ele no gosta de msica. Ele no comprou o ingresso para assistir 
ao concerto. Ele comprou o ingresso para vend-lo pelo dobro do preo. Assim, depois de vend-lo, ele tem o dobro do dinheiro que tinha antes. O homem que comprou 
o ingresso e assistiu ao concerto trocou o seu dinheiro por prazer. Ficou sem dinheiro. No fez o jogo do capitalismo. O segundo trocou o seu dinheiro por mais dinheiro. 
Fez o jogo do capitalismo. Capitalismo  um jogo econmico em que o dinheiro  usado para se ter mais dinheiro. A isso se d o nome de lucro.
Usei o exemplo do concerto. Mas poderia ter sido qualquer outra coisa: uma casa, um carro, uma bicicleta, livros, CDs, flores, salsichas, pes, perfumes, papel higinico 
etc. As empresas que fabricam esses produtos o fazem para ter um lucro, isto , para ganhar mais que aquilo que investiram. Se, por acaso, o produto das vendas  
menor que o dinheiro investido, elas tm prejuzo. Se o prejuzo se acumula elas ficam sem dinheiro. Ficando sem dinheiro vo  falncia. Isto : esto fora do jogo.
O lugar onde esse jogo  jogado com mais fria so as bolsas de valores. Bolsas de valores so lugares onde se vende e se compra participao em empresas econmicas. 
Ao comprar aes da Petrobras eu fico participante dos lucros e prejuzos da Petrobras. Se a empresa for bem sucedida, minhas aes valorizam. Isto : eu ganho mais 
dinheiro com o dinheiro que investi. Exatamente igual ao que aconteceu com o homem que vendeu o seu ingresso para o concerto...
Imaginemos agora que voc tem R$ 50.000,00. No quer deix-los no banco por causa da inflao. A bolsa de valores oferece maiores possibilidades de lucro. A, voc 
resolve comprar aes. De que empresa? So tantas! Olhe aquela: Lar das Velhinhas Desamparadas. Ah! Como eu amo as velhinhas desamparadas! E o Lar das Velhinhas 
Desamparadas comercializa o que elas fazem, lindas toalhinhas de croch. As velhinhas ficariam to felizes se vendessem suas toalhinhas de croch! Mas h tambm 
as aes de uma fbrica de armas. Cruz credo! Esconjuro. Sou pacifista. No quero ter aes de uma fbrica de armas. Nesse momento um capitalista que mora dentro 
de voc diz: "Preste ateno. As aes do Lar das Velhinhas Desamparadas esto em baixa e provavelmente vo continuar a cair, porque no h ningum interessado em 
comprar toalhinhas de croch. Mas as aes da fbrica de armas esto em alta porque todo mundo quer comprar armas." Num relance voc percebe: se voc for seguir 
o impulso da sua bondade voc vai perder os R$ 50.000,00. Mas se voc seguir a lgica do jogo e comprar aes da fbrica de armas  possvel que voc fique rico. 
A voc compra as aes da fbrica de armas. Mas faz uma promessa: "Se eu ganhar bastante dinheiro vou fazer uma contribuio para o Lar das Velhinhas Desamparadas..."
Sim, h muito lugar para atos generosos na sociedade em que vivemos. Mas essa generosidade acontece fora do jogo. O jogo do capitalismo, exemplificado na bolsa, 
no tem lugar para generosidade. O que funciona  a fria lgica do lucro que leva um cidado pacifista a comprar aes de uma fbrica de armas. Lembro-me de uma 
conferncia de um executivo nos Estados Unidos. As fbricas de sua empresa soltavam uma fumaa que polua o ambiente e causava danos  sade das pessoas que moravam 
na cidade. Ele declarou que o seu desejo era comprar filtros para diminuir a poluio. Mas se a sua empresa investisse dinheiro nos equipamentos anti-poluio os 
lucros seriam menores e os acionistas trocariam a sua empresa por outras que dessem mais lucros, criando problemas financeiros para sua prpria empresa. Sua empresa, 
a despeito da sua bondade, continuou a poluir.
Uma boa dica para se entender o capitalismo  ler um dos divertidssimos livros da srie Asterix: Obelix & Cia.  de rachar de rir.
A outra coisa que ofendeu o meu leitor foi eu ter afirmado que Jesus "no tinha o menor interesse na poltica".  preciso reconhecer que a vida de todos ns acontece 
em meio s teias da poltica. A vida de Jesus, por exemplo, comea com uma perseguio movida pelo rei Herodes que fora a sagrada famlia a emigrar para o Egito 
e termina com a punio poltica da crucificao permitida por Pilatos, representante de Roma.
Jesus tinha uma viso de um mundo feliz, viso que lhe veio dos profetas: o leo comendo capim com o boi, as espadas sendo transformadas em arados, as crianas brincando 
com as serpentes, os famintos tendo o que comer, uma sociedade de paz, amante das crianas, onde no se faria mal a ningum. Lendo os textos bblicos alguns concluram 
que Jesus estava propondo aes polticas para se chegar a essa sociedade. Poltica  o conjunto de aes para construir um futuro. E todos ns estamos envolvidos 
nisso. Mas a cabea e o corao de Jesus eram diferentes. O meu leitor bravo disse: "Todo mundo sabe..." Pois o que Jesus pregava no era o que todo mundo sabe, 
mas precisamente o que todo mundo no sabe. Jesus pensava ao contrrio. Essa  a razo por que o apstolo Paulo disse que a sabedoria de Deus  loucura para os homens. 
Jesus no propunha aes polticas para se chegar ao mundo dos seus sonhos. O mundo dos seus sonhos no era algo a ser construdo pelas aes dos homens na sua caminhada 
para o futuro. Por isso ele proclamava: "O Reino de Deus  chegado..." Chegava... vindo do futuro! Que coisa mais louca! Um mundo que vem do futuro! No se tratava 
de construir o Reino. Tratava-se de ser possudo por sua beleza. Da mesma forma como se  possudo pela beleza de uma melodia! Ou possudo pela felicidade da pessoa 
amada que vai chegar! A melodia no sou eu que fao. Eu s a posso ouvir, sendo tocada, ao longe... Quanto  pessoa amada, de onde estou nada posso fazer para apressar 
a sua chegada. S posso esperar. Da a importncia da esperana! E, enquanto espero, sou possudo pela alegria. A esperana d alegria, a esperana  embriagante! 
Rio, dano, canto, preparo a comida, preparo o quarto... Da o significado do amor. Ter esperana  viver sob o encanto de uma melodia que nos vem do futuro. Amar 
 danar essa melodia no presente. As experincias de amor e bondade, to centrais nas palavras de Jesus, no eram atos polticos para produzir o futuro. Eram antes 
exploses de futuro dentro dos homens e mulheres possudos por ele.
Pode ser que, mesmo explicando, a discordncia permanea. No tem importncia. O que importa  que a discordncia no se transforme em acidez. Uma coisa ruim  rejeitar 
uma idia logo de sada, por no ser igual  idia que se tem sobre o assunto. Se procedermos assim, ficaremos sempre do mesmo jeito. As idias iguais no nos fazem 
crescer. As idias diferentes, ao contrrio, sacodem a mesmice da nossa vida interior e nos fazem pensar. E quando isso acontece a gente v coisas que no via antes...
SOBRE SIMPLICIDADE E SABEDORIA

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessrio que 
eu fosse velho. 

Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens so aves que voam pela manh: seus vos so flechas em todas as direes. Seus olhos 
esto fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes d descanso. Esto sempre prontos a de novo voar. Seu mundo  o mundo da multiplicidade. Eles 
a amam porque, nas suas cabeas, a multiplicidade  um espao de liberdade. Com os adultos acontece o contrrio. Para eles a multiplicidade  um feitio que os aprisionou, 
uma arapuca na qual caram. Eles a odeiam, mas no sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade 
tem o nome de dever. Os adultos so pssaros presos nas gaiolas do dever. A cada manh 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, 
lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se no forem obedecidas haver punies. 

No crepsculo, quando a noite se aproxima, o vo dos pssaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vo pela manh. J observaram o vo das pombas ao fim do 
dia? Elas voam numa nica direo. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepsculo, so simples. Simplicidade  isso: quando o corao busca uma coisa s. 

Jesus contava parbolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possua muitas jias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu 
uma jia, nica, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez ento a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a nica. 



Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela seduo das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, 
"as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar." O caminho da multiplicidade  um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada  um ponto de partida. Cada reencontro 
 uma despedida.  um caminho onde no existe casa ou ninho. A ltima das tentaes com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentao da multiplicidade: "Levou-o 
ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glria e lhe disse: 'Tudo isso te darei se prostrado me adorares.'" Mas o que a 
multiplicidade faz  estilhaar o corao. O corao que persegue o "muitos"  um corao fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: "De que vale ganhar o mundo 
inteiro e arruinar a vida?" (Mateus 16.26). 

O caminho da cincia e dos saberes  o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: "No h limite para fazer livros, e o muito estudar  enfado da carne" 
(Eclesiastes 12.12). No h fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes  um mundo de somas sem fim.  um caminho sem descanso para 
a alma. No h saber diante do qual o corao possa dizer: "Cheguei, finalmente, ao lar". Saberes no so lar. So, na melhor das hipteses, tijolos para se construir 
uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem  multiplicidade. A casa pertence  simplicidade: uma nica coisa. 

Diz o Tao-Te-Ching: "Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa." 

Diz T. S. Eliot: "Onde est a sabedoria que perdemos no conhecimento?" 

Diz Manoel de Barros: "Quem acumula muita informao perde o condo de adivinhar. Sbio  o que adivinha." 

Sabedoria  a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: "A palavra grega que designa o sbio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, 
sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. "A sabedoria , assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, 
"precipita-se sobre tudo o que  possvel saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preo." Mas o sbio est  procura das "coisas dignas de serem conhecidas". 
Imagine um buf: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. 
O sbio, ao contrrio, para e pergunta ao seu corpo: "De toda essa multiplicidade, qual  o prato que vai lhe dar prazer e alegria?" E assim, depois de meditar, 
escolhe um... 

A sabedoria  a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. No s ns. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade. 

O Vincius escreveu um lindo poema com o ttulo de "Resta..." J velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trs e v o que restou: o que valeu 
a pena. "Resta esse corao queimando como um crio numa catedral em runas..." "Resta essa capacidade de ternura..." "Resta esse antigo respeito pela noite..." 
"Resta essa vontade de chorar diante da beleza...". Vincius vai, assim, contando as vivncias que lhe deram alegria. Foram elas que restaram. 

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade  o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as 
experincias que deram alegria. O que valeu a pena est destinado  eternidade. A saudade  o rosto da eternidade refletido no rio do tempo.  para isso que necessitamos 
dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: "Lana o teu po sobre as guas porque depois de muitos dias o encontrars..." Oramos para que aquilo que se perdeu 
no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus no se incomodaria se ns o chamssemos de Eterno Retorno: pois  s isso que pedimos dele, que as coisas 
da saudade retornem. 

Ando pelas cavernas da minha memria. H muitas coisas maravilhosas: cenrios, lugares, alguns paradisacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram 
o tempo da minha vida, encontros com pessoas notveis. Mas essas memrias, a despeito do seu tamanho, no me fazem nada. No sinto vontade de chorar. No sinto vontade 
de voltar. 

A eu consulto o meu bolso da saudade. L se encontram pedaos do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. 
So coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insnia e medo num quarto escuro, 
e do meio da escurido a voz de um filho que diz: "Papai, eu gosto muito de voc!"; filha brincando com uma cachorrinha que j morreu (chorei muito por causa dela, 
a Flora); menino andando  cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai 
sobre as plantas e dizendo: "Veja como esto agradecidas!" Amigos. Memrias de poemas, de estrias, de msicas. 

Diz Guimares Rosa que "felicidade s em raros momentos de distrao..." Certo. Ela vem quando no se espera, em lugares que no se imagina. Dito por Jesus: " como 
o vento: sopra onde quer, no sabes donde vem nem para onde vai..." Sabedoria  a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas s dominam essa arte aqueles 
que tm a graa da simplicidade. Porque a alegria s mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)


"... SU CADVER ESTAVA ILENO DE MUNDO"
Eu era jovem e andava por um caminho plano e seguro. Todos os seus detalhes me haviam sido ensinados. Ele estava todo sinalizado com tabuletas para evitar que algum 
se perdesse. Em algumas tabuletas se liam "certezas". Em outras, "proibies". Certezas e proibies tm importantes funes psicolgicas. As certezas nos dizem 
que j encontramos a verdade. Quem j encontrou a verdade deixa de procurar. As certezas, ento, embalam a inteligncia que se pe a dormir.  tranqilizante saber-se 
possuidor da verdade. Eu vivia tranqilo. As proibies, por sua vez, nos dizem o que no se pode fazer. Sabendo-se o que no se pode fazer somos libertados da terrvel 
necessidade de tomar decises. As decises so necessrias quando nos defrontamos com uma encruzilhada, bifurcao, dois caminhos  nossa frente. Posso tomar o caminho 
da direita, posso tomar o caminho da esquerda. Mas no h nenhuma tabuleta indicando qual deles conduz ao fim desejado. Toda encruzilhada nos coloca numa situao 
de incerteza. E a incerteza produz ansiedade:  preciso decidir, sem saber ao certo... Mas se existe uma tabuleta num dos caminhos com a palavra "Proibido", a dvida 
se resolve. A proibio decide por mim. Livro-me, assim, da terrvel condio de ser um ser moral - que , precisamente, a condio de tomar decises sem ter proibies 
que decidam por mim. Eu no tinha conflitos morais porque as proibies j haviam tomado as decises por mim. Assim caminhava eu, dezenove anos, pelo caminho das 
certezas e proibies, tranqilo, pelo caminho que levava aos cus. Pois os cus no so o destino dos homens? To convencido estava eu do caminho que estava seguindo 
que at me havia matriculado numa escola onde se ensinam certezas e proibies, um seminrio, porque o meu desejo era conduzir as almas pelo caminho que eu seguia.
A, o inesperado aconteceu. Um homem apareceu no meu caminho, andando na direo contrria. Perguntei-me, espantado, se ele no se dava conta de estar andando na 
direo errada. A, ao nos aproximarmos, ficamos um diante do outro, e olhei bem dentro dos olhos dele, e vi, refletido como num espelho, um mundo que eu nunca havia 
visto, o mundo que estava atrs de mim, o mundo do qual eu fugia, em busca dos cus. Olhando bem vi que naquele mundo no havia caminhos. "Caminhante, no h caminhos! 
Os caminhos se fazem ao caminhar!" E tambm no havia nem certezas e nem proibies. O que havia eram horizontes, direes, possibilidades, liberdade. E o mundo 
muito bonito. Me convidava...
O estranho no disse nada. Mas os seus olhos apontaram. E os meus olhos se abriram. Experimentei ento os medos e os risos das dvidas. Pois no  isso que experimenta 
o alpinista que escala o Aconcgua? O risco da morte bem vale a emoo dos desafios! Os que no suportam dvidas jamais escalam picos; eles ficam nas plancies andando 
pelos caminhos conhecidos e seguros. Experimentei a alegria e o sofrimento de ter de tomar decises sem que ningum me desse ordens ou proibies, tendo apenas o 
meu prprio corao como conselheiro. Troquei o caminho que leva aos cus pelos muitos caminhos que levam ao mundo. E assim tenho andado pela vida afora, sem certezas 
e sem proibies... Tudo por causa do olhar daquele homem...
Ele, o estranho com que me encontrei, viveu aqui em Campinas. E posso dizer que a minha vida se divide em dois perodos: antes de conhec-lo, depois de conhec-lo. 
O seu nome era Richard Shaull. Lembro-me perfeitamente bem: encontramo-nos pela primeira vez na avenida Brasil, prximo ao cruzamento com a rua Frei Antnio de Pdua. 
Era o ano de 1953. As casas eram poucas, os eucaliptos eram muitos. No falava portugus; falava espanhol. Havia sido expulso da Colmbia, por ordens da hierarquia 
catlica. Uma igreja construda sobre verdades e proibies no pode suportar a presena de algum que ensina dvidas e liberdade. Viera ento para o Brasil como 
professor do Seminrio Presbiteriano,  avenida Brasil, 1.200. Se me perguntarem: "O que foi que voc aprendeu com ele?" - a resposta  simples: "Dick Shaull me 
ensinou a pensar." Lembro-me de um prova que fiz em uma de suas disciplinas. Eu estava certo de que teria 10, porque a prova tinha sido completa, perfeita. Mas ganhei 
um 9.0. Fui reclamar. Aleguei que havia escrito precisamente o que ele havia dito nas aulas. Ele me respondeu: "Por isso mesmo. Voc apenas repetiu o meu pensamento. 
Lendo a sua prova eu no aprendi nada. Eu esperava encontrar na prova o seu pensamento..."
Profetas no so videntes que anunciam um futuro que vai acontecer. Profetas so poetas que desenham um futuro que pode acontecer. Profetas sugerem um caminho. Richard 
Shaull falava de futuros com que ns nunca havamos sonhado. Ele via o que ningum mais estava vendo. Em seis meses ele j sabia muito mais sobre o Brasil do que 
eu. Foi ele que me apresentou a um catolicismo inteligente. Sugeriu que eu lesse A Descoberta do Outro e Lies de Abismo, livros dos anos de lucidez de Gustavo 
Coro. Foi atravs dele que fiquei sabendo dos movimentos de renovao que silenciosamente fermentavam dentro da Igreja Catlica, a renovao bblica, a renovao 
litrgica, movimentos esses que haveriam de influenciar profundamente o Papa Joo XXIII - de saudosssima memria! - e o Conclio do Vaticano II.
Pensador profundamente mergulhado na tradio da Reforma Protestante (celebrada no dia 31 de outubro, data em que Lutero afixou suas "95 Teses", s portas da catedral 
de Wittenberg), ele nos ensinou a lio fundamental de teologia: "O problema do cu, Deus j o resolveu por ns. No h nada que tenhamos de fazer. Resolvido o problema 
do cu, estamos livres para cuidar da terra, que  o nosso destino..."
Shaull tinha vises de um mundo diferente. Foi o primeiro que me falou da responsabilidade social dos cristos. Se, para a igreja tradicional o mundo era o lugar 
da perdio do qual os cristos deveriam fugir - foi isso que os monges fizeram -, para Shaull o mundo era o lugar da nossa vocao.  preciso estar presente no 
mundo para que ele se renove, ele dizia. Essa palavra, "presena": como era importante no seu pensamento! E foi assim que ele liderou um projeto impensvel: um grupo 
de seminaristas, durante as frias, trabalhando como operrios numa fbrica na Vila Anastcio, em So Paulo. A inspirao para esse projeto veio de um movimento 
catlico, os "padres operrios" que, na Frana, resolveram parar de esperar que os trabalhadores fossem  igreja, e foram, eles mesmos, at onde eles viviam: as 
fbricas. Sem o saber, Shaull estava lanando as sementes da "teologia da libertao".
Cerca de 10 anos antes do Conclio do Vaticano II ele j sonhava com o ecumenismo. Ecumenismo: essa palavra era maldita tanto para protestantes quanto catlicos. 
Para os catlicos, donos da verdade, maldita porque os protestantes eram apstatas. Para os protestantes, donos da verdade, maldita porque os catlicos eram idlatras. 
Inimigos irreconciliveis, como poderiam catlicos e protestantes se assentar para partilhar de uma f comum e do mesmo ritual eucarstico? Pois o Shaull, andando 
na direo contrria como convm a um profeta, resolveu transgredir o proibido: organizou encontros secretos com os dominicanos de So Paulo e nos convidou, um pequeno 
grupo de seminaristas, a participar da conspirao. Sabamos que se a conspirao fosse descoberta a punio seria certa: seramos expulsos do seminrio. E assim, 
com uma mistura de medo e de alegria, l amos ns com o Shaull, para uma experincia com que jamais havamos sonhado. Foi bom descobrir que os catlicos eram pessoas 
inteligentes, amantes da Bblia, fraternas... At ento no sabamos disso!
No conheo ningum que em to curto espao de tempo tenha semeado tanto. No  possvel contar tudo. S posso dizer que um homem que anda na direo contrria no 
o faz impunemente. Os profetas so seres malditos. Nietzsche, um outro que caminhou na direo contrria, sabia o preo que se paga por ver o que os outros no vem. 
Dizia ele: "Os fariseus tm de crucificar aquele que inventa a sua prpria virtude". Aqueles que no vem odeiam aqueles que vem. Richard Shaull foi crucificado. 
As igrejas no o suportaram: expulso da Colmbia, pelos catlicos, expulso do Brasil, pelos protestantes...
Agora ele ficou encantado. Partiu.  certo que plantarei uma rvore para ele no meu lugarzinho solitrio, no alto de um montanha,  beira de um vulco, junto com 
as rvores de outros conspiradores... No silncio, quando no houver ningum por perto, as rvores conversaro entre si...
l Formao de Jardineiros: Aquele curso sobre jardinagem que vai ser oferecido pela Florssima, e que anunciei na ltima crnica, vai se realizar durante todo o 
dia 14 de dezembro, sbado. Se voc ama plantas e jardins e deseja ficar parecido com plantas e jardins, informe-se pelo telefone 3243-9381. E v meditando sobre 
esse lindo poema do Alberto Caeiro: "Sejamos simples e calmos/ como os regatos e as rvores,/ E Deus amar-nos- fazendo de ns/ Belos como as rvores e os regatos/ 
E dar-nos- verdor na sua primavera,/ E um rio aonde ir ter quando acabemos!"
l A rvore que ilustra esta crnica  um gigantesco jequitib-rosa, o mais antigo do Brasil, denominado "O Patriarca", no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita 
do Passa Quatro, SP. Calculam os entendidos que ele deve ter mais de 2 mil anos...
l Culto em Homenagem a Richard Shaull: Realizou-se, na capela do Seminrio da Igreja Presbiteriana Independente, So Paulo, um culto em homenagem a Richard Shaull. 
Certamente haver tambm um culto em homenagem a ele no Seminrio Presbiteriano, na avenida Brasil 1.200, pois foi nele que Shaull viveu e lecionou por seis anos.

UMA RVORE PARA LADON SHEATS...
Aconteceu, faz muito tempo. A carta me chegou dos Estados Unidos. Na verdade no era uma carta: uma folha de bloco rasgada pelo meio com uma mensagem que no consegui 
entender. Como h muitas pessoas loucas soltas pelo mundo, pensei que se tratava de uma delas. Dois dias depois recebi carta de um amigo que dizia: "Rubem, voc 
deve ter recebido uma carta de uma pessoa que voc no conhece. Foi escrita de uma priso. Quem a assina, Ladon Sheats, era um slido executivo da IBM. A ele leu 
o seu livro Tomorrow's Child. O fato  que essa leitura fez com que ele avaliasse a vida que estava vivendo. E concluiu que ser executivo da IBM no era uma razo 
para viver. Demitiu-se e juntou-se a um grupo de pacifistas que se dedicavam a fazer uma coisa muito simples: invadiam os lugares onde se encontravam os msseis 
nucleares e simplesmente se assentavam, pacificamente. E acontecia aquilo que sabiam que iria acontecer. Eram presos." ( Isso aconteceu nos anos da guerra fria. 
) "Pensavam que, com esse gesto manso, estavam dando testemunho da sua f no desarmamento. Ele lhe escreveu da priso onde est cumprindo uma pena. "
Esse foi o incio de uma comovente relao por correspondncia com aquele homem singular, que eu nunca vira. Uma de suas cartas dizia: " Hoje, Rubem,  o meu ltimo 
dia nessa priso. Amanh poderei ver as estrelas de novo. Completam-se seis meses... Comeou assim: eu e meus amigos resolvemos nos assentar nos silos de ogivas 
nucleares, na fronteira com o Canad. Encontram-se numa reserva florestal, lugar de beleza e paz. Pois fomos para l e por uma semana gozamos a beleza da natureza, 
nadamos nos lagos, caminhamos pelas matas, observamos os animais e aves selvagens. Isso encheu a nossa alma. Passados seis dias, no domingo, em procisso e cantando 
hino, entramos no lugar proibido e nos assentamos nos silos. Em cinco minutos estvamos todos presos. O juiz nos condenou a um ms de priso. Ficamos decepcionados 
com pena to curta. Resolvemos repetir o que havamos feito. E a o juiz nos condenou a seis meses. Amanh estarei livre - at a prxima priso..." O Ladon, quando 
no estava preso, gostava de ir para as Montanhas Rochosas, onde se encontra um mosteiro de monges trapistas, que cultivam o silncio. Refugiava-se ento, numa cabana 
solitria, nas alturas, onde s se ouve o barulho do vento, o pio das aves, os uivos dos animais... Numa das vezes em que estive nos Estados Unidos chamei-o na priso 
onde se encontrava, ao telefone e conversamos. Foi a nica vez em que ouvi a sua voz. Depois perdi contato com ele. Por dez anos no soube por onde andava e nem 
se estava vivo.
Ontem recebi uma carta de uma de suas amigas dizendo que o Ladon se preparava para a "Grande Viagem". Sofre de um tumor pancrtico, inopervel, e os mdicos lhe 
do de 3 a 9 meses de vida. Isso  o que ela diz: "Ladon tomou a deciso de viver cada dia intensamente, ao invs de tentar radioterapia, quimioterapia ou terapias 
alternativas... Ladon acredita que a melhor terapia  gozar a vida, amor, orao, msica, riso e comida saudvel. Ele nos disse: "Se Deus quiser me curar, Ela (sic) 
o far. Caso contrrio, tentarei morrer da mesma forma como tentei viver..." E ela acrescenta: "Ladon me pediu para lhe pedir que se lembre dele em seus pensamentos 
e oraes..."
Acabo de lhe enviar a seguinte carta:
"3 de junho de 2002. Meu querido, muito querido Ladon: Tantos anos se passaram... E perdi contato com voc. Mas voc esteve sempre no meu corao e eu o imaginava 
caminhando sozinho pelas montanhas, em busca de silncio, de comunho com Deus e com a natureza. Contei muitas vezes a estria da nossa estranha amizade - porque 
 estranho pensar que duas pessoas que nunca se encontraram pudessem ser to amigas. E agora me contam que voc est se preparando para o momento de ficar encantado... 
Foi-me dito que voc tomou a deciso de viver o resto da sua vida da forma mais livre e mais corajosa. A vida  preciosa e deve ser bebida at sua ltima gota. Quando 
chegar a minha vez espero ter a sua liberdade e a sua coragem. A vida  bonita e  preciso que a morte seja bonita tambm.  trgico que nos dias de hoje, como resultado 
da parafernlia mdica, a morte tenha se tornado feia, solitria e amedrontadora. Um dos nossos poetas chamou a morte de "minha mais nova namorada"... Talvez ele 
estivesse pensando na morte como a Piet - a morte como uma mulher que recebe o nosso corpo no seu colo.
Tenho um lugar nas montanhas. H riachinhos, cachoeiras, rvores, pssaros de todos os tipos, de tucanos a beija-flores, e borboletas... L de cima eu vejo o horizonte, 
ao longe...Dentro de mim mora um menino. E esse menino fez um balano numa rvore. E quando estou balanando, tentando tocar as folhas com o dedo do p, tenho a 
impresso de que estou quase voando... L h um jardim encantado onde planto rvores para meus amigos que morrem. J plantei minha prpria rvore, pois nunca se 
sabe ao certo quando a nossa hora vai chegar. Todas as rvores so de florestas tropicais com uma exceo: um pinheiro canadense, nome cientfico "liquidambar", 
com folhas como mos abertas com dedos esticados. Por muito tempo procurei essa rvore, sem sucesso. Mas uma amiga me deu uma muda como presente de aniversrio. 
Eu a plantei numa encosta de onde se v o horizonte. Acho que ela est gostando do clima. Mas ainda no lhe dei nenhum nome. Ser que voc concordar se eu lhe der 
o nome de Ladon Sheats? Assim, quando algum me perguntar pelas razes daquele nome, eu contarei a sua estria... E as pessoas sabero que h, nesse mundo, pessoas 
bonitas que tornam a vida digna de ser vivida... 
Estou lhe enviando esse livro que escrevi para minha filha, quando ela tinha 3 anos. Era cedo de manh. Eu ainda estava dormindo. Ela saiu do seu quarto, veio at 
o meu lado, me acordou e me perguntou: "Papai, quando voc morrer voc vai sentir saudades?" Eu fiquei perplexo, sem palavras. Ela no havia tido nenhuma experincia 
com a morte. Como  que aqueles pensamentos apareceram na cabecinha dela? E ento ela acrescentou: "No chore porque eu vou abraar voc..." Essas palavras se tornaram 
no centro dessa estria " A Montanha Encantada dos Gansos Selvagens". No importa que voc no entenda portugus. Aceite esse livro como um sacramenteo de amor. 
Ns nos encontraremos algum dia, em algum lugar... Seu amigo e irmo, Rubem Alves."!
* * *
- Os cips de So Joo esto floridos, cor de abbora, cobrindo campos, enroscando-se em cercas, subindo em rvores, dependurando-se de galhos... Anunciam que o 
frio est chegando, que as fogueiras de So Joo se aproximam... Calendrios e relgios marcam a passagem do tempo indiferente, abstrato e morto. Mas as plantas 
marcam a passagem do tempo vivo, tempo das alegrias e das tristezas, das chegadas e das despedidas... 
- Em 1947 o noruegus Thor Heyerdahl atravessou o pacfico numa rstica jangada chamada Kon-Tiki, para provar sua tese de que era possvel que habitantes das ilhas 
do pacifico tivessem navegado at as costas da Amrica do Sul. Ele morreu h poucas semanas, enquanto dormia, aos 87 anos. Parou de comer e beber ao ser informado 
de que sofria de um tumor cerebral. Ainda bem que no havia mdicos que o entubassem a fora, para o obrigar a ingerir alimentos. Uma paciente me relatou que o seu 
pai velho e doente comeou a orar o "Pai Nosso" de uma forma estranha: ele omitia a splica " o po nosso de cada dia d-nos hoje". E isso combinava simbolicamente 
com o fato de que ele parou de comer... 


UMA HISTRIA DE AMOR: O JARDINEIRO E A FRULEIN
Menino, ele de longe olhava os pescadores nos seus barcos levados pelo vento. Pensava que o mar no tem fim. Pensava que os pescadores eram felizes porque no precisavam 
plantar peixes para colher depois. O mar era generoso: ele mesmo plantava os peixes que os pescadores s faziam colher com as suas redes. Tinha inveja dos pescadores. 
Ele era filho de agricultores. Tinha de plantar para colher. Diferente do mar, a terra tinha fim. Todos os pedaos de terra, os menores, os mais insignificantes, 
todos j estavam sendo cultivados. Os pescadores, se quisessem mais, bastava-lhes navegar mar a dentro. Mas os agricultores no podiam querer mais. A terra chegara 
ao fim. Quem quisesse mais terra para cultivar teria que sair da terra conhecida e ir em busca de outras terras, alm do mar sem fim.
Ele j ouvira os mais velhos falando sobre isso - um pas do outro lado do mar - to longe que l era noite quando no seu pas era dia - pas de gente de rostos 
diferentes, de comida diferente, de lngua diferente, de religio diferente, de costumes diferentes. Tudo era diferente. Menos uma coisa: a terra era a mesma e os 
seus segredos, eles os conheciam.
E foi assim que chegou o dia em que ele, adolescente, seus irmos e seus pais, entraram num navio que os levaria ao tal pas - como era mesmo o seu nome? Buragiro... 
Era assim que eles, japoneses, conseguiam falar o nome Brasil...
No Brasil, o jovem japons conseguiu trabalho na casa de uma famlia de alemes. Famlia rica, casa de muitos criados e criadas. Ele no falava portugus nem alemo. 
Mas no importava. Seu trabalho era cuidar da horta e do jardim. E a lngua da terra e das plantas ele conhecia muito bem. A prova disso estava nos arbustos artisticamente 
podados segundo a inspirao milenar das bonsais, nos canteiros explodindo em flores, nas hortalias que cresciam viosas. E foi assim que, na sua fiel e silenciosa 
competncia de jardineiro e hortelo, ele passou a ser amado pelos seus patres.
Mas ningum nem de longe suspeitava os sonhos que havia na alma do jardineiro. Quem no sabe pensa que jardineiro s sonha com terra, gua e plantas. Mas os jardineiros 
tm tambm sonhos de amor. Jardins, sem amor, so belos e tristes. Mas quando o amor floresce o jardim fica perfumado e alegre. Pois esse era o segredo que morava 
na alma do jardineiro japons: ele amava uma mulher, uma alemzinha, servial tambm, todos a tratavam por Frulein. Cabelos cor de cobre, como ele nunca havia visto 
no seu pas, pele branca salpicada de pintas, olhos azuis, e um discreto sorriso na sua boca carnuda que se transformava em risada, quando longe dos patres. Era 
ela que lhe trazia o prato de comida, sempre com aquele sorriso...
E ele sonhava. Sonhava que suas mos acariciavam seus cabelos e seu rosto. Sonhava que seus braos a abraavam e os braos dela o abraavam. Sonhava que sua boca 
e sua lngua bebiam amor naquela boca carnuda... E a sua imaginao fazia aquilo que faz a imaginao dos apaixonados: se imaginava num ritual de amor, delicado 
como a cerimnia do ch, tirando a roupa da Frulein e beijando a sua pele... A imaginao de um jardineiro japons apaixonado  igual  imaginao de todos os apaixonados...
Mas era apenas um sonho. Olhava para seu corpo atarracado, para sua roupa rude de jardineiro, para suas mos sujas de terra, para seus dedos speros como pedras. 
A Frulein pertencia a um outro mundo distante do seu mundo de jardineiro.
Vez por outra ele lhe oferecia uma flor quando ela lhe trazia a comida. Ela sorria aquele sorriso lindo de criana, agradecia, e voltava saltitando para a casa, 
com a flor na mo. Mas havia aquelas ocasies em que ela tomava a flor e a levava ao seu nariz sardento para sentir o perfume. As ptalas da flor ento roavam os 
seus lbios. E o seu corpo de jardineiro estremecia, imaginando que a sua boca estava tocando os lbios dela.
Mas o seu amor nunca saiu da fantasia. Ningum nunca soube.
Os anos passaram. Ele ficou velho. A Frulein tambm envelheceu. Mas o amor no diminuiu. Para ele, era como se os anos no tivessem passado. Ela continuava a ser 
a meninota sardenta. O amor no satisfeito ignora a passagem do tempo.  eterno.
Chegou, finalmente, o momento inevitvel: velho, ele no mais conseguia dar conta do seu trabalho. Seus patres, que o amavam profundamente, pensaram que o melhor, 
talvez, fosse que ele passasse seus ltimos anos num lar para japoneses idosos, uma grande rea de 10 alqueires, bem cultivada, com pssaros, flores e um lago com 
carpas e tilpias. Ele concordou. Visitou o lar mas, por razes desconhecidas, no quis viver l. Achou prefervel viver com parentes, numa cidade do interior. Mas 
o fato  que os velhos so sempre uma perturbao na vida dos mais novos. So, na melhor das hipteses, tolerados. E a sua velhice se encheu de tristeza.
Um dia, movido pela saudade, resolveu visitar a casa onde passara toda a sua vida e onde vivia a Frulein. Mas a lhe contaram que ela fora internada num lar para 
idosos alemes. Estava muito doente. Foi ento visit-la. Encontrou-a numa cama, muito fraca, incapaz de andar.
E ento ele fez uma coisa louca que somente um apaixonado pode fazer: resolveu ficar com ela. Passou a dormir ao seu lado, no cho. Passou a cuidar dela como se 
cuida de uma criana. (Fico comovido pensando na sensibilidade dos diretores daquela casa que permitiram esse arranjo que no estava previsto nos regulamentos.)
A Frulein estava muito fraca. No conseguia mastigar os alimentos. No conseguia comer. Aconteceu, ento, um ato inacreditvel de amor que os que no esto apaixonados 
jamais compreendero: o jardineiro passou a mastigar a comida que ele ento colocava na boca da agora "sua" Frulein. Os dirigentes da casa, acho que movidos pelo 
amor, fizeram de conta que nada viam.
Nunca ningum viu, nunca ningum me contou. Imaginei. Imaginei que quando estavam sozinhos, sem ningum que os visse o jardineiro encostava seus lbios nos lbios 
da Frulein, e assim lhe dava de comer... Assim o fazem os namorados apaixonados, lbios colados, brincando de passar a uva de uma boca para a outra...
E assim, ao final da vida, o jardineiro Hiroshi Okumura beijou sua Frulein como nunca imaginara beijar... O amor se realiza de formas inesperadas.
Esta  uma histria verdadeira. Aconteceu. Foi-me contada pela Tomiko, amiga que trabalha com idosos (aquela que me aconselhou a comprar um blazer vermelho). Ela 
conheceu pessoalmente o jardineiro.
No meu stio eu planto rvores para meus amigos que morrem. Pois vou plantar uma cerejeira e uma camlia vermelha, uma ao lado da outra: o Jardineiro japons e a 
sua Frulein... 
VIOLINOS VELHOS TOCAM MSICA
Jesus era sbio. Conhecia os segredos do corao humano. Psicanalista insupervel. Disse: "O homem bom tira coisas boas do seu tesouro. O homem mau tira coisas ms 
do seu tesouro." Ou seja: a gente sempre encontra aquilo que est procurando. Isso se aplica  leitura que se faz das Sagradas Escrituras. Pessoas que esto cheias 
de medo, de sentimentos de vingana, de autoritarismo, encontraro na Bblia ameaas, castigos, infernos, um Deus cruel e vingativo: parecido com eles. Cada Deus 
 um retrato de quem acredita nele.  possvel fazer uma psicanlise de uma pessoa analisando os seus pensamentos e sentimentos religiosos. Aqueles, entretanto, 
que esto cheios de sentimentos ternos e que, portanto, no so movidos pelo medo ("O amor lana fora o medo", diz o apstolo Joo ) vo tirar daquele tesouro idias 
de beleza, bondade e perdo. Seu Deus muito se parece com uma criana: no h vinganas, castigos ou inferno. 

Digo isso a propsito do que as pessoas tiram das Escrituras Sagradas, quando pensam sobre o sexo. Veio-me  memria um texto, inspirado como todos os outros, em 
que se descreve os ltimos momentos do rei Davi. Esse incidente, relatado nos primeiros versos do livro de Reis, e sobre o qual nunca ouvi sermo, conta que, sendo 
Davi j velho, todos os cobertores sendo inteis para aquec-lo, seus servos tiveram uma idia teraputica: "Procure-se para o senhor nosso rei uma jovem virgem 
que assista o rei e cuide dele: ela dormir sobre o seu seio e o senhor nosso rei se aquecer." Assim se fez. Mas foi intil. Foi intil que o rei dormisse ao lado 
da mais bela jovem do reino. Seu corpo, outrora corpo de homem viril - lembram-se de Betseb? - permaneceu inerte. As esperanas de que ele fosse trazido de novo 
 vida pelas delcias do corpo de uma mulher no se realizaram. Ele no fez amor com ela. Que decepo! E morreu. O que esse texto sagrado diz  que havia a convico, 
partilhada por todos, de que o amor sexual tem o poder de realizar o milagre de curar o corpo. O sexo aquece a vida fria. Sexo  remdio. Sexo  alegria. (Os que 
s tiram coisas ms do tesouro concluram, ao contrrio, que sexo  veneno...) 

Um dos meus textos favoritos se chama Desiderata. "Desiderata" quer dizer "conjunto de coisas que se desejam." (Vou pedir que o Caderno C abra um espao para que 
ele seja publicado. Os que o lerem ficaro mais sbios, se souberem tirar coisas boas do tesouro...) Pois l est dito, como um desejo: "Aceite com elegncia o conselho 
dos anos, deixando graciosamente para trs os prazeres da juventude." O sentido no est explcito. O que eu tirei foi o seguinte: sendo os prazeres sexuais prazeres 
que o senso comum toma como prazeres da juventude,  preciso que os velhos aceitem com elegncia as limitaes da velhice, para no se tornarem ridculos: na velhice 
os prazeres do sexo vo tambm envelhecendo. Que ridculo Davi, indiferente, nos braos de uma linda jovem... 

De fato, os prazeres da velhice no so iguais aos prazeres da juventude. Escrevi, faz muito tempo, sobre um casal de velhos que havia esperado mais de 50 anos para 
se casar. Morta a mulher do homem, morto o marido da mulher, os vivos se encontraram para viver, no pouco tempo que lhes restava, o amor que ficara estrangulado. 
O velho, 79 anos, ressuscitou. A primeira mulher odiava violino. Ele amava violino. Resultado: para evitar rudos vocais, ele deixou seu violino sobre o guarda-roupas, 
por mais de cinquenta anos. Largado, as cordas do violino arrebentaram e arrebentadas ficaram... Ah! Que triste metfora para a alma daquele homem, violino impedido 
de fazer msica... Tomado pelo novo-velhssimo amor, as cordas da alma se afinaram, o violinista ressuscitou do atade em que se encontrava preso, e tratou de reformar 
o violino que estava em cima do guarda-roupa. (Por vezes um violino  mais potente, sexualmente, que o corpo de uma donzela... ) E o violino velho, esquecido dos 
prazeres da juventude, comeou a tocar de novo. Essa metfora me faz rir de alegria. Ser isso? O corpo ser um violino e a alma ser uma msica? H, nos anais da 
psicanlise, o relato de uma pessoa que sonhava tocar violino em pblico - e o sentido do sonho era "masturbar-se em pblico". Estou meio esquecido. Se no foi bem 
assim, peo que meus colegas me corrijam, para benefcio dos leitores. O que nos interessa  essa deliciosa relao metafrica entre o instrumento musical e os instrumentos 
sexuais. Afinal de contas, fazer amor  sempre tocar um dueto.  preciso que os dois toquem para que o dueto soe como deve. E o amor foi enorme, no curto espao 
em que durou. O violino no aguentou a intensidade da sonata: despedaou-se antes que ela chegasse ao fim. O velhinho morreu aos 80 anos. Escrevi uma crnica sobre 
o acontecido. Pois algum tempo depois, recebo um telefonema de uma mulher desconhecida. Era ela! Por quarenta minutos me relatou com detalhes a alegria do amor que 
ela e o seu amado haviam vivido. E, ao trmino da conversa, me disse essa coisa linda que, toda vez que conto, choro de emoo: "Pois , professor. Na idade da gente 
no se mexe muito (por favor! Observem o muito!) com as coisas do sexo. A gente vivia de ternura!" 

De fato, sexo na velhice  muito diferente do sexo na adolescncia. O adolescente, no seu estado normal,  um drogado. No me entendam mal. No estou dizendo que 
eles cheiram cocana. Estou dizendo que eles so, repentinamente, invadidos por um vulco de hormnios que no conheciam, demnios incontrolveis que deles se apossam, 
alojando-se preferencialmente em certas partes do corpo que se pem a mover dolorosamente, independentemente da sua vontade. Agostinho, no seu livro De Civitate 
Dei, j havia observado essa autonomia dos rgos sexuais, que se movem sem permisso da razo, criando situaes embaraosssimas, razo por que o Criador, compadecido 
da vergonha do homem, providenciou aventais que escondessem os seus genitais descontrolados. Vira um inferno. No sei sobre as mulheres. Sei que, para os homens, 
o desejo sexual na adolescncia  um sofrimento. No d sossego. O curioso  que ele irrompe gratuitamente, sem necessitar de nenhuma provocao. No  preciso que 
o adolescente veja mulheres nuas, filmes porn ou simplesmente tenha pensamentos libidinosos. O desejo sexual, na adolescncia, independe de um objeto.  um desejo 
puro, bruto, irracional. Para quem no entende o que estou dizendo vou me valer de uma comparao: parece-se, em tudo, com o desejo de fazer xixi. A bexiga vai inchando, 
inchando, comea a doer, a dor vai crescendo, torna-se insuportvel. No h alternativa:  preciso esvaziar a bexiga. E a  aquele prazer, aquela felicidade... 
O ato de fazer xixi, quando a bexiga est cheia, em tudo  comparvel ao teso e ao orgasmo, na adolescncia. Creio, inclusive, que a anlise que Freud faz do prazer 
sexual toma o ato de fazer xixi como modelo: o objetivo do prazer no  o prazer;  livrar-se da dor, voltar ao equilbrio,  experincia budista de no desejar 
nada: nirvana... 

Isso passa. Esse estado de perturbao hormonal  de curta durao.  como um cavalo selvagem, sem controle, desembestado, arrebentando cerca, pulando ribeiro, 
se atolando em charco... Depois o cavalo selvagem, poder puro, exploso atmica, destruio, vai ganhando forma. Da Vinci achava que os cavalos eram os animais mais 
belos, depois dos seres humanos... O poder selvagem ganha forma, descobre os limites. Poder bruto  feio. Como disse Nietzsche: "Quando o poder se torna gracioso, 
ento a beleza acontece." Surge ento o sexo sob uma outra forma: a ternura. A os ditos rgos descontrolados deixam de se movimentar por conta prpria. S se movimentam 
quando comovidos pela ternura da beleza... Sem a ternura da beleza eles ficam inertes. Os tolos acham que  impotncia. Ou frigidez.  nada. 

Depois a gente conversa mais... 


Dicas: 

Recebi, via e-mail, elogios para os meus escritos. Dias depois me chegou outro e-mail da mesma pessoa: Rubem, voc deixou de ser o primeiro. Depois de ler a carta 
da Dina, a Dina  a primeira! 

De uma carta da Dina: "Meu nome verdadeiro  Etelvina de Sousa Charra. Charra  um arado...conduzida por boi ou burro. O meu apelido foi elaborado onde trabalhei 
no Brooklin em S.P. As filhas da patra me apelidaram de dinamo e dinamite, e da diminuiram para Dina, e eu gostei. E at esqueo do meu verdadeiro nome. Quero 
ser sempre Dina, geradora de energia, embora a woltagem esteja baixa... Eu." (Para quem no sabe, a Dina tem 86 anos ). 

Pedem-me sinopses e resumos das minhas palestras. Como fazer uma sinopse de uma piada? Como fazer sinopse de um poema? Como fazer sinopse de uma brincadeira? . 
Definitivamente no entendem... 


DESIDERATA 

V calmamente, entre o barulho e a pressa, e lembre-se da paz que somente existe no silncio. 

Na medida do possvel, e sem se atraioar, tenha boas relaes com todas as pessoas. 

Diga a sua verdade quieta e claramente. Oua os outros, mesmo os obtusos e ignorantes. Eles tambm tem uma estria a contar. 

Evite as pessoas ruidosas e agressivas. Elas so tormentos para o esprito. 

Se voc se comparar aos outros voc se tornar ora vaidoso, ora amargo, pois h sempre pessoas que lhe so inferiores ou superiores. 

Goze tanto as suas realizaes quanto os seus sonhos. Mantenha-se interessado naquilo que voc faz, por humilde que seja. Aquilo que voc faz  algo que voc realmente 
possui, num tempo em que tudo muda sem parar. 

Pratique a prudncia nos seus assuntos comerciais, pois o mundo est cheio de trapaas. Mas no deixe que isto o faa cego para as virtudes que existem. Muitas pessoas 
se esforam por ideais altos. Por toda parte a vida est cheia de herosmo. 

Seja voc mesmo. No finja afeio. E nem seja cnico acerca do amor. A despeito da aridez e do desencanto, ele renasce to teimosamente quanto a tiririca. 

Aceite com elegncia o conselho dos anos, deixando graciosamente para trs os prazeres da juventude. Crie fora de esprito para proteger-se na desgraa repentina. 
No se aflija, porm, com coisas imaginadas. Muitos temores nascem do cansao e da solido. 

Tenha uma disciplina saudvel, mas seja gentil para consigo mesmo. Voc  um filho do universo, tanto quanto as rvores e as estrelas. Voc tem o direito de estar 
aqui. E, quer voc saiba disto ou no, o fato  que o universo caminha como deve. Por isto, esteja em paz com Deus, no importa como voc pensa que ele . 

A despeito da barulhenta confuso da vida, mantenha-se em paz com a sua alma. 

Com todos os seus enganos, labutas e sonhos no realizados, este continua a ser um belo mundo. Cuide-se. Esforce-se por ser feliz... (Correio Popular, Caderno C, 
20/05/2001.) 

VOLTANDO A SER CRIANA
Ser que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez? Douglas R. Hofstadter, no seu livro Gdel, Escher, Bach (Prmio Pulitzer) brinca com a idia de um 
computador cujo hardware no  capaz de suportar o seu software e se desintegra ao tentar execut-lo. Talvez que isso no possa acontecer com computadores mas possa 
acontecer com seres humanos: a estrutura fsica nervosa, no sendo capaz de suportar a riqueza da vida mental que nela existe, se desintegra como um vaso se quebra 
por no conseguir conter a exuberncia da fonte. Nietzsche tornou-se insano no incio do ano de 1889, vindo a morrer 11 anos depois, no dia 25 de agosto de 1900, 
h cem anos, portanto. Seu corpo foi frgil demais para conter sua mente imensa.

Nietzsche  o filsofo que mais amo. Dizia ele s amar os livros escritos com sangue. Seus textos so escritos com sangue, sangue sob a forma de palavras. Bem que 
ele poderia dizer: "Hoc est corpus meum", isso  o meu corpo. Por isso eu o leio antropofagicamente.  impossvel l-lo e continuar o mesmo. Suas palavras no so 
para a cabea; so para as entranhas. Eu o sinto circulando no meu corpo. E eu sei que isso  assim porque ao l-lo me ponho a sorrir, sou possudo pela alegria, 
viro criana. O que est muito de acordo com as suas intenes.

Filsofo? "Sou um discpulo do filsofo Dionsio", confessou no prefcio de Ecce Homo. Mas Dionsio  tudo, menos filsofo.  o deus do vinho, do xtase, da msica 
que se apossa do corpo inteiro, por oposio a Apolo, que se contenta com o olhar distante. Um professor da universidade de Berlin, aps ler os seus textos, e sem 
ter entendido coisa alguma, escreveu-lhe aconselhando-o a tentar um outro estilo: ningum leria as coisas que ele escrevia. Mas o seu estilo, precisamente,  o essencial 
da sua filosofia. Nietzsche desejava ser msico. Tentou ser compositor. No conseguiu. Incapaz de fazer msica com sons, fez msica com palavras. O que se constitui 
para os filsofos acadmicos um problema sem soluo, semelhante ao da quadratura do crculo. Pode-se representar um crculo por meio de quadrados? Pode-se comunicar 
a msica da prosa nietzscheana por meio do estilo acadmico, que s entende a letra da linguagem, sendo surdo para a sua msica? Filsofo? "Talvez eu seja apenas 
um bufo", ele observou. Ele se sabia um exilado, clandestino: "Assim, para fora da minha verdade-loucura eu mergulhei... Que eu seja exilado de toda a verdade! 
Somente um tolo! Somente um poeta..."

Sua filosofia nasceu da doena.  ele mesmo quem diz: "Somente a minha doena me levou  razo." Confisso que parece dar razo aos que no conseguem digeri-lo. 
E concluem: "Filosofia doente, portanto". Errado. Doena, a possibilidade da morte, nos conduz aos pensamentos essenciais. "Tenho a lucidez de quem est para morrer", 
dizia Fernando Pessoa no "Tabacaria". E Nietzsche explica: "Eis como me aparece agora aquele longo perodo de doena: como se eu tivesse redescoberto a vida, inclusive 
a mim mesmo; eu provei todas as coisas, as boas e mesmo as pequenas, de uma forma como os outros no podem facilmente provar. Transformei, ento, a minha vontade 
de sade, minha vontade de viver, numa filosofia."

Nietzsche declarou que um dos seus grandes prazeres, ao lado das longas caminhadas, era a msica de Schumann. Schumann era um especialista em miniaturas: "Cenas 
da Infncia", "Cenas da Floresta", "Carnaval": colagem de pequenas peas, cada uma completa em si mesma. Quem no conhece a "Trumerei"? Pois o seu estilo  igual 
ao de Schumann. O seu gosto pelos aforismos e textos curtos so expresso do seu horror aos sistemas que pretendem abarcar tudo. A busca de um sistema lhe parecia 
falta de integridade. Assim falou Zaratustra bem que poderia ter o ttulo de "Cenas", talvez mesmo de "Carnaval", tendo o "monstro Dionisaco chamado Zaratustra" 
como bufo central.

Zaratustra, seu heri,  uma encarnao plstica do que ele desejava ser. Descendo das montanhas onde passara dez anos de solido, Zaratustra se encontra com um 
eremita que vivia numa floresta e por quem passara dez anos antes, quando subia. O eremita se espanta: "Sim, reconheo Zaratustra", ele diz. "Seus olhos so puros, 
em sua boca no se esconde nenhum desgosto. E no anda ele como um danarino? Zaratustra mudou, Zaratustra se tornou uma criana. Zaratustra ficou iluminado."

"Anuncio o 'bermensch'", ele proclama. "Super-homem": traram os tradutores. Nada mais distante do esprito de Nietzsche. Um homem "super"  apenas um homem com 
suas qualidades hipertrofiadas, a mesma mediocridade tornada "super". O "ber", em Nietzsche, corresponde ao nosso "trans", como em transbordar. "As cisternas contm; 
as fontes transbordam", dizia William Blake, o Nietzsche ingls. Nietzsche no sonhava com tamanhos; sonhava com metamorfoses:  preciso que as cisternas se transformem 
em fontes! A exuberncia no pode ser contida. E assim traduzo eu o "bermensch" de Nietzsche como o "homem transbordante". E quem  esse "homem transbordante" que 
ele anuncia? Est l, na sua curta e potica "fenomenologia do esprito" a que ele deu o nome de "metamorfoses do esprito". Primeiro momento: o homem  um camelo, 
animal reverente, que se ajoelha diante de uma vontade estranha que coloca cargas em suas costas. Sua palavra: "Obedeo". Segundo momento, primeira metamorfose: 
o camelo se transforma em leo, o animal de fora e vontade, cuja palavra  "Eu quero"! O leo se defronta com um drago que tem o corpo coberto com escamas douradas. 
Em cada uma delas est gravado "Tu deves". O leo luta com o drago e o mata. Chega, finalmente, o terceiro momento, a ltima metamorfose, o ponto de chegada: o 
leo se transforma numa criana. Porque uma criana  exuberncia, transbordamento de vida, brinquedo que no acaba. Mais tarde ele ir dizer que "o mximo de maturidade 
que um homem pode atingir  quando ele tem a seriedade que tm as crianas quando brincam".

Suas cenas, como em Schumann, poderiam ter o nome de "Cenas da Infncia" - variaes musicais sobre o tema "criana". O que Nietzsche deseja  nos seduzir a nos 
tornar crianas - para brincar com ele...

(Folha de S. Paulo, Tendncias e Debates, 08/2000.

O PRAZER DA LEITURA

Alfabetizar  ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto"  o conjunto das letras de uma lngua, colocadas numa certa ordem.  a mesma coisa 
que "abecedrio". A palavra "alfabeto"  formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedrio", com a juno das quatro primeiras 
letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraada de que "abecedarizar", palavra inexistente, pudesse ser sinnima de 
"alfabetizar"...

"Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contm uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. 
Depois, juntando-se as letras, as slabas. Depois, juntando-se as slabas, aparecem as palavras...

E assim era. Lembro-me da crianada repetindo em coro, sob a regncia da professora: "be a ba; be e be; be i bi; be o bo; be u bu"... Estou olhando para um carto 
postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redao: uma menina cacheada, deitada de bruos sobre um div, queixo apoiado na mo, 
tendo  sua frente um livro aberto onde se v "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"... (Centro de Referncia do Professor, Centro de Memria, Praa da Liberdade, Belo Horizonte, 
MG.)

Se  assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da msica deveria se chamar "dorremizar": aprender o d, o r, o mi... Juntam-se as notas 
e a msica aparece! Posso imaginar, ento, uma aula de iniciao musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a regncia da professora, na esperana 
de que, da repetio das notas, a msica aparecesse...

Todo mundo sabe que no  assim que se ensina msica. A me pega o nenezinho e o embala, cantando uma cano de ninar. E o nenezinho entende a cano. O que o nenezinho 
ouve  a msica, e no cada nota, separadamente! E a evidncia da sua compreenso est no fato de que ele se tranquiliza e dorme - mesmo nada sabendo sobre notas! 
Eu aprendi a gostar de msica clssica muito antes de saber as notas: minha me as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabea. Somente depois, j fascinado 
pela msica, fui aprender as notas - porque queria tocar piano. A aprendizagem da msica comea como percepo de uma totalidade - e nunca com o conhecimento das 
partes.

Isso  verdadeiro tambm sobre aprender a ler. Tudo comea quando a criana fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. No so as letras, 
as slabas e as palavras que fascinam.  a estria. A aprendizagem da leitura comea antes da aprendizagem das letras: quando algum l e a criana escuta com prazer. 
"Erotizada" - sim, erotizada! - pelas delcias da leitura ouvida, a criana se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifr-los, compreend-los 
- porque eles so a chave que abre o mundo das delcias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediao da 
pessoa que o est lendo.

No primeiro momento as delcias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugesto de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, 
 o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramtica ou de anlise sinttica. No foi nelas 
que aprendi as delcias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade, no eram aulas. Eram concertos. A professor lia, interpretava 
o texto, e ns ouvamos extasiados. Ningum falava. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que no havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. 
Existe uma incompatibilidade total entre a experincia prazerosa de leitura - experincia vagabunda! - e a experincia de ler a fim de responder questionrios de 
interpretao e compreenso. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...

Vejo, assim, a cena original: a me ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experincia  o aperitivo que ficar para sempre guardado na memria afetiva 
da criana. Na ausncia da me ou do pai a criana olhar para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delcias que esto contidas nas 
palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da me: eles so aqueles que tm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! Roland Barthes 
faz uso de uma linda metfora potica para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem: continuar a fazer aquilo que a me faz.  isso mesmo: 
na escola, o professor dever continuar o processo de leitura afetuosa. Ele l: a criana ouve, extasiada! Seduzida, ela pedir: "Por favor, me ensine! Eu quero 
poder entrar no livro por conta prpria..."

Toda aprendizagem comea com um pedido. Se no houver o pedido, a aprendizagem no acontecer. H aquele velho ditado: " fcil levar a gua at o meio do ribeiro. 
O difcil  convencer a gua a beber". Traduzido pela Adlia Prado: "No quero faca nem queijo. Quero  fome". Metfora para o professor: cozinheiro, Babette, que 
serve o aperitivo para que a criana tenha fome e deseje comer o texto...

Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questo acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me 
disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu tambm amava aquele poema. A ele comeou a l-lo. Estremeci. 
O poema - aquele poema que eu amava - estava horrvel na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A msica estava 
errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a msica... Percebi, ento, que todo texto literrio se assemelha  msica. Uma sonata 
de Mozart, por exemplo. A sua "letra" est gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata no existe como experincia esttica. Est morta.  
preciso que um intrprete d vida s notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretao do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade 
das mulheres...) as toca: seus dedos deslizam leves, rpidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeo: estamos possudos pela beleza. A mesma 
partitura, as mesmas notas, nas mos de um pianeiro: o toque  duro, sem leveza, tropees, hesitaes, esbarros, erros:  o horror, o desejo que o fim chegue logo.

Todo texto literrio  uma partitura musical. As palavras so as notas. Se aquele que l  um artista, se ele domina a tcnica, se ele surfa sobre as palavras, se 
ele est possudo pelo texto - a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que l no domina a tcnica, se ele luta com as palavras, 
se ele no desliza sobre elas - a leitura no produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto , aquele que l para que seus alunos 
tenham prazer no texto, tem de ser um artista. S deveria ler aquele que est possudo pelo texto que l. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas 
escolas a prtica de "concertos de leitura". Se h concertos de msica erudita, jazz e MPB - por que no concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentaro 
os prazeres do ler. E acontecer com a leitura o mesmo que acontece com a msica: depois de ser picado pela sua beleza  impossvel esquecer. Leitura  droga perigosa: 
vicia... Se os jovens no gostam de ler, a culpa no  deles. Foram forados a aprender tantas coisas sobre os textos - gramtica, usos da partcula "se", dgrafos, 
encontros consonantais, anlise sinttica -que no houve tempo para serem iniciados na nica coisa que importa: a beleza musical do texto literrio: foi-lhes ensinada 
a anatomia morta do texto e no a sua ertica viva. Ler  fazer amor com as palavras. E essa transa literria se inicia antes que as crianas saibam os nomes das 
letras. Sem saber ler elas j so sensveis  beleza. E a misso do professor? Mestre do kama-sutra da leitura...


APERITIVOS

1. "Analfabeta no  a pessoa que no sabe ler.  a pessoa que, sabendo ler, no gosta de ler." (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mrio Quintana).

2. A menininha de 9 anos me explicou como as crianas na sua escola aprendiam a ler: "Aqui na Escola da Ponte no aprendemos letras e silabas. S aprendemos totalidades..."

3. Os compositores colocam em suas partituras indicaes para orientar o intrprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam 
fazer o mesmo com seus textos. H textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente 
no precisa dessas indicaes. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.

4. "Mais valem dois marimbondos voando que um na mo" (Almanak do Alu).

5. Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola lhe ensinaram um ditado: "Fale pouco e bem e ter-te-o por algum". Ele repetia o ditado mas ficava com 
uma dvida: "Quem ser esse 'Tertio'?"

(Correio Popular, Caderno C, 19/07/2001.) 


SOPAS

Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no cu, por toda a eternidade, eu no teria um segundo de hesitao: escolheria sopa. Camaro, picanha 
maturada, salmo  Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportvel aps umas poucas repeties. Mas no  assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda 
a eternidade, sem me cansar. 

Minha relao com as sopas  mais que gastronmica:  uma relao de ternura. Elas me reconduzem  cozinha de minha casa de menino, ao fogo de lenha, s tardes 
de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar  coisa de rico) era servida s 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria  uma lareira que se acende 
no estmago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, ento, ele se transforma em suor, e se a gente no usa o guardanapo a tempo, 
as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa... 

Para mim a sopa  um sacramento de intimidade: um objeto fsico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros 
lugares, outros tempos. Fao e gosto de sopas frias. Sopa fria de ma, por exemplo, tem um sabor extico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas 
o elemento sacramental: elas no me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espao de intimidade. 

Sopa  comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de ma,  nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, 
 s pobre quem guarda. Sopa  comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida  bem precioso, que no pode ser perdido. Rico no guarda sobra. No precisa. 
 humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeiro de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa  
uma poo mgica por meio da qual o que estava perdido  salvo da perdio e reconduzido  circulao da vida e do prazer. 

A imaginao de Bachelard diz que a matria tambm imagina. A gua imagina arcos-ris. As sementes imaginam flores e rvores. O mrmore imagina 'Beijos' (Rodin) 
e Piets (Miguel ngelo). O rios imaginam nuvens (Heldio Brito). As comidas tambm imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos flicos, masculinos, 
infernais. O churrasco precisa de perfuraes, cortes, dilaceraes. As mandbulas lutam com a carne. A carne resiste. 

J a sopa  mansa. No  para ser comida. A colher  um cncavo, um vazio, o feminino. Nada  perfurado. O gesto  o de 'colher': a colher colhe, sem violncia. 
Sempre tive implicncia com uma etiqueta snob, para a tomao de sopa: que o delicado  tomar a sopa com o lado da colher, e no com o bico. Ora, ora - eu argumentava 
- por analogia a gente deveria comer comida slida com o lado do garfo - o que no  possvel. De fato. No  possvel.  que o garfo pertence  ordem dos talheres 
pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence  ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente... 

Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constri 
sobre o pressuposto de que as coisas so aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossvel 
ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vem. O surrealismo, ao contrrio, acha que aquilo que os olhos comumente vem  muito pouco: 
se olharmos com ateno perceberemos que as coisas so, ao mesmo tempo, o que so e tambm outras: elefantes se refletem nas guas de um lago como cisnes, cenrios 
compem o corpo ertico de uma mulher, o corpo de Cristo  transparente e atravs dele se vem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo 
recria o criado. 

As sopas so a verso culinria do surrealismo. Tivesse realizado sua vocao primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando 
as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relaes inslitas que o caldo torna possveis. O caldo da sopa  o meio mgico que junta 
no caldeiro aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossvel catalogar as combinaes possveis: fub, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, 
tomate, ervilha, ovo, abbora, mandioca, car, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijo, arroz, queijo, azeitona, 
po, ma, abacate, temperos, pimentas, organo, tandore - uma canja verdadeira no  canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortel. E  preciso no nos esquecermos 
que sopa  a nica comida que pode ser feita com pedra, como nos  relatado numa das estrias clssicas que se conta para crianas e adultos. 

Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mgico no se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem 
suas poes em enormes caldeires de sopa, como  o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de fora imbatvel num caldeiro 
de sopa fervente. 

Prefiro as sopas rsticas - e faz-las me d um grande prazer. A sopa de fub em suas mltiplas verses, o caldo verde, a canja com hortel, a multicolorida sopa 
de legumes: sopas so sempre uma alegria. As sopas rsticas do permisso para se jogar nelas o po picado. Haver coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns 
amigos, s 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa. 

Uma ltima informao: sopas so remdios maravilhosos contra depresso. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estmago, a tristeza se vai 
e a alegria volta. No h melancolia que resista  magia de um prato de sopa... (Concerto para corpo e alma, p. 69.) 


"UM MATUTO, POBRE E QUASE ANALFABETO, PODE SER PRESIDENTE?
A QUE PONTO CHEGAMOS?"

"Vejam s a que ponto chegamos. Agora ele est querendo ser
presidente... No se enxerga? A comear pelos ancestrais, que no so
coisa que se recomende. H fortes boatos de descender de uma mulher de costumes frouxos e suscetvel a amores proibidos. O pai, ao que parece, no
conseguia se fixar em emprego algum, e alguns chegam mesmo a descrev-lo como tendo alma de vagabundo.  certo que no seria nunca escolhido como "operrio padro". 
E que dizer do lugar onde nasceu? Estado dos mais trasados, sotaque tpico, crescido em meio a rudeza dos que no se refinaram para as lides pblicas. Podem imaginar 
o seu comportamento num banquete? Seria vergonhoso... Cotovelos sobre a mesa, empurrando a comida com o dedo, falando de boca cheia... Seria um vexame nacional.
Acresce o fato de no haver nem mesmo terminado o curso primrio, sua educao se restringindo a ler, escrever e fazer as quatro operaes.  Como trabalhador braal, 
excelente. Na verdade, ali  seu lugar. Como  acontece com as pessoas que trabalham muito com o corpo e pouco com a  cabea, seu corpo se desenolveu de forma invejvel. 
Testemunhas  oculares relatam mesmo que, em certa ocasio, no vacilou em se valer dos  msculos para dobrar um grupo de adversrios. Mas o que assusta mesmo  o 
seu radicalismo em relao s questes do trabalho, especialmente do campo.
Pois no  da iniciativa e do capital dos patres que vem a riqueza do
pas?
E agora, este MATUTO quer colocar o carro na frente dos bois...
Se a sua poltica agrria for colocada em prtica  certo que
vamos ter uma convulso social no pas. O nosso sistema de produo vai ser desmantelado, com imprevisveis conseqncias para a economia. Mas pior do
que isso sero as conseqncias sociais. No final, parece que os empregados
tomaro conta de tudo e aos patres no restar outra alternativa que deixar o pas... 'Love it or leave it...'
 Pode guardar seu sorriso e sua raiva porque isto que escrevi no   sobre quem voc est pensando.  sobre Abraham Lincoln. E o que eu disse sobre sua vida pode 
ser encontrado na Enciclopdia Britnica, para quem  quiser conferir". ABRAHAM LINCOLN FOI ELEITO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA
AMRICA E, AINDA HOJE  CONSIDERADO UM DOS MAIORES, SE NO O MAIOR, PRESIDENTE DA
HISTRIA DOS ESTADOS UNIDOS.

A ARROGNCIA DA INCULTURA
Jornal O Globo, seo Opinio, 15 de junho de 2002 
 Olavo de Carvalho 

Est circulando pela internet um artigo assinado por Rubens Alves, educador e professor da Unicamp, que defende a eleio de Lula para presidente mediante um truque 
de argumentao que tem tudo para enganar milhares de leitores. 

O professor Alves comea reproduzindo, como se pretendesse defend-las, duas das objees de praxe contra o candidato do PT: 

Primeira:  um caipira inculto, que mal terminou o curso primrio e, habilitado a trabalhar antes com os msculos do que com o crebro, no tem o mnimo preparo 
para lidar com as grandes questes nacionais. Segunda: tem umas propostas de poltica agrria que, se aplicadas, levaro o pas a uma convulso social. 

Uma vez expostas essas objees, o autor as neutraliza de repente, com grande efeito persuasivo, mostrando que as copiou de discursos feitos no contra Lula, mas 
contra Abraham Lincoln, o qual, a despeito delas, veio a tornar-se um dos maiores presidentes dos EUA. 

Concluso: Lula na presidncia no h de ser mais perigoso - ou vexaminoso - do que o foi Abraham Lincoln. 

Pois bem, esse artigo, para mim, s prova uma coisa: a incultura pretensiosa de um certo tipo de educador e professor universitrio - certamente o mais comum hoje 
em dia - que emporcalha sua ctedra fazendo dela um palanque para a difuso de mentirinhas tolas convenientes ao seu partido. A j estamos um passo alm da simples 
politizao abusiva da vida universitria. Politiqueiros de ctedra sempre existiram, mas eles buscavam conservar ao menos uma aparncia de dignidade intelectual. 
Agora, a nsia eleitoreira suprimiu esse ltimo resduo de escrupulosidade: para promover o candidato, no se vexa de apregoar tolices que esto abaixo do nvel 
de exigncia do ensino primrio. 

O paralelo entre a educao de Lula e a de Abraham Lincoln  falso at o limite da alucinao. Ambos esses polticos vieram,  certo, de famlia pobre, e mal tiveram 
educao formal. A diferena  que Lincoln, estudando sozinho, tornou-se um grande conhecedor de histria e de literatura, e dominou seu idioma natal ao ponto de 
escrever, j aos vinte e poucos anos, como um autntico clssico da lngua inglesa. J o sr. Lula da Silva s o que consegue  pronunciar com lngua presa uns discursinhos 
miserveis que, se lhe granjeiam alguns votos,  apenas graas ao efeito tranqilizante que a exibio de mediocridade pode ter sobre platias de invejosos doentios 
que fogem do admirvel como da peste. Para estes, a melhor qualidade que um candidato pode apresentar  a de no ser melhor que eles. Votando em Lula, votam em si 
mesmos, porque se sentem capazes de fazer tudo o que ele faria e, elegendo-o, no sero obrigados a respeit-lo. 

O sucesso de Lula , de fato, a plena legitimao da incultura orgulhosa. Este senhor no se deu o trabalho de aprimorar sua formao nem mesmo depois de salvo da 
misria pela ascenso poltica. Gasta seu dinheiro com a satisfao de vaidades tolas, mas no com auto-educao. Usa ternos elegantes e fuma charutos caros, mas 
no contrata um fonoaudilogo para corrigir aquele medonho ceceio na sua pronncia, que ele prefere continuar ostentando como uma grife. 

Eu prprio vim de famlia pobre, mal tinha dinheiro para comprar livros, e alm de pobre era doente. S soube o que era sade aos vinte e oito anos, e comprei meu 
primeiro e nico carro (usado e esculhambado) aos quarenta e tantos. Isso no me impediu de adquirir conhecimentos bem superiores aos de vrias dzias de Lulas somados 
a uns quantos Rubens Alves. Mas me impediu de aviltar minha pobreza utilizando-a como desculpa para meus defeitos ou, mais ainda, de alegar esses defeitos como qualidades 
excelsas, cavando votos mediante a ostentao deles. Vocs podem avaliar quanto o embelezamento eleitoral da incultura luliana me soa incongruente e insultuoso. 
Insultuoso no s a mim: num pas cuja cultura superior  quase toda ela obra de pobretes esforados, a beatificao da incultura de um ex-pobre  de um cinismo 
quase macabro. 

Se a biografia de Lula ilustra a perfeita compatibilidade da indolncia intelectual com a ambio avassaladora de subir na vida, a argumentao do professor Alves 
demonstra a total harmonia entre o estatuto de intelectual acadmico e uma mentalidade mesquinha de cabo eleitoral. Um insulta os pobres estudiosos, o outro ostenta 
com orgulho o emblema da prostituio intelectual. E  essa gente que pretende julgar e corrigir o pas. 

E o mais espantoso na argumentao  justamente a sua segunda parte, na qual, ironizando como se fosse uma estupidez sem mais tamanho o temor de que a poltica agrria 
de Lula venha a produzir uma convulso social, o professor esquece que a de Lincoln produziu no apenas isso, mas uma guerra civil que foi o maior conflito armado 
registrado na Histria at ento. Essa guerra, fruto da pura prepotncia burocrtica, teve como efeito colateral,  certo, a libertao dos escravos, mas esse mesmo 
efeito poderia ter sido obtido por outros meios, sem tanto derramamento de sangue e sem consolidar o dio racial cujas conseqncias ainda so visveis na sociedade 
americana. Meninos de escola no tm o direito de ignorar isso. Mas o professor Alves acha que tem. 

Seu argumento pr-Lula, na verdade, funciona s avessas: se mesmo o grande Lincoln, com toda a sua cultura, sua sabedoria, sua humildade, no foi capaz de impor 
sua poltica rural sem uma dose extraordinria de violncia, por que haveremos de esperar coisa melhor de um tolo arrogante que exibe sua incultura como um direito 
e um mrito? 

Olavo de Carvalho  filsofo. 


PELOS CAMINHOS DO SR. OLAVO DE CARVALHO
Ao jornal O Globo 
18 de junho de 2002 
Rubem Alves 

Peo perdo aos meus leitores. Vou lev-los a caminhar por um caminho grosseiro; o artigo que o senhor Olavo de Carvalho escreveu contra mim com o ttulo "A arrogncia 
da incultura", da qual o melhor exemplo que conheo  o seu prprio artigo (O Globo, 15.06.02). 

Ele se autodenomina "filsofo". Mas um filsofo deve ter duas qualidades. A primeira delas  o amor  verdade. A segunda  a capacidade de pensar com a razo e no 
com os intestinos. Ao senhor Olavo de Carvalho faltam ambas, como passo a demonstrar. 

O seu artigo contm quatro tipos de declaraes. Primeiro, xingamentos. Segundo, mentiras. Terceiro, opinies sobre o Lula. Quarto: auto-elogios. 

Quanto aos xingamentos: Melanie Klein indicou que, em situaes de surto psictico, as funes mentais ficam sob o domnio das funes intestinais e urinrias. Em 
condies de surto a pessoa no pensa racionalmente: ela simplesmente lana, sobre o objeto do seu dio, os detritos putrefatos produzidos por ela mesma, sob a forma 
de palavras. Ataques "com fezes explosivas e urinas envenenadas": essa  a expresso que ela usa para descrever o processo. Assim como o intestino lana, atravs 
do nus, ventilaes malcheirosas que empesteam o ambiente, a pessoa em surto lana, contra a pessoa odiada, ventilaes malcheirosas atravs da fala e da escrita 
que, assim, assumem uma funo anal. Esses produtos, na linguagem comum, tm o nome de "xingamentos". Contra eles o discurso racional  intil. A razo no tem o 
poder de transformar ventilaes malcheirosas em perfume. Assim, no me defenderei das ofensas que o filsofo lanou contra a minha pessoa. Contra "ataques com fezes 
explosivas e urinas envenenadas" confesso minha impotncia. Grande parte do artigo do senhor Olavo de Carvalho  constituda de declaraes desse tipo. O seu artigo 
 uma pea escatolgica. Mas isso, evidentemente, no  prprio de um filsofo... 

Quanto s mentiras: Destacarei apenas duas declaraes a meu respeito que faz o senhor Olavo de Carvalho. A primeira se encontra no primeiro pargrafo: "Rubens Alves... 
que defende a eleio de Lula para presidente..." Isto  mentira. Se o referido senhor estivesse pensando com a razo e no com os intestinos ele teria tido o cuidado 
de investigar antes de afirmar. Faz poucas semanas publiquei na seo Tendncias e Debates, da Folha de S. Paulo, um artigo com o ttulo "O buraco da fechadura". 
Trata-se de uma carta dirigida ao Lula, na qual o questiono duramente sobre integridade intelectual, tica eleitoral e o programa educacional do PT.  bvio que, 
se publicamente critico o candidato do PT  presidncia, no o posso estar apoiando. O senhor Olavo de Carvalho, assim, mente a meu respeito. A segunda mentira est 
no sexto pargrafo do seu artigo. Ele se refere  "incultura pretensiosa de um certo tipo de educador (...) que emporcalha sua ctedra fazendo dela um palanque para 
difuso de mentirinhas tolas convenientes ao seu partido". O artigo  dirigido contra mim. Eu sou o educador que emporcalha sua ctedra fazendo dela um palanque 
para difuso de mentirinhas tolas convenientes ao seu partido... Como  que o senhor Olavo sabe que eu fao isso? Onde investigou? Se tivesse investigado saberia 
que, faz muitos anos, me aposentei, e acho que no desonrei a UNICAMP como professor, porque ela me conferiu o ttulo de "Professor Emrito". Assim, faz muitos anos 
que no dou aulas. No tenho uma classe de alunos a quem enganar com mentirinhas tolas convenientes ao meu partido... Meu partido. O senhor Olavo assume que sou 
petista. Como chegou a essa concluso? Nunca tive atividade poltica. Nunca fui ligado a partido algum. Nunca tive qualquer atividade poltica. De onde retirou o 
senhor Olavo de Carvalho essas afirmaes? Mais uma vez  a psicanlise que explica, com o seu saber sobre as patologias mentais: em situaes de surto psictico 
a mente perde a sua funo de teste da realidade. Inundada pelas suas prprias alucinaes, ela as toma como se fossem a verdade. Diz o psictico: "Pensei? Ento 
 verdade..." Assim procede o senhor Olavo... 

O que fez o senhor Olavo de Carvalho entrar em surto? Um texto que circula pela Internet. O filsofo diz que leva a minha assinatura. Mas isso no  verdade. Textos 
de Internet jamais levam assinaturas. Levam nomes. De Descartes os filsofos aprenderam que a primeira virtude filosfica  a dvida. Parece que o senhor Olavo de 
Carvalho no o leu. Se leu, no aprendeu. Ele no duvidou. Acreditou ingenuamente. To ingenuamente que confundiu nome com assinatura. Se ele tivesse duvidado filosoficamente 
ele teria investigado antes de afirmar. E isso  fcil: h o telefone, h os e-mails. Muitas pessoas, perturbadas pelo dito artigo que leva o meu nome, entraram 
em contato comigo, pedindo esclarecimentos. Mas o senhor Olavo de Carvalho, ingnuo, acreditou e entrou em surto. 

Afinal de contas, qual a verdade sobre esse artigo que tanta confuso vem provocando? Quem o escreveu? 

O mais importante no  "quem o escreveu?". O mais importante : quando foi escrito? Qual a sua data? Esse foi um artigo escrito h 12 anos. Era o segundo turno 
das eleies: Collor versus Lula. Os partidrios de Collor desqualificavam o Lula alegando suas origens humildes e sua escolaridade deficiente. Trata-se de um argumento 
preconceituoso. Se pedigre social e escolar so precondies para que algum cidado se candidate aos postos pblicos, ento nossas leis devem ser mudadas. O mesmo 
tipo de argumentao poderia ter sido usado contra Abraham Lincoln por seus adversrios, pois tambm ele era homem de origem humilde e que se formou em Direito por 
correspondncia. Escrevi, - sim, fui eu quem escreveu o artigo. Mas, note bem: para uma situao de h 12 anos! - ento, um artigo que era uma armadilha para o leitor, 
armadilha que constru tecendo os preconceitos das pessoas. 

Esse  o artigo, causador de confuso. O senhor Olavo de Carvalho, lendo o que est escrito, concluiu que comparei Lula a Lincoln. Leu mal. Leu preconceituosamente. 
Jamais comparei Lincoln a Lula. Essa comparao seria tola. No h, no dito artigo, uma s sugesto a esse respeito. O objeto do meu artigo, o objeto da minha crtica 
era o argumento que estava sendo usado. Que se critique o candidato, qualquer candidato. Mas no com aquele tipo de argumento. Mas talvez isso seja sutileza demais 
para o senhor Olavo. 

Esse artigo estava enterrado. Nem cpia dele eu tinha. Valia para uma situao passada. No vale para hoje. Portanto, no fui eu quem o colocou na Internet. Quem 
foi? Certamente um militante do PT que, movido pela nsia de ganhar as eleies, e se esquecendo das normas de tica e cordialidade, colou-o l, dando a impresso 
mentirosa de que eu o havia escrito hoje. H, assim, uma ligao estreita entre essa pessoa desconhecida e o senhor Olavo: ambos no se envergonham de fazer uso 
da mentira. 

Se o senhor Olavo tivesse feito uso da virtude da dvida ele se teria poupado um surto e muitos equvocos... 

Quanto ao que o filsofo Olavo de Carvalho pensa de Lula: so pensamentos to grosseiros que, sobre eles, prefiro me calar. Tratando-se de xingamentos, ventilaes 
malcheirosas, a razo se encolhe, silenciosa... 

Quanto aos auto-elogios: o senhor Olavo de Carvalho tem uma alta imagem de si mesmo. Gaba-se de ter adquirido conhecimentos bem superiores aos de vrias dzias de 
Lulas somados a uns quantos Rubens Alves. Os critrios que ele adotou para fazer essa medio me so misteriosos. Deleite para um psicanalista, esta desavergonhada 
exibio de narcisismo! Senhor Olavo, tenha mais cuidado. Exibies narcsicas no provocam admirao. S provocam riso e chacota... 

Sabe, senhor Olavo de Carvalho, no leve a mal o fato de eu ter sugerido que o seu artigo  fruto de um surto psictico. Foi a forma que encontrei para perdo-lo. 
Porque, se foi surto psictico, posso imaginar que, sob outras condies, o senhor poder at mesmo pensar racionalmente. Quem sabe, ento, aproximar-se do filsofo... 

S uma notinha final: faz bem prestar ateno no nome das pessoas. A forma como o senhor escreveu o meu nome indica que o senhor nunca leu nada do que escrevi. Meu 
nome  Rubem, com "m" de Maria no fim, e no Rubens... 

Rubem Alves, 68, professor emrito da UNICAMP, medalha Carlos Gomes de contribuio  cultura, psicanalista, escritor, articulista da Folha de S. Paulo e do Correio 
Popular de Campinas, autor de mais de 30 livros para adultos e mais de 30 para crianas.


CONVERSAS COM EMPRESRIOS
A filosofia das empresas passou por trs fases. A primeira  representada pelo filme Tempos Modernos, de Chaplin - em que a nica coisa que interessava s empresas 
era o lucro: nenhuma preocupao com a vida dos empregados, que eram tratados como engrenagens de uma mquina; nenhuma preocupao com o meio ambiente, que podia 
ser degradado impunemente.  a empresa "mquina".
A segunda fase est descrita no livro The Organization-Man, de Whyte Jr. - em que a empresa descobre a importncia de que seus empregados se sintam bem dentro dela. 
Fazem-se todos os esforos no sentido de que eles tenham relaes harmoniosas entre si e se identifiquem afetivamente com os interesses da empresa. A empresa deve 
ser o mundo do empregado e a imaginao do empregado deve estar restrita ao mundo da empresa.  a empresa "famlia", auto-suficiente e fechada em si mesma.
A terceira fase, que  a que estamos vivendo no momento, se caracteriza por uma revoluo de valores. Se, na primeira e na segunda fases a empresa olhava para o 
mundo exterior apenas como "mercado", isto , lugar do lucro, agora ela olha para o mundo exterior como um espao de vida de que  preciso cuidar. s relaes comerciais 
agrega-se agora uma dimenso tica: o cuidado com o meio ambiente, a cultura, a educao, o bem-estar, no s dos empregados mas de toda a comunidade que a cerca.
A empresa se descobre como companheira, junto com outros homens, de um espao comum que deve ser objeto de cuidado, pois o que est em jogo  a qualidade de vida. 
 a empresa "cuidadora" ou, se quiserem, numa linguagem potica, empresa "jardineira"... Gosto da imagem da jardinagem como metfora para essa relao de cuidado 
com o meio ambiente e com as relaes entre as pessoas. Isso quer dizer que, ao lado do motivo financeiro "lucro" as empresas esto trabalhando sob motivos ticos.
Penso que os empresrios, como "regentes de orquestra", poderiam pensar um programa educativo para os seus "msicos" em trs movimentos:
Primeiro movimento: "A empresa: lugar bom de se viver".
Segundo movimento: "A empresa: lugar bom de se pensar..."
Terceiro movimento: "A empresa: cuidadora do mundo"


 PRECISO TAPAR OS BURACOS DOS RATOS

O nome do filme, acho que era "Queijo Suo". O Gordo e o Magro estavam sem emprego. Precisavam ganhar dinheiro. Ouviram que a Sua era um pas famoso pelos seus 
queijos. Pensaram: "Se na Sua h muitos queijos  lgico que l dever haver muitos ratos. Mas ningum gosta de ratos. E, em especial, os fabricantes de queijos 
devem odiar os ratos. Se no gostam dos ratos  lgico que a Sua deve ser um excelente mercado para matadores de ratos." Tomaram, ento, uma deciso: "Vamos matar 
ratos da Sua". 

Puseram-se, ento, a pensar sobre a tecnologia adequada para matar ratos. Consultaram a bibliografia disponvel. Leram sobre um famoso matador de ratos imortalizado 
pela literatura: um flautista! Aconteceu na cidade de Hamelin que havia sido tomada por milhes de ratos. Eram tantos que gatos e ratoeiras eram inteis. Pois o 
dito flautista se livrou deles de uma forma inslita: ps-se a tocar uma flauta e os ratos, amantes da msica, foram hipnotizados, saram de seus buracos e puseram-se 
a segui-lo por onde ia. Ele, ento, simplesmente entrou no rio que passava pela cidade tocando sua flauta. Os ratos, esquecidos de que no sabiam nadar, entraram 
tambm no rio, foram levados pela correnteza e morreram. 

Mas o Gordo e o Magro no sabiam tocar flauta. Assim, deixaram de lado essa tecnologia musical. Pensaram em usar ratoeiras para matar os ratos. Mas os ratos so 
espertos. Logo eles aprendem sobre as ratoeiras e no mais caem na armadilha mortal. Examinaram, depois, a possibilidade de usar gatos. Mas os gatos logo se tornam 
um problema. Multiplicam-se com rapidez idntica  dos ratos e tornam-se uma peste pior que os ratos, tal como aconteceu no palcio do rei. Alm disto, depois de 
comer todos os ratos a fome dos gatos no cessa e eles passam ento a devorar pssaros, que todos amam por sua beleza e canto. Na ausncia dos ratos, sabis, pintassilgos, 
canrios, rolinhas, pombas e curruiras passam a ser a comida diria dos gatos. 

Descartadas flautas, ratoeiras e gatos, o Gordo e o Magro pensaram:  tolice tentar acabar com os ratos depois que eles entram no quarto dos queijos. O certo  impedir 
que eles entrem no quarto dos queijos. Mas eles s entram no quarto dos queijos se houver buracos. Ora, se os buracos forem tampados eles no podero entrar. No 
entrando, os queijos no sero comidos. Concluram, ento, que a eliminao cientfica dos ratos se consegue por meio de uma tcnica baseada na dialtica entre buracos 
abertos e buracos tampados. 

Munidos dessa nova tcnica bateram  porta da primeira fbrica de queijos e ofereceram seus servios. O dono ficou encantado porque havia muitos ratos a comer os 
seus queijos. O Gordo e o Magro se puseram a trabalhar. A primeira coisa que fizeram foi tirar de sua caixa de ferramentas uma pua grossa com a qual fizeram um buraco 
redondo no assoalho do depsito dos queijos. O dono da fbrica lhes perguntou: "Para que esse buraco?" Responderam: "Para os ratos passarem!" A seguir, tiraram da 
mesma caixa de ferramentas um tarugo de madeira com o qual tamparam o buraco que haviam feito. "Para que esse tarugo de madeira no buraco?" perguntou de novo o dono 
da fbrica. E eles responderam: "Para os ratos no passarem..." 

No me lembro do final do filme. Mas sei que o Gordo e o Magro estavam certos: para acabar com os ratos  preciso tampar os buracos por onde entram. 

A eu me perguntei: "Mas quem  que faz os buracos pelos quais os ratos entram no quarto dos queijos?" 

A resposta  simples: os ratos entram no quarto dos queijos porque ns, cidados, fazemos os buracos. Os ratos esto l por culpa nossa. Os buracos atravs dos quais 
os ratos entram so os nossos votos. Os ratos entram no quarto dos queijos democraticamente... 

 fcil fazer um regime com votos e eleies. Votos e eleies do a impresso de democracia... Mas no bastam para impedir a invaso dos ratos. Votos e eleies 
so apenas meios - necessrios mas no suficientes - para que a democracia acontea. A democracia se assemelha a uma obra de arte. Tome a Piet, por exemplo. Ela 
no  o resultado de cinzis e martelos, embora cinzis e martelos tenham sido usados por Michelangelo para esculpi-la. Mas, antes que cinzis e martelos fossem 
usados, foi necessrio que a idia da Piet tivesse surgido na cabea de Michelangelo. Os cinzis e martelos foram apenas os meios usados pelo artista para realizar 
sua idia. Assim  a democracia: ela  uma obra de arte coletiva. Comea com as idias do povo. Votos e eleies so meios para que o pensamento do povo se realize. 

Aqui se encontra a delicadeza e fragilidade da democracia: para que ela se realize  preciso que o povo saiba pensar. Se o povo no souber pensar, votos e eleies 
no a produziro. A presena dos ratos na vida pblica brasileira  evidncia de que o nosso povo no sabe pensar, no sabe identificar os ratos... No sabendo identificar 
os ratos, o prprio povo, inocentemente, abre os buracos pelos quais eles entraro. 

Mas, o que  que ensina o povo a pensar?  a educao. O fundamento da democracia  a educao do povo. 

Os presena dos ratos na vida poltica brasileira, sendo evidncia de que o nosso povo no sabe pensar , assim, evidncia tambm de que nossas instituies de educao 
e ensino no cumpriram a sua misso mais importante que  a de ensinar o povo a pensar. Ensinar o povo a pensar: isso no se identifica nem com a transmisso de 
conhecimentos e nem com a produo de pesquisas. 

 hora de perguntar: o que h de errado com a educao no Brasil? Se a educao no cumprir a sua misso o povo no aprender a pensar e estaremos condenados a conviver 
permanentemente com os ratos. E, infelizmente, no  possvel chamar o Gordo e o Magro para tapar os buracos por onde os ratos entram... (Folha de S. Paulo, Tendncias 
e Debates, 18/06/2001.) 

BRINCANDO COM O DESCONHECIDO...

Na minha infncia nasce uma infncia ardente como o lcool. Eu me assentava nos caminhos da noite. Escutava o discurso das estrelas e o da rvore. Agora a indiferena 
neva a noite na minha alma. (Vincent Huidobro, citado por Bachelard)

Deixei a roa sem saudades. A saudade s veio muito mais tarde, com a velhice. A velhice  quando se sai em busca do tempo perdido... Escrevo para tranqilizar a 
saudade. Ao escrever vivo de novo a infncia que vivi. Mas nem sei se vivi... No sei se a infncia da minha memria  a infncia acontecida ou um devaneio potico, 
a infncia que eu gostaria de ter vivido. Talvez ao escrever, eu, velho, esteja vivendo agora o que nunca vivi... Sonhar  uma forma de viver.
No sofri com a mudana. Parafraseando Alberto Caeiro digo que as crianas so de novo nascidas a cada momento para a eterna novidade do mundo: mundo sempre novo, 
diferente, surpreendente, fantstico, assombroso, incrvel, desafiante. "Decifra-me ou te devoro!" E as crianas, como dipo diante do desafio da Esfinge, se pem 
a decifrar o mundo...
No me importava que a casa para onde nos mudamos fosse uma caixa de fsforos. Eu no sabia que ela era uma caixa de fsforos. Menino, ainda no fora picado pela 
maldio da comparao. Muito mais importante era o fato de que ela se encontrava aos fundos de um Castelo Encantado. Ele ficava no alto de uma colina e era maior 
do que tudo o que eu jamais vira. Sempre fechado e misterioso, dos seus ptios vazios se via um lago azul imenso, coisa que eu desconhecia porque na roa eu s conhecera 
riachinhos e lagoinhas. Eu gostava de ver os marrequinhos que nadavam... Meu pai me levou a visit-lo por dentro, graas  amizade que fizera com o guarda do Castelo. 
Salas imensas, empoeiradas, silenciosas, escuras, os mveis cobertos com lenis, lustres de cristal, veludos vermelhos e verdes. Todas as coisas dormiam. Era assim 
no Castelo onde dormia a Bela Adormecida... Mais tarde me explicaram, e com a explicao o Castelo perdeu os seus mistrios. Porque explicar, se  que no sabem, 
significa tirar as dobras, tornar liso (como a passadeira que com o ferro passa a roupa), estender o que estava enrolado. As explicaes acabam com as sombras e 
com o encanto. Havia sido um cassino. Fora aberto por uma noite, uma nica noite. Depois, por ordens superiores que ignoro, fora fechado. Como cassino nunca mais 
existiu. Hoje nele funcionam reparties da prefeitura. Estive l. Os funcionrios no sabem que ali, h muitos anos, existiu um Castelo Encantado.
Eu sabia que acabara de entrar num outro mundo, desconhecido. O desconhecido no me dava medo. Ao contrrio. Era uma sensao de espao e liberdade, o que me enchia 
de alegria. Eu tive uma cadela que quando ainda menina, repentinamente, sem nenhuma razo especial, se punha a correr e a saltar como doida, em crculos, pela prpria 
alegria de correr. Sim, tambm os animais sentem alegria! E eu me vejo, menino de 6 anos, como a minha cadela menina, correndo de alegria, sem nenhuma razo, entrando 
pela porta da frente da casa, atravessando alpendre, a sala, saindo pela porta da cozinha, voltando para a frente da casa, para fazer tudo de novo, em crculos...
As evidncias da novidade do mundo estavam na minha casa. A primeira era a maravilha das lmpadas eltricas que pendiam do teto ao fim de um fio coberto de cocs 
de moscas. Mas que so cocs de moscas diante de assombro? Bastava girar uma orelha no bocal para que a lmpada se acendesse! Adeus lamparinas! Adeus, cheiro de 
querosene! Adeus, fuligem negra! Na roa todos os objetos eram transparentes. Bastava olhar para eles para compreender sua lgica, os mecanismos do seu funcionamento. 
Na roa o mundo e a vida eram misteriosos, mas os objetos no. Uma lamparina, nada mais simples: um recipiente de vidro ou lata, querosene, pavio, fogo, luz. Era 
fcil fazer uma lamparina. Mas a lmpada eltrica pertencia a um novo mundo onde moravam objetos misteriosos. Quem pode fazer uma lmpada? Que coisa  essa chamada 
eletricidade que ningum v e que faz a lmpada acender? A outra evidncia era a privada. Bastava puxar uma cordinha para que acontecesse uma descarga de gua que 
fazia desaparecer os cocs...
Meu pai era uma criana. As crianas verdadeiramente crianas ficam felizes por pouca coisa. E isso porque elas possuem o poder mgico de transformar aquilo que 
 nada em algo que  muito. Pelo poder da imaginao um cabo de vassoura se transforma num cavalo e uma caixa de sapatos vazia amarrada a um barbante  um carrinho. 
Pois assim era o meu pai: ele sabia transformar nadas em coisas boas. Mesa a gente no tinha. Meu pai foi a um armazm, arranjou um caixote grande de madeira, trouxe-o 
para casa, tirou uma porta das dobradias, pregou a porta sobre o caixote - e eis a nossa mesa! Infelizmente a mesa apresentava um problema devido  sua construo: 
ela funcionava como uma gangorra. Quem estivesse assentado  cabeceira, se se apoiasse sobre ela, corria o risco de receber uma terrina de feijo na testa. Guarda-roupas, 
nem pensar. Mas meu pai no se perturbou. Juntou uns cabos de vassoura abandonados, fez buracos nos ngulos das paredes e neles encaixou os cabos de vassoura que 
assim se transformaram nos nossos guarda-roupas onde pendurvamos nossas roupas. Tambm, eram to poucas...
Um dia o pai chegou de uma de suas viagens com uma surpresa: uma caixa de doce de laranja de cinco quilos ficara encalhada e assim ele a trazia como presente. Foi 
uma felicidade! Ns comeramos sobremesa! No primeiro dia foi uma festa. Tambm no segundo, no terceiro e no quarto. Acontece, porm, que cinco quilos de doce de 
laranja  muito doce. Por mais que a comssemos a laranjada no diminua de tamanho. Transcorridas duas semanas j no podamos ver a caixa que voltava sempre para 
a mesa. E, sendo pobres, no podamos nos entregar ao luxo de jogar fora a laranjada. O que queramos no era um outro doce. Queramos era parar de comer a laranjada... 
Levou muito tempo para que ela terminasse. Mas deixou um trauma. At hoje o corpo estremece ao ouvir falar de laranjada...

  Produzi dois CDs de estrias infantis: Quatro Estrias, com o violeiro Ivan Vilela. E Rubem Alves Conta Estrias, com o Dcio Lauretti. Podem ser encontrados nas 
Livrarias Pontes, Papirus e na Livros Neli.
 Dois filmes que no podem ser perdidos: As Horas e O Pianista. O filme O Pianista termina como uma pea de concerto, a Grande Polonaise Brilhante, de Chopin, para 
piano e orquestra, que dura aproximadamente 9 minutos. Fiquei assombrado que, quando a execuo se iniciou, muitas pessoas comearam a sair. O que simplesmente demonstra 
que elas viram o filme mas no conseguiram entrar na alma do pianista... Pena.
No vou mais tomar Coca-Cola e nem comer hambrguer por razes polticas...

CAMIMHANDO E CANTANDO E SEGUINDO A CANO...
Compreendo as razes que moram na cabea do presidente Bush. Paz e violncia no podem conviver.  preciso pr fim  violncia para se viver em paz. No h mais 
lugares seguros em nosso mundo. Vo as pessoas vivendo tranquilamente as suas vidas e, repentinamente, explode o horror. Basta que haja pessoas reunidas para que 
o terrorismo ataque. E para tornar a situao ainda mais terrvel, h os Estados que secretamente constrem arsenais de armas de destruio em massa: bombas atmicas, 
foguetes, armas bacteriolgicas, armas qumicas. s vezes tenho pesadelos de fim do mundo e de repente cuidar dos meus jardins, coisa to mansa, perde o sentido. 
Olho os casais sorridentes com seus filhinhos nos braos. E fico a pensar no futuro, em se haver um futuro para essas crianas. Esse Saddam Hussein  um ditador 
sanguinrio para quem a morte de um milho de inocentes nada significa. Ento, assim pensa o presidente Bush, nada mais justo que o uso da fora para desarm-lo 
e para acabar com o terrorismo.
Mas as razes do presidente Bush sofrem de uma grave limitao: so mopes, so modestas demais. O certo  que aquilo que o presidente Bush est fazendo e quer fazer 
com Saddam seja universalizado e seja aplicado a todos os pases do mundo: todas as armas deveriam ser destrudas. Quem constri armas as constri com inteno de 
us-las. E quem constri bombas atmicas, foguetes, armas bacteriolgicas e qumicas est se preparando para o fim do mundo. Todos os fabricantes de armas devem 
ficar sob suspeita. Saddam Hussein,  preciso reconhecer, no passa de um porco-espinho no meio de tigres.  ridculo caar porcos-espinhos quando h tigres  solta. 
Os espinhos do porco-espinho machucam,  bem verdade. Mas eu suspeito que os porcos-espinhos desenvolveram os seus espinhos por medo dos tigres. Sem os espinhos, 
h muito teriam sido devorados...
Por que somente o porco-espinho tem de mostrar e arrancar seus espinhos, enquanto os tigres permanecem impunes? Continuam a rugir, a ameaar, a mostrar dentes e 
garras, e no h ONU que tenha poder e coragem para dizer: "A lei para os porcos-espinhos ser lei tambm para os tigres."
Ah! Que sonho incrvel: uma comisso da ONU inspecionando os laboratrios militares, as fbricas de armas e os arsenais dos Estados Unidos...  claro, isso  delrio 
de escritor. Diante dessa proposta inslita o presidente Bush se riria e retrucaria sem se ruborizar: "Os Estados Unidos tm o direito de fabricar e estocar as armas 
que quiser por serem um pas digno de confiana. Usamos as armas, sim, mas sempre por razes justas, em defesa da liberdade e da democracia. Somos os policiais do 
mundo..."
Essa tem sido uma crena partilhada pela maioria do povo norte-americano. Quem primeiro a exprimiu de maneira clara, se no me engano, foi Reuben Clark, secretrio 
de estado, h mais de um sculo. Ele declarou que a poltica exterior dos Estados Unidos  sempre determinada pela verdade e pela justia. Sendo assim o uso das 
armas est justificado.
Essa crena se incorporou na figura mitolgica do ator John Wayne. Ele simboliza o heri solitrio, forte e puro que, sozinho, enfrenta e derrota os bandidos. Klint 
Eastwood, Rambo, Super-Homem so variaes desse mesmo tema: "Somos o Cavaleiro Justo que luta contra o Drago da Maldade..." Quem no est conosco est contra ns. 
Trata-se de uma mitologia religiosa que o prprio presidente Bush definiu de forma teolgica, ao afirmar que o que est em jogo  o confronto entre o Bem e o Mal, 
entre Deus e o Demnio...
As imagens mticas, como todas as imagens religiosas, no permitem que se veja com clareza. Assim, compreende-se que o povo americano ao olhar para o seu passado 
s veja o Cavaleiro Justo em defesa da liberdade e da democracia. Mas o que o passado nos conta  trgico.
Gabriel Garca Mrquez, numa carta dirigida ao presidente Bush aps o ataque contra o World Trade 
Center, perguntou: O senhor sabia que entre 1824 e 1994 o seu pas levou a cabo 73 invases a pases da Amrica Latina? As vtimas foram Porto Rico, Mxico, Nicaragua, 
Panam, Hait, Cuba, Honduras, Republica Dominicana, Ilhas Virgens, El Salvador, Guatemala e Granada. No, so poucos os que se lembram.
As armas bacteriolgicas so as mais terrveis. So invisveis. No fazem barulho. Ao que me consta - e nisso estou pronto a ser corrigido se minha informao for 
incorreta - foi o exrcito americano o primeiro a se valer dela. Aconteceu no sculo XIX. Havia uma nao indgena que precisava ser eliminada para permitir a expanso 
colonial para o oeste. Uma operao militar convencional seria possvel mas traria muitos problemas. Surgiu, ento, a possibilidade de se usar o poder letal das 
bactrias. Foram enviados aos ndios, bondosamente, como presentes de boa vontade, cobertores, to necessrios como defesa contra o frio. S que os ditos cobertores 
haviam sido usados por moribundos de varola.
Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos conseguiram fabricar bombas atmicas. Seriam armas terrveis que rapidamente poriam um fim ao conflito, coisa que 
todo mundo desejava. To terrveis e devastadoras, poderiam ter sido lanadas sobre alguma ilha deserta ou sobre o mar. A simples contemplao da exploso levaria 
o exrcito japons a se render. Mas no. Foram escolhidas duas cidades onde moravam civis, velhos, mulheres, crianas, operrios, todos eles vtimas inocentes da 
loucura blica dos militares japoneses: Hiroshima e Nagasaki. 80.000 inocentes mortos em poucos segundos. 250.000 mortos nos anos seguintes, em consequncia das 
radiaes.
E que dizer do Vietn? (Afinal de contas, o que  que os americanos tinham a ver com o Vietn?). Dos horrores do Vietn lembramo-nos das bombas de napalm e dos produtos 
qumicos despejados sobre as florestas. A imagem mais horrenda: o massacre da aldeia de My-Lay onde nem mesmo os nenezinhos foram poupados.
Quanto s armas qumicas, os gases, acaba de ser revelado que uma fbrica de gs mostarda, usado por Saddam e seu exrcito na guerra contra o Ir, foi construda 
com dinheiro e tecnologia da Inglaterra e conhecimento e apoio dos Estados Unidos. Naquela ocasio Saddam era um aliado... Tinha, portanto, permisso para fabricao 
e uso da arma proibida. Como  isso? Os gases so bons quando se trata de liquidar o inimigo?
Assombra-me o desrespeito  mais simples coerncia. Bush ameaa Saddam com a guerra por no obedecer as determinaes da ONU. Mas ele mesmo declara que no necessitar 
de aprovao da ONU para iniciar a guerra. Saddam precisa obedecer; Bush no precisa obedecer. Quem ir retaliar contra os Estados Unidos se Bush iniciar a guerra 
em desrespeito s decises da ONU?  a continuao da Big Stick Policy, poltica do porrete grande, enunciada pelo presidente Theodore Roosevelt: "Fale suavemente, 
tenha um porrete grande na sua mo, voc ir longe..." A verdade no importa quando se tem um porrete na mo.
O que  assombroso  que os Estados Unidos, nos ltimos dez anos, desembolsaram cerca de dois e meio trilhes de dlares (2.500.000.000) com gastos militares. Essa 
quantia teria sido mais do que suficiente para resolver os problemas fundamentais do nosso mundo de onde surge a violncia.
Mas  intil argumentar com quem tem o porrete nas mos. A lgica do porrete  mais forte que a lgica da razo. A mim s me resta um ato tolo: caminhar e cantar 
e seguir a cano... Talvez as canes tenham mais poder que os porretes...
"E talvez chegar o grande dia em que um povo, notvel por guerras e vitrias e pelo mais alto desenvolvimento de uma ordem e Inteligncia militares, e acostumado 
a fazer os mais altos sacrifcios por essas coisas, exclamar livremente: 'Ns quebramos a espada!' - e com isso destruir suas organizaes militares at seus mais 
profundos fundamentos. Tornar-se desarmado quando se foi o mais bem armado, a partir de um sentimento - esse  o meio para a paz real, que deve descansar sobre a 
paz de esprito. Antes perecer que odiar e temer, e duplamente antes perecer que fazer-se odiado e temido - essa deveria se tornar, algum dia, a mxima suprema para 
cada povo." (Nietzsche)
 As duas ilustraes dessa crnica (Cartaz de recrutamento norte-americano para a primeira guerra mundial e Massacre da Coria, de Picasso) foram retiradas dos 
livros Tempo e Espao, da coleo Histria, de Flvio Costa Berutti (Formato Editorial Ltda.). So uma leitura deliciosa. Eu os abri e no conegui parar. As ilustraes, 
fotografias, desenhos, obras de arte, caricaturas da poca, so maravilhosas. S de olhar a gente aprende. Uma dica para os professores de Histria. 
(Correio Popular, 16/03/2003)

SOBRE ARMADURAS E FORMIGAS 
O presidente Bush tinha um grande sonho. Sonhava transformar o seu pas numa bolha imensa que fosse, ao mesmo tempo, auto-suficiente e impenetrvel. 
Ser auto-suficiente  no precisar de ningum. Quem precisa de um outro  fraco. E a idia de fraqueza no combina com os Estados Unidos... Pas imenso, de todos 
o mais rico, de todos o mais forte, de todos o que mais sabe: ele se basta a si mesmo... Auto-suficiente, no precisa dar ouvidos ao que o resto do mundo tem a dizer. 
E foi assim que Bush iniciou o seu governo: com gestos claros, anunciou que o seu pas era auto-suficiente, no dependia de ningum e seguiria o seu caminho, indiferente 
ao resto do mundo: no assinaria o Protoclo de Kyoto. 
Faz tempo que os cientistas vm chamando a ateno do mundo para o aumento crescente das emisses do gs CO2 - o principal responsvel pelo efeito estufa. O que 
se teme  que o efeito estufa venha a causar um impacto catastrfico sobre o clima e o meio ambiente, o que colocaria em perigo a vida e a prpria civilizao. Mas 
isso no acontece da forma espetacular como um ataque terrorista, embora seja mais letal.  como a ato de fumar: a morte demora a chegar... Em 1997 houve uma reunio 
em Kyoto em que as naes participantes elaboraram um Protocolo relativo a esse perigo. 
Esse protocolo estabelecia que os pases industrializados deveriam reduzir em 5.2% as emisses de CO2, at 2012. Os Estados Unidos so responsveis por 25% das emisses 
totais de CO2. Assim, seria indispensvel que o governo norte-americano assinasse o referido protocolo, para que ele tivesse consequncias prticas: essa era uma 
questo vital para o mundo inteiro. Pois Bush iniciou o seu governo anunciando que os Estados Unidos no o assinariam. Com esse ato Bush condenou natureza e pessoas, 
o mundo inteiro, a "fumar passivamente" os venenos gasosos que so produzidos por sua prosperidade. Globalizao sim! Mas alto l!. S em relao a questes econmicas 
e militares. Questes ambientais no entram na globalizao... 
Mas o seu sonho era mais ambicioso. No bastava que os Estados Unidos fossem auto-suficientes. Teria que ser um pas impenetrvel. Planejou ento cobri-lo com um 
gigantesco escudo defensivo que o protegeria de quaisquer ataques que lhe viessem de cima. Porque de baixo ningum se atreveria. 
Imaginei que essa fantasia deve ter sido inspirada pelas imagens dos guerreiros medievais em armaduras de ferro que nenhuma flecha ou espada poderia penetrar. O 
pas sonhado por Bush: impenetrvel como um guerreiro medieval... 
A psicanlise ensina que, frequentemente, o cmico  uma defesa contra o horror. Como estou dominado pelo horror, imagens cmicas comearam a vir em meu socorro. 
Formigas lava-p. Seus formigueiros no parecem formigueiros. Sua aparncia  a de uma crosta de terra lisa, inofensiva. Mas ela  fofa. E, debaixo dela, centenas, 
milhares de formigas, nfimas, velocssimas, que se lanam de forma suicida ao ataque, to logo a crosta do seu formigueiro seja rompida. Elas sobem pelos ps, pelas 
pernas, entram dentro dos sapatos, das meias, no meio dos dedos - e vo espalhando suas picadas de pimenta por onde quer que passem. A vtima, ento, tem de fugir 
do campo minado, arrancar sapatos, as meias, suspender as calas e atacar as formigas aos tapas e esfreges. Ao final, mortas as formigas, ps e pernas doloridos 
e inchados, parece que a vtima no final triunfou. Engano. Foi um triunfo passageiro. Porque os formigueiros possuem uma capacidade assombrosa de auto-regenerao 
e multiplicao. Dos milhares de ovos brancos da formiga-rainha novas formigas, pequenas, velozes, guerreiras, venenosas e suicidas, surgiro. O formigueiro ser 
reconstruido, talvez num outro lugar. E l elas ficaro se reproduzindo,  espera... 
A cena cmica que me apareceu foi essa: dois guerreiros medievais, em luta no campo de batalha. Os golpes das espadas ressoando e resvalando pelas armaduras de ferro. 
Batalha feroz! Mas, repentinamente, um deles pisa num formigueiro de formigas lava-p. A batalha horrenda se transforma, ento, numa coreografia ridcula: o guerreiro 
brandindo a espada com uma das mos e saltando sobre uma perna s, enquanto se esfora freneticamente com a outra mo para descalar os sapatos de ferro em cujo 
interior as nfimas formigas lava-p fazem o seu trabalho... 
A primeira lio das torres foi: no h armaduras sem frestas. Formigas lava-p penetram por qualquer fresta. Mas o comportamento do presidente Bush mostra que ele 
no compreendeu a lio. Atira-se furiosamente contra o formigueiro, ignorando que h frestas mais terrveis que torres, frestas que a fora no pode tapar. Imaginei 
que Bin Laden - se  que foi ele mesmo - do seu esconderijo, poderia fazer um ataque mais sutil, s de palavras. Bastaria anunciar: "Deixamos uma bomba atmica armada 
numa das grandes cidades dos Estados Unidos a ser detonada quando o ataque americano se iniciar!" Puro blefe. Mas o pnico da populao seria mais terrvel para 
o pas que a exploso das torres. E h as terrveis frestas criadas pelo desenvolvimento cientfico: bactrias mortais que podem ser levadas em tubos de ensaio, 
a serem abertos imperceptivelmente, em metrs, igrejas, super-mercados, teatros, bancos, bolsas de valores... 
No h armaduras impenetrveis. Todas as armaduras tem frestas. Ou aprendemos a conviver como seres racionais ou estamos condenados a uma violncia cada vez maior. 
Bush ignora o mundo quando o que est em jogo so os interesses das naes e dos povos, no sentido de uma poltica de vida e de paz. 
Bush convoca e ameaa o mundo quando o que est em jogo  a sua sua poltica de morte e guerra. 

O DISCRETO BATER DE ASAS DE ANJOS...
O Victor  um adolescente. Arranjou um emprego no MacDonald's. No MacDonald's trabalham adolescentes. Antes de iniciar o seu trabalho eles so treinados. So treinados, 
primeiro, a cuidar do espao em que trabalham: a ordem, a limpeza, os materiais - guardanapos, canudinhos, temperos, badejas.  preciso no desperdiar. Depois, 
so treinados a lidar com os clientes. Delicadeza. Ateno. Simpatia. Sorrisos. Boa vontade. Clientes no devem ser contrariados. Tm de se sentir em casa. Tm de 
sair satisfeitos. Se sairem contrariados, no voltaro. O Victor aprendeu bem as lies: comeou o seu trabalho. Mas logo ele descobriu uma coisa que no estava 
de acordo com o aprendido: os adolescentes, fregueses, no cuidavam das coisas como eles, empregados, cuidavam.
Tiravam punhados de canudinhos, alm do necessrio, para brincar. Usavam mais guardanapos do que o necessrio. Punham as bandejas dentro do lixo. A o Victor no 
conseguiu se comportar de acordo com as regras. Se ele e os seus colegas de trabalho obedeciam as regras era necessrio que os clientes obedecessem as mesmas regras. 
Isso vale no s para o MacDonald's como tambm para toda a vida social. Por que sorrir e ser delicado com fregueses que no respeitavam as regras de educao e 
civilidade? E ficou claro para todo mundo, colegas e clientes, que o Victor no estava seguindo as lies... O chefe chamou o Victor. Lembrou-lhe o que lhe havia 
sido ensinado. O Victor no se convenceu. No cedeu. Disse de forma clara o que estava sentindo. O que ele desejava era coerncia. Aquela condescendncia sorridente 
era uma m poltica educativa. Era injustia. Os seus colegas de trabalho sentiam e pensavam o mesmo que ele. Mas eram mais flexveis... No reclamavam. Engoliam 
o comportamento no educado dos clientes-adolescentes com o sorriso prescrito. E o chefe, sorrindo, acabou por dar razo ao Victor. Qual a diferena que havia entre 
o Victor e os seus colegas? O Victor tem sndrome de Down. 
O Edmar  um adolescente. Calado. Quase no fala. Arranjou um emprego como lavador de automveis num posto. Emprego bom para ele porque no  necessrio falar enquanto 
se leva um carro. Mas de repente, sem nenhuma explicao, o Edmar passou a se recusar a trabalhar. Ficava quieto num canto sem dar explicaes. O Edmar, como o Victor, 
tem sndrome de Down. A "Fundao Sndrome de Down", que havia arranjado o emprego para o Edmar, foi informada do que estava acontecendo. Que tristeza! Um bom emprego 
- e parece que o Edmar ia jogar tudo fora. O caminho mais fcil seria simplesmente dizer: "Pena. Fracassamos. No deu certo. Pessoas com sndrome de Down so assim..." 
Mas a encarregada da incluso no aceitou essa soluo. Tinha de haver uma razo para o estranho comportamento do Edmar. E como ele  calado e no explica as razes 
do que faz, ela resolveu fazer uma coisa radical: empregou-se como lavadora de carros, no posto onde o Edmar trabalhava. E foi l, ao lado do Edmar, que ela descobriu 
o n da questo: o Edmar odiava o "pretinho" - aquele lquido que  usado nos pneus. Odiava porque o tal lquido grudava na mo, no havia jeito de lavar, e a mo 
ficava preta e feia. O Edmar no gostava que sua mo ficasse preta e feia. Todos os outros lavadores - sem sndrome de Down - sentiam o mesmo que o Edmar sentia, 
em relao ao "pretinho". Tambm eles no gostavam de ver suas mos pretas e sujas. No gostavam mas no reclamavam. A soluo? Despedir o Edmar? De jeito nenhum! 
A "lavadora" ps-se a campo, numa pesquisa: haver um outro lquido que produza o mesmo resultado nos pneus e que no seja preto? Descobriu. Havia. E assim o Edmar 
voltou a realizar alegremente o seu trabalho com as mos brancas. E, graas a ele, e ao trabalho da "lavadora", todos os outros puderam ter mos limpas ao fim do 
dia de trabalho. 
Essa  uma surpreendente caracterstica daqueles que tm sndrome de Down: no aceitam aquilo que contraria o seu desejo e suas convices. O Victor desejava coerncia. 
No iria engolir o comportamento no civilizado de ningum. O Edmar queria ter suas mos limpas. No iria fazer uma coisa que sujasse suas mos. Quem tem sndrome 
de Down no consegue ser desonesto. No consegue mentir. E  por isso que os adultos se sentem embaraados pelo seu comportamento. Porque os adultos sabem fazer 
o jogo da mentira e do fingimento. Um adulto recebe um presente de aniversrio que julga feio. A, com o presente feio nas mos, ele olha para o presenteador e diz 
sorridente: "Mas que lindo!" Um adolescente com sndrome de Down, numa situao assim, simplesmente tomaria o presente e diria, tambm com um sorriso, ao presenteador: 
"Vou dar o seu presente para o Fulano. Ele vai gostar..." 
As crianas normais, na escola, aprendem que elas tem de engolir jils, mandioca crua e pedaos de nabo: coisas que no fazem sentido. Aprendem o que  "dgrafo", 
"prclise", "nclise", "mesclise", os "usos da partcula se" ... Voc ainda se lembra? Esqueceu? Mas teve de estudar e responder certo na prova. Esqueceu, por que? 
Por que no fazia sentido. 
Fazer sentido: o que  isso?  simples. O corpo - sbio - carrega duas caixas: a caixa de ferramentas e a caixa dos brinquedos. Na caixa de ferramentas esto todas 
as coisas que podem ser usadas. No todas, evidentemente. Caso contrrio a caixa teria o tamanho de um estdio de futebol. Seria pesada demais para ser carregada. 
Se vou cozinhar, na minha caixa de ferramentas devero estar coisas necessrias para cozinhar. Mas no precisarei de machados e guindastes. A memria s carrega 
as ferramentas que so necessrias para resolver os problemas da vida prtica. Na outra caixa, de brinquedos, esto todas as coisas que do prazer: pipas, flautas, 
estrias, piadas... Se a coisa ensinada nem  ferramenta e nem  brinquedo, o corpo diz que no serve para nada. As crianas "normais", havendo compreendido que 
os professores e diretores so mais fortes que elas - eles tm o poder de reprovar - submetem-se. 
Fazem um esforo doloroso, comem os jils, as mandiocas cruas e os pedaos de nabo, porque tero de devolv-los nas provas. Mas logo se esquecem. O que  o nosso 
caso... As crianas e adolescentes com sndrome de Down simplesmente se recusam. Elas s aprendem aquilo que  expresso do seu desejo. Entrei numa sala, na "Fundao 
Sndrome de Down". Todos estavam concentradssimos equacionando os elementos necessrios para a produo de um cachorro quente. Certamente estavam planejando alguma 
festa... Numa folha estavam os elementos necessrios: salsicha, po, vinagrete, mostarda... Entrei no jogo. "Esse cachorro quente de vocs no  de nada. Est faltando 
a coisa mais importante!" Eles me olharam espantados. Teriam se esquecido de algo? Seu cachorro quente estaria incompleto? Respondi: "Falta a pimenta!" Eles se abriram 
ento num sorriso triunfante e viraram a folha. Na segunda folha l estava: "pimenta". 
A, vocs adultos, vo dizer: "Que coisa mais boba estudar um cachorro quente!" Respondo que bobo mesmo  estudar dgrafo, usos da partcula se, os afluentes da 
margem esquerda do Amazonas e assistir o "Show do Milho". Um cachorro quente, um prato de comida, uma sopa: que maravilhosos objetos de estudo. J pensaram que 
num cachorro quente se encontra todo um mundo? Querem que eu explique? No explicarei. Vocs, normais, que tratem de pensar e concluir. A sabedoria das crianas 
e adolescentes com sndrome de Down diz: "Dignas de serem sabidas so aquelas coisas que tm a ver com a minha vida e os meus desejos!" Mas isso  sabedoria para 
todo mundo. Sabedoria fundamental que se encontra nas crianas e que vai sendo progressivamente perdida  medida que crescemos. 
O esforo  para devolver os portadores de sndrome de Down  vida comum de todos ns. Ns todos habitamos um mesmo mundo.  estpido e injusto segreg-los em espaos 
e situaes fechadas. Claro que vocs j leram a estria da Cinderela - antigamente "Gata Borralheira". Eu acho que a "Gata Borralheira", na vida real (todas as 
estrias brotam de situaes reais) era uma adolescente com sndrome de Down. Por isso ficava segregada na cozinha. Mas a estria d uma reviravolta e mostra que 
ela tinha uma beleza que a madrasta e irms no possuiam. E eu sugiro que sua beleza est nessa inteligncia infantil, absolutamente honesta, absolutamente comprometida 
com o desejo que ns, adultos, perdemos ao nos submeter ao jogo das hipocrisias sociais. Quem olhar atentamente para uma criana ou adolescente com sndrome de Down 
poder ver, no seu estado nascente, algo precioso que perdemos pela educao.
Quem quiser saber mais poder visitar a "Fundao Sndrome de Down", em Baro Geraldo.  uma instituio maravilhosa! E digo que me comovi ao observar o carinho, 
inteligncia e persistncia daqueles que l trabalham. E andando pelos seus corredores e salas de repente senti que havia lgrimas nos meus olhos: lembrei-me do 
Guido Ivan de Carvalho - j escrevi sobre ele - que foi um dos seus idealizadores e construtores. 
Sugeri  Lenir, sua esposa durante a vida, que plantasse, para o Guido, uma rvore, no jardim da Fundao. Se vocs no sabem, na estria original da Cinderela no 
havia Fada Madrinha. Quem protegia a Cinderela era a sua me morta, que continuava a viver sob a forma de uma rvore... 
Pensando naquelas crianas e adolescentes lembrei-me de uma afirmao do apstolo Paulo: " Deus escolheu as coisas tolas desse mundo para confundir os sbios - porque 
a loucura de Deus  mais sbia que a sabedoria dos homens..." Quem sabe ser possvel ouvir, naqueles rostos sorridentes, o discreto bater de asas de anjos...


Rubem Alves




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Silvana Poll

Rubem Alves

Silvana Poll
